sábado, 9 de julho de 2022

E daí? Fiz o Caminho Aragonês!

Peregrino na Praza do Obradoiro

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

De trem não é a melhor forma do peregrino chegar a Santiago de Compostela. Mas para mim esta foi a alternativa possível de reencontrar a magnífica Santiago de Compostela, após fazer a peregrinação pelo Caminho Aragonês, de Somport a Puente la Reina – pelas minhas contas, cerca de 190 quilômetros a pé. E apenas até Puente la Reina, pois a partir daí, ou melhor um pouco antes, em Obanos, o Caminho Aragonês se une ao Caminho Francês. E foi exatamente o Caminho Francês que inaugurou, em 2009, a série de minhas peregrinações pelos Caminhos de Santiago. Naquela oportunidade, iniciei o Caminho Francês em Saint Jean Pied de Port e peregrinei em torno de 800 quilômetros a pé nos meses de junho/julho, o que está relatado no primeiro volume da trilogia “Pedras do Caminho”.

Por já ter feito o Caminho Francês, e talvez nem tanto por isso..., afinal, penso em fazê-lo outra vez... mas, pelo fato de ter pouco tempo de férias, não teria condições de continuar a peregrinação pelo Caminho Francês por mais de 600 quilômetros e seguir a pé até Santiago de Compostela.

Além do mais, assim é o Caminho Aragonês: apenas um trecho, em torno de 165 quilômetros – embora no meu caso dei uma ampliada e desviei por uma rota tangencial que leva aos Monastérios de San Juan de la Peña... Como foi possível acompanhar, o Caminho Aragonês atravessa os Pirineus, desde Somport, na divisa com a França, para encontrar em Obanos a rota mais famosa a Santiago de Compostela. A travessia dos Pirineus o coloca ao lado do Caminho Francês e, além da beleza da paisagem, é reconhecida a grande importância que sempre teve na condução de peregrinos por aquela região do Aragão, fosse para Santiago de Compostela, fosse para o trabalho contínuo de evangelização e domínio espanhol em outros pontos da Península Ibérica, na guerra contra os muçulmanos.

Não pensava, contudo, que para um peregrino fosse tão decepcionante adotar outro meio, que não os próprios pés, para ir ao encontro de Santiago. Uma decepção, certamente, que não me contagiou naquele momento, nem deixei que me contagiasse, pois o Caminho Aragonês é fantástico, proporciona experiências únicas e eternas... e, afinal, estava agora em Santiago de Compostela.

Na verdade, não importa se cheguei a pé, a cavalo, de bicicleta, de ônibus, trem ou avião, pois sempre defendi, como peregrino, o respeito a todos os peregrinos que chegam a Santiago por qualquer meio. Como, então, iria me martirizar por ter chegado de trem, e ainda mais, depois de ter peregrinado o fantástico Caminho Aragonês?

Cheguei a Santiago no início da noite de 10 de junho, sob uma fina garoa e me instalei num hotel junto ao casco antigo, já pensando no dia seguinte, em adentrar a Catedral, rever e tocar o Pórtico da Glória, dar um forte abraço na cabeça da imagem de Santiago, por trás do altar-mor, agradecer e orar junto às relíquias do Apóstolo de Cristo, na cripta, confessar, comungar, participar na missa do peregrino e, enfim, vibrar com o espetáculo do botafumeiro!

Fotos, filmes, registrei detalhes da Catedral que não percebi nas duas outras vezes que lá estive, em 2009, ao final do Caminho Francês, e em 2010, Ano Santo, após completar o Caminho Português, desde Oporto. Quantos detalhes! Quantos ainda verei nas próximas vezes em que retornar a Santiago.

Após algumas horas, depois de entrar e sair várias vezes da Catedral, experimentando as várias portas, subindo e descendo as escadarias, sempre sob uma fina garoa, aproveitei para me deliciar com a culinária galega e segui, finalmente, para conhecer a Cidade da Cultura. Fiquei deslumbrado com a concepção e a construção, que já tinha visto num especial de tevê no Brasil, e me motivei a escrever reportagem, capa na edição de junho de 2012 no Jornal Perspectiva, disponível no site www.jornalperspectiva.com.br

Estava programado para ficar mais um dia em Santiago de Compostela – antes de partir para Santander, para descansar na casa dos amigos José Antonio Soto Rojas e Luz Maria, e compartilhar também com o filho José Antonio Soto Conde, que havia passado lua de mel no Brasil, em 2011, com a esposa Maria Angeles, e estavam comemorando o primeiro aniversário da filha Sofia.

No dia seguinte, terceiro e último dia em Santiago de Compostela, voltei a caminhar pelas ruas de pedra, fui à nova Oficina de Peregrinos, para colocar o selo em minha credencial que comprova o Caminho Aragonês. Embora não tivesse o direito de obter mais uma Compostelana, como nas vezes em que completei o Caminho em Santiago de Compostela, fiz questão de colocar o selo, pois, afinal, registra minha passagem por Santiago.

Após a missa, pela primeira vez, fui conhecer o Museu da Catedral, o claustro, o Panteão Real, a Biblioteca, onde está uma réplica do botafumeiro e onde, até aquela data, uma réplica do Codex Calixtinus ocupava o lugar do exemplar original, que havia sido furtado e, até então, continuava desaparecido – mas que viria a ser encontrado dias depois, no início de julho, na garagem na casa de um ex-funcionário da Catedral.

Quantos detalhes! Quantos ainda verei nas viagens futuras a Santiago.

Ah! Da próxima vez chegarei a pé!

Cruz de Santiago na Catedral de Compostela

Coluna do Pórtico da Glória

Imagem de Santiago Apóstolo no altar-mor da Catedral de Santiago

Botafumeiro, no interior da Catedral de Santiago

Freira orienta fiéis sobre os cânticos antes da Missa do Peregrino, na Catedral de Santiago

Santiago Peregrino na fachada da Catedral de Santiago, na Praza do Obradoiro 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Meu reencontro com o Caminho Francês

Ponte junto ao Cruzeiro de San Blas, deixando Monreal

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

7ª etapa – Monreal a Puente la Reina (31,2 km)

Sexta-feira – 08/06/2012

Dormi ouvindo as badaladas do sino da Igreja da Natividade de Nossa Senhora de Monreal e exatamente às seis horas fui acordado pelo primeiro dos seis badalos; e me lembrei da alcadesa do pueblo. Levantei disposto naquela manhã de 8 de junho, ansioso em fazer a última etapa de minha peregrinação pelo Caminho Aragonês a Santiago de Compostela.

Pela janela conferi que não estava chovendo e confiei que o tempo abriria, como viria a acontecer, e poderia desfrutar da bela etapa, que desde Monreal atravessa inúmeros pueblos de Navarra e, pouco antes de chegar a Puente la Reina (em euskera, Gares), oferece ao peregrino a fantástica Ermita Santa Maria de Eunate – uma construção em formato octogonal, envolta em lendas e mistérios –, que, no meu caso, marcaria um reencontro, pois estive lá em 2009, quando peregrinei o Caminho Francês, desde Saint Jean Pied de Port. Naquela ocasião, curioso pelos segredos do Caminho, fazia a etapa de Pamplona a Puente la Reina, quando, em vez de seguir direto de Muruzábal a Puente la Reina – cerca de 4,1 quilômetros –, sai do Caminho Francês e peguei outra estrada, de 4 quilômetros, que me levaria à Eunate. Além de reencontrar Santa Maria de Eunate, aquele dia seria marcado, enfim, pelo reencontro com o meu primeiro Caminho a Santiago de Compostela.

Ao deixar Monreal uma placa sinaliza a extensão de 30,4 quilômetros até Puente la Reina. Um caminho que resgata o antigo traçado jacobeo e passa por Yárnoz, Otano, Ezperun, Guerendiáin, Tiebas, Campanas, Muruarte de Reta, Olcoz, Enériz, Santa Maria de Eunate e Obanos – pueblo que também recepciona os peregrinos que chegam pelo Caminho Francês e que, na verdade, é onde os dois importantes Caminhos de Santiago, os dois Caminhos que atravessam os Pirineus, o Francês e o Aragonês, se encontram... Hoje, esse marketing é aproveitado por Puente la Reina.

Não muito distante outra placa indica o Cruzeiro de San Bras, a 120 metros, de estilo gótico renascentista, e alerta que faltam os braços da cruz, que talvez sinalizasse o cruzamento do Caminho de Santiago com o Caminho de Labiano.

O primeiro pueblo do Valle de Elorz é Yárnoz, posicionado na ladeira Norte da Serra de Alaiz. Yárnoz é citado em documentos medievais do século XII e conserva a Igreja da Natividade, do século XIII, que sofreu grande reforma no século XVI, para suportar uma nova abóboda. Com retábulo barroco do século XVII, destaca a imagem da Virgem com o filho, românica, de princípio do século XIII. Ao lado, uma torre medieval é o único vestígio de um palácio construído no século XIV ou XV, cuja função, além de moradia, foi vigiar e defender. A torre tem uma planta quadrada e apresenta mudança de sillar (pedra polida), o que indica que sua construção foi feita em etapas. A ela estiveram vinculadas personagens importantes, como Lope de Yárnoz, escudeiro de honra do rei Carlos III, o Nobre, de Navarra, que morreu no começo do século XV a serviço do rei da Sicília.

A passagem por Otano se faz por uma porteira, na encosta da Serra da Alaiz. Em seguida, está Ezperun; e 5,1 km depois, Guerendiáin, onde sou recepcionado por um cachorro alegre e barulhento. Na saída do pueblo uma placa indica que Tiebas está a 3,8 km e Puente la Reina, a 21,2 km. Por trilhas que sobem e descem a encosta da Serra, avisto ao longe, à minha direita Pamplona, a capital da Comunidade Foral de Navarra.

A entrada em Tieblas é marcada pelas ruínas do castelo medieval, reconhecido como bem de interesse cultural, mas que há muito tempo espera restauração. A princípio minha ideia era fotografar as ruínas e seguir o Caminho, mas o encontro com um morador do pueblo me deteve no local. Ele insistiu para que conhecesse a bodega: “Vir até aqui e não conhecer a bodega, não é possível!”, disse o simpático senhor, que me apontou o acesso para a bodega subterrânea com abóboda de pedra.

O castelo foi construído por Teobaldo II, de Champaña, rei de Navarra (1253-1270), em meados do século XIII. Em estilo gótico francês, tem planta retangular, com dois pisos organizados em torno de um pátio central, e serviu de residência a vários monarcas navarros, como o próprio Teobaldo II, Enrique I e Carlos II. Foi também arquivo real, sede da tesouraria, prisão da Coroa e, em algumas ocasiões, lugar de execução.

O castelo foi destruído em 1378 durante a guerra com Castilla e esteve abandonado até meados do século XV, quando foi doado à nobre e poderosa família de los Beaumont, sendo reconstruído por Juan de Beaumont. Depois passou à Casa Ducal de Alba, em cujo poder permaneceu até o século XIX.

Ainda em Tiebas, entro no albergue, junto à Igreja de Santa Eufêmia, românica, para selar minha credencial. No bar, aproveito para tomar um café com leite e comer um bocadilho, reencontrando o grupo de peregrinos espanhóis que conheci em Arrés, o casal Fernando e Rosa, Jesus e Pedro. Eles saem primeiro e, antes que eu retome o Caminho, entra o casal Pache e Sara, também do histórico encontro de Arrés.

Sigo minha peregrinação e, vendo nuvens negras no céu, penso que o tempo mudará, mas isso não acontece. Após 3,8 km de caminhada, passo por Muruarte de Reta, e logo chego a Olcoz, cuja marca é a torre medieval quadrada. Diz a placa que a torre é do começo do século XVI e foi construída pela família Ozta. No século XVIII foi ocupada pelo Marquês de Fortegollano. Hoje, não possui telhado ou qualquer divisão interior, devido aos saques e ao incêndio provocado por Francisco Espoz y Mina, na Guerra da Independência, quando estava ocupada por tropas polonesas às ordens de Napoleão.

Peregrino alemão subindo a Otano

Em Obanos, sim!

Sigo meu Caminho Aragonês a Santiago de Compostela e apreciando, de longe, Añorbe, cruzo com a placa que indica a Ermita Santa Maria de Eunate a 5,2 km e o pueblo Puente la Reina a 10,1 km. Atravesso Enériz, que possui uma igreja do século XVIII e uma praça com um curioso monólito; estou muito perto da Ermita Santa Maria de Eunate.

Começa a passar um filme em minha cabeça e lembro a peregrinação pelo Caminho Francês, em 2009, quando fiz o desvio em Muruzábal, rumo ao Caminho Aragonês, indo ao encontro de uma das construções mais emblemáticas do Caminho de Santiago. Para saber detalhes dessa primeira vez, leia “Minha terra tem palmeiras...”, no primeiro volume da trilogia “Pedras do Caminho”.

Enfim, reencontro a Ermita Santa Maria de Eunate.

Eunate, em euskera, significa 100 portas, ou pode derivar de “bem nascido”. Cercada de mistérios, românica, do século XII, a origem da ermita não é muito clara, podendo ter sido construída pela Soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém, os cavaleiros templários – tal a sua semelhança com a Mesquita da Rocha de Jerusalém –, ou pela ordem hospitaleira de San Juan de Jerusalém, ou ainda pela Confraria de Santa Maria de Eunate..., com a finalidade de ser uma igreja, hospital de peregrinos, igreja funerária, poço de acesso às catacumbas romanas.

A originalidade da ermita se deve a sua estrutura octogonal, tanto na planta como no pórtico que a rodeia, com capitéis que destacam figuras humanas, seres fantásticos... É coberta por uma cúpula chanfrada de oito nervos em estilo muçulmano. Possui uma única porta de ingresso e no lado oriental uma cabeceira semicircular, no interior, e pentagonal, no exterior.

Quando cheguei estava fechada. Dirigi-me ao prédio vizinho, onde funciona um albergue de peregrinos, e o hospitaleiro, após selar minha credencial, a abriu especialmente para mim, deixando-me só no templo.

Ao sair de Eunate, cada vez mais me lembrava da primeira peregrinação. Após 2,4 km cheguei a Obanos e revi a placa que sinaliza o pueblo. Parei num bar para comprar água e ao retomar a caminhada cheguei à Plaza de Los Fueros, onde está a Igreja de São João Batista de Obanos, que neste ano comemora seu centenário... Olhando cada ponto da praça percebi, do outro lado de onde estava, a chegada de peregrinos... um, em seguida um casal, mais dois... realmente, a famosa solidão do Caminho Aragonês ficara para trás; havia me reencontrado com o Caminho Francês e assistia ao fabuloso movimento de peregrinos pela tradicional via.

A partir dali, com absoluta certeza, os dois Caminhos se tornavam um..., apesar de que, só após 3 km, já em Puente la Reina, em frente ao Albergue Jakue, antes de chegar ao pueblo, a estátua em homenagem ao peregrino, exibe a seguinte inscrição: “Y desde aqui todos los Caminos a Santiago se hacen uno solo”.

Puente la Reina é um pueblo atraente e exibe um dos ícones do Caminho de Santiago, a ponte românica sobre o Rio Arga, com sete arcos, 110 metros, construída no século XI para facilitar a passagem dos peregrinos que vinham da França e outros países da Europa. Seu nome presta homenagem a uma rainha que teria tido a iniciativa de construir a ponte: Muniadona Sánchez, esposa de Sancho III, o Mayor, ou a nora Estefanía de Foix, casada com García Sánchez III.

Outras joias arquitetônicas de Puente la Reina merecem ser visitadas, como a Igreja de Santiago, do final do século XII; a Igreja do Crucifixo, românica do século XII, ao lado do atual albergue e do antigo hospital de peregrinos, hoje Colégio dos Padres Reparadores; e o Convento dos Trinitários, do século XIII, ampliado no XVI e reformado no XVIII, localizado em frente à Igreja de Santiago. E ao longo da Calle Mayor existem inúmeras casas com portas medievais e renascentistas e fachadas barrocas. Uma coleção de casas em formato de palácio que fazem da Calle Mayor um cenário magnífico.

Na manhã do dia seguinte, peguei o ônibus até Pamplona e, em seguida, fui de trem para Santiago de Compostela.

Ruínas do Castelo de Tiebas
Ermita de Santa María de Eunate, um dos hits do Caminho Aragonês

Portal ao lado da Igreja São João Batista em Obanos sendo cruzado por peregrinos do Caminho Francês
Igreja do Crucifixo, século XII, em Puente la Reina

A famosa ponte que dá nome ao pueblo de Puente la Reina sobre o rio Arga

terça-feira, 7 de junho de 2022

Fui levado pelo vento

Início do sexto dia de peregrinação, avistando Rocaforte

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

6ª etapa – Sangüesa a Monreal (27 km)

Quinta-feira – 07/06/2012

Vinte e sete quilômetros, segundo o guia El País/Aguilar, ou 30 quilômetros, para o guia Rother, pouco me importou a extensão desta sexta etapa do meu Caminho Aragonês a Santiago de Compostela, entre Sangüesa e Monreal. Apesar da distância considerável, que exigiu cerca de sete horas de peregrinação, as características desta etapa – com belas paisagens, pueblos pequenos, aparentemente perdidos no tempo, e a extrema solidão... em sintonia com tudo o que se espera do Caminho de Santiago – as tornaram leve, doce, um autêntico passeio nas nuvens... Diria que fui levado pelo vento, o mesmo vento que impulsiona as hélices dos muitos parques eólicos que predominam nessa região da Comunidade Foral de Navarra.

Peregrinando a penúltima etapa de meu Caminho Aragonês, de Sangüesa a Monreal, embora com uma vontade impossível de continuar o Caminho, já sabia que deveria me contentar em finalizar a peregrinação deste ano em Puente la Reina, o que representava apenas mais um dia de caminhada, quando o Caminho Aragonês se integra ao Caminho Francês. Diante desse impasse comigo – aliás, um pensamento que me perseguiu durante todo o dia –, fiquei na dúvida em manifestar qualquer tipo de comemoração. Mas, claro, chegar são e salvo a Monreal foi motivo de festa!

Acordei cedo, talvez com o alarme do celular, ou quem sabe com as vozes em frente ao hostal onde descansei em Sangüesa. Abri a janela e vi apenas o peregrino Jesus, que estava no grupo com o casal Fernando e Rosa e Pedro, que conheci em Arrés..., atravessando a ponte sobre o Rio Aragão, em direção ao centro do pueblo, no sentido inverso ao caminho para Monreal... Ao final do dia viria a saber que, com dores no joelho, Jesus não teve condições de fazer esta etapa a pé... E na noite anterior, Xavi já havia abandonado a peregrinação.

Comparando os episódios a dois raios no mesmo lugar, redobrei minha cautela e me preparei para mais esta etapa como se fosse a primeira. Ou a última... Ainda no quarto, tomei o café da manhã com frutas, chá energético e o bocadilho que havia comprado no dia anterior. Disposto e confiante, iniciei o Caminho em direção a Rocaforte, ou Sangüesa la Vieja... onde Francisco, ao peregrinar a Santiago de Compostela, em 1214, fundou o primeiro convento franciscano da Espanha. Ele teria entrado na Espanha pelo Caminho Aragonês e, segundo a tradição, dormiu em Undués de Lerda e de lá seguiu até Sangüesa. Em 2014, quando se completam 800 anos da peregrinação de Francisco, é grande a expectativa no Caminho de Santiago.

A partir de Rocaforte já é possível avistar as hélices de um grande parque eólico da região, que produz a energia limpa através do vento – uma imagem que me acompanhará em vários outros pontos dessa etapa. Perto, uma placa sinaliza a fonte de São Francisco, que data do século XVIII, hoje área de lazer, equipada com churrasqueiras.

O Caminho começa a subir ao Alto de Aibar, entre campos de cereais, e segue num constante sobe e desce pelo Vale de Ibargoiti, que ocupa uma zona de transição entre as montanhas pirenáicas e a Navarra meridional, com vários bosques e pequenos pueblos, como Abínzano, Celigüeta, Equísoain, Idocin, Izco, Lecáun, Salinas, Sengáriz e Vesolla, formado por “gente acolhedora, acostumada pela passagem de viajantes e peregrinos”, como anuncia uma placa turística.

Pouco mais de 16 quilômetros desde Rocaforte e encontro Izco, com sua população de 50 habitantes..., e logo em seguida, Abínzano, com 20 habitantes..., que exibe uma igreja dedicada a São Pedro Apóstolo, de estilo barroco. Assim como os demais pequenos pueblos do Vale de Ibargoiti, Abínzano tem sua economia baseada na agricultura do trigo, da cevada, entre outros cereais.

Continuo a peregrinação deslumbrado com a paisagem... e após cerca de cinco quilômetros avisto a torre da Igreja de São Miguel, românica, do pueblo de Salinas de Ibargoiti, em cuja entrada existe uma bela ponte medieval – que, aliás, cheguei a pensar que estaria chegando a Monreal. Uma confusão que deixei registrada num vídeo que resume esta etapa, e que pode ser visto no Youtube, em www.youtube.com/watch?v=I0g5C1MtwyY

Dois quilômetros depois, após um pequeno bosque, aí sim, encontro a placa que indica Monreal – ou Elo, em euskera, o idioma basco –, e próximo à famosa ponte medieval.

Monreal está localizado a 18 km de Pamplona, a capital da Comunidade Foral de Navarra, e possui cerca de 500 habitantes. Documentos medievais do século XII já citam o pueblo de Monreal, ora como Mone Real, ou Mont Real, Monte Real, Monte Realle, Monte Regale, ou ainda Montis Reyalis; nome que teria sido dado pelo rei de Navarra, Garcia Ramirez, o Restaurador.

Entre outros registros históricos, sabe-se que abrigou importante colônia de judeus e teve o direito, por um tempo, de cunhar moeda própria. Teve um castelo que serviu de residência de caça dos reis de Navarra, cuja derrubada foi decidida pelos monarcas em 1521.

Hoje, seu monumento mais precioso é a Igreja da Natividade de Nossa Senhora de Monreal, dos séculos XVI a XVIII, que possui uma arquitetura diferenciada, conforme destaca folheto do Arcebispado de Pamplona e Tudela. O templo é marcado por uma parte mais antiga, gótica, e outra moderna, fruto de sua ampliação. As esculturas mais significativas são as de Jesus Crucificado, da primeira metade do século XVII, e o grupo renascentista de Santa Ana, localizado no altar de São Francisco Xavier... Vale a pena fazer uma visita guiada e conhecer o museu da Igreja.

Em Monreal não fiquei no albergue de peregrinos. Cheguei a me inscrever, selar minha credencial, pagar, tomar banho, arrumar a cama... aliás, pela primeira vez no Caminho Aragonês usaria o saco de dormir sobre o colchão... mas, aproveitando que a conexão wifi estava falha, tive motivo para juntar tudo de novo e mudar meu plano de permanecer no albergue. Instalei-me na Casa Rural, a menos de 50 metros de distância, em frente à praça. Fui recepcionado por um atencioso proprietário/hospitaleiro que, junto com a senha de acesso rápido à internet, contou histórias hilárias sobre peregrinos brasileiros, indicou-me o guia da igreja, o restaurante..., e colaborou para que minha passagem por Monreal fosse perfeita. Afinal, no dia seguinte estava determinado a fazer a última etapa do meu Caminho Aragonês.

Rumo ao Alto de Aibar, a caminho de Monreal

Plantações no Alto de Aibar
Muito perto de Izco, antes de chegar a Monreal

segunda-feira, 6 de junho de 2022

“Yesa no”, uma luta do peregrino

Represa de Yesa assombra o Caminho Aragonês

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

5ª etapa – Ruesta a Sangüesa (22,6 km)

Quarta-feira – 06/06/2012

O Caminho Aragonês a Santiago de Compostela guarda uma surpresa ao peregrino a partir de Ruesta. Embora seja possível ter a prévia dimensão do estrago causado pelo reservatório de Yesa – o que, infelizmente, não era o meu caso –, é exatamente neste trecho do Caminho que o peregrino terá noção do impacto gerado pela obra, que represou o Rio Aragão, inundou uma área de mais de 2.400 hectares, destruiu plantações, expulsou moradores e sepultou vestígios da presença romana na Península e trechos do Caminho de Santiago.

Apesar do trágico contexto imposto pelo reservatório Yesa, minha passagem por Ruesta é repleta de doces lembranças. Cheguei muito bem ao albergue, que funciona no complexo medieval do castelo e da igreja de Santa María de Ruesta, hoje em ruínas, e tive uma recepção calorosa do casal de hospitaleiros e a presença de seus cães. Colocaram tudo a minha disposição, incluindo a ceia da noite e o café da manhã do dia seguinte, e aceitei o pacote completo, praticamente adivinhando o pueblo inexistente, hoje talvez resignado, praticamente dizimado por Yesa, sobre o qual não ouvi referência... nem dos hospitaleiros, nem durante a farta ceia, no reencontro com muitos peregrinos que estavam em Arrés, muito menos no café da manhã.

Se os peregrinos já estão sensibilizados ao problema, especialmente os espanhóis, nada foi comentado – o que lamento. Ao voltar ao Brasil, após pesquisar mais profundamente, tenho absoluta convicção de que o movimento “Yesa no”, cujos efeitos se alastram por toda a Espanha, é uma luta também do peregrino – e muitos, aliás, já se manifestaram solidários. Uma luta não apenas para remediar o estrago que já fez – e que, caso seja aprovada sua ampliação, haverá mais prejuízos ao traçado original do Caminho de Santiago, pois inundará, por exemplo, o atual trecho de Artieda a Ruesta... –, mas especialmente pelos danos que continua provocando ao meio ambiente.

Após o café no albergue, iniciei naquela manhã de 6 de junho a quinta etapa do meu Caminho Aragonês a Santiago de Compostela, programado para chegar a Sangüesa, distante cerca de 22,6 quilômetros, prevendo apenas uma parada, em Undués de Lerda, após 12 quilômetros. Antes de partir, fiz uma sequência de fotos nas ruínas... e iniciei a peregrinação por uma descida, da qual se captura outro ângulo do belo cenário arquitetônico e sua harmonia com a natureza. Muito perto, em meio ao bosque, está a Ermita de Santiago, românica, do século XI.

Pouco antes de ser surpreendido pela grandiosidade do reservatório Yesa, vi e fotografei a placa do Ministério do Meio Ambiente e Meio Rural e Marinho, do Governo da Espanha...

Continuei e, após uma breve subida, avistei Yesa – ainda sem compreender o tamanho da encrenca que ela representa para o meio ambiente e para o patrimônio da Humanidade. Um novelo que comecei a desenrolar ao pesquisar ainda mais os pontos pelos quais havia passado e rever as fotos que fiz, como a placa citada, que é dirigida aos velejadores, com um alerta sobre o mexilhão-zebra, e os cuidados exigidos para navegar no reservatório da bacia do Ebro:

“Informar-se sobre o tipo de navegação permitido; realizar o registro e autorização pertinente em cada caso; acessar a água por pontos habilitados; desinfetar e limpar o seu barco de acordo com o protocolo estabelecido”. E mais: “Quando sair do reservatório aos rios da bacia é proibido navegar a motor desde o nascimento do Ebro até Escatrón. Você poderá navegar a remo, mas sempre limpando e desinfetando o seu barco”. Ao final, ameaça: “O cumprimento destas normas é obrigatório (BOE nº 146, 19 de junho de 2007), sob sanção”.

Coisas do progresso..., em troca da energia, uma série de estragos ao patrimônio artístico, cultural... e, como prêmio extra, a invasão do mexilhão-zebra (Dreissena polymorpha), um molusco de água doce e salobra, que se alimenta de plâncton e matéria orgânica em suspensão e está incluído na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza, a International Union for Conservation of Nature (IUCN), entre as 100 piores espécies exóticas invasoras no mundo.

A batalha tem sido intensa, mas, pela forma como o molusco de espalha por diversos rios de Espanha, está longe de terminar.

Dados sobre a invasão no Ebro, de setembro de 2001, projetam cerca de 500 mexilhões-zebra por metro quadrado, com alta reprodutibilidade (cada adulto pode gerar 1,5 milhões por temporada), o que faz dele agente radical de mudança ecológica, pois reduz a concentração de fitoplâncton na água e altera a cadeia alimentar dos rios. Evitar a sua propagação para outros rios ibéricos é prioridade.

Se hoje posso assegurar que o reservatório Yesa me preocupa, ele não me atormentou durante o Caminho Aragonês a Santiago de Compostela – o que, avaliando de outro modo, teve o seu lado positivo, pois permitiu que realizasse minha peregrinação focado nas questões mais íntimas do meu encontro comigo mesmo, reflexões que só o deserto..., o Caminho de Santiago é capaz de proporcionar. Reflexões sobre cada passo, as dificuldades, o suor, o esforço, a energia sendo trocada com a natureza, a expectativa, a gratidão. Caminhando, gravei um vídeo e deixei registrado o epílogo: “pode cortar e saborear...”

Acho mesmo que a frase sintetiza, ou pelo menos sintetizou naquele momento, minha terceira peregrinação pelo Caminho de Santiago... A primeira, em 2009, pelo Caminho Francês, a partir de Saint Jean Pied de Port, foi a descoberta. Mostrou a novidade, a busca e a conquista da superação – afinal, são 800 quilômetros! –, muita alegria, muita disposição... Já a segunda, em 2010, pelo Caminho Português, me revelou a oportunidade de enfrentar dificuldades, a necessidade de cultivar a paciência, o sentido de perdão – 240 quilômetros, com muitos desafios.

Agora, em meio à terceira peregrinação, o Caminho Aragonês me transforma numa posição de tranquilidade comigo; não tenho a veleidade de ter alcançado a perfeição, pois sei que não sou perfeito, mas a conquista de algum ponto de equilíbrio, ou achar que estou perto, ah... isso sim..., ao adquirir mais experiência e amadurecimento físico e sobretudo espiritual. Daí, o epílogo: pode cortar e saborear.

Continuo andando e, após cerca de duas horas e meia, avisto minha primeira (e única) parada: Undués de Lerda. De longe, o pueblo é belo, incrustado em meio a campos agrícolas. As referências indicam que lá, em 1214, Francisco descansou durante sua peregrinação a Santiago (*).

De perto, Undués de Lerda fascina... e observo cada detalhe, ouvindo os sinos da Igreja de San Martín de Tours. A construção de pedra é de final do século XVI e destaca uma grande torre, aparentemente desproporcional para a dimensão da Igreja, o que sugere uma função militar, tendo sido construída antes do templo.

Parei na praça, dois gatos vieram circular entre meus apetrechos, espalhados para secar, e passei a cuidar dos pés, conferi o estado da unha do dedão, roxa, as bolhas... Comi as frutas que trazia, fui ao bar do albergue e saciei minha fome com um bocadilho e café com leite.

Ao deixar o pueblo, que possui cerca de 60 moradores, intrigado com o nome Undués de Lerda, perguntei a um morador como ele teria surgido. Disse-me que na região havia dois pueblos que desapareceram, um se chamava Undués, e o outro, Lerda. Com a criação do novo pueblo, a população decidiu colocar o nome Undués de Lerda. “E o que significa?”, insisti. E ouvi: “Ora, nada. Como Sevilha, ou qualquer outro nome!”.

Segui meu Caminho pela fronteira da Província de Zaragoza, uma das três da Comunidade Autônoma de Aragão (as outras são Huesca e Teruel), e entrei na Província de Navarra. Quase duas horas depois estava em Sangüesa.

(*) Em 2014, a marca dos oitocentos anos da peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago de Compostela, foi amplamente comemorada com vários eventos em diferentes pontos do Caminho de Santiago.

Avistando Undués de Lerda, vestígios da presença de Francisco na célebre peregrinação de 1214


O rico patrimônio de Sangüesa

Detalhe do portal da Igreja Santa María la Real em Sangüesa

Não tive a oportunidade de conhecer a famosa hospitalidade do pequeno albergue do Convento das Filhas da Caridade, em Sangüesa, que estava lotado pelos peregrinos que saíram mais cedo de Ruesta, e me instalei no Hostal JP, cujo proprietário é fã do cantor Roberto Carlos... Está localizado após a ponte sobre o Rio Aragão; aliás, no início da etapa seguinte, a Monreal.

Depois do banho fui comprar protetores para os pés e conhecer Sangüesa, que pode ser considerada um grande pueblo, com mais de 5.000 habitantes, e abriga um rico patrimônio arquitetônico, com vários palácios e mansões, como o Palácio do Príncipe de Viana, de estilo gótico, do século VII, hoje biblioteca, e o Palácio de Vallesantoro, do século XVII, hoje Casa da Cultura.

E muitas igrejas, como a de Santa María la Real, dos séculos XII e XIII, com sua monumental torre octogonal, ícone do pueblo. A igreja foi declarada Monumento Nacional em 1889, e se notabiliza por um magnífico portal em pedra, onde é representado o Juízo Final, e o altar-mor da primeira metade do século XVI, decorado em ouro. É considerada uma das mais importantes obras do estilo românico na Europa, num momento de transição para o gótico.

A Igreja de San Salvador, construída em estilo gótico pelos moradores do Distrito de População, foi fundada por 12 cavaleiros de Sangüesa, no final do século XIII – e está fechada desde 2001, aguardando restauração. No tímpano do portal está representado o Cristo-juiz, com os braços levantados, mostrando as chagas da Paixão. Está rodeado por dois anjos, que carregam os instrumentos do martírio: a cruz, a coroa de espinhos, a lança e um pacote de pregos. As figuras ajoelhadas representam a Virgem e São João, defensores da humanidade. Nos relevos do umbral estão esculpidos episódios da ressurreição dos mortos, que formam um cortejo de suplicantes, e cenas do Castigo dos Ímpios, com o demônio numa fornalha de fogo ardente, que surge a partir da boca de um Leviatã.

O Convento de Nossa Senhora de Carmen é construção dos séculos XIV a XVII e destaca seu claustro gótico. Tem ainda o Convento de São Francisco, que teria sido incentivado por Francisco em sua peregrinação a Santiago de Compostela, em 1214, e seria o primeiro convento franciscano da Espanha. E, claro, a Igreja de Santiago, dos séculos XIII e XIV, com um altar-mor primoroso e uma bela escultura colorida do Apóstolo em seu portal...

Interior da torre octogonal da Igreja Santa María la Real em Sangüesa

Igreja de San Salvador em Sangüesa ainda aguarda restauração

Imagem de Santiago Peregrino no portal da Igreja de Santiago em Sangüesa

domingo, 5 de junho de 2022

Reflexões até Ruesta

Plantações de cereais marcam o Caminho

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

4ª etapa – Arrés a Ruesta (28,7 km)

Terça-feira – 05/06/2012

Por Caminhos de Santiago, até 2012, peregrinei cerca de 1.250 quilômetros, em três situações: pelo Francês, desde Saint Jean Pied de Port; pelo Português, a partir de Oporto; e pelo Aragonês, de Somport a Puente la Reina. Mas, embora tenha frequentado perto de 40 albergues, ao deixar o de Arrés, na manhã de 5 de junho, tive a emoção de, pela segunda vez, o hospitaleiro se despedir de mim... A primeira vez foi ao deixar o albergue em Santo Antonio de la Calzada, quando Jesus, o hospitaleiro, me acompanhou até a porta e desejou “buen camino”. Desta vez, o momento mágico foi proporcionado pela hospitaleira Piedad. Com certeza, seus votos foram importantes para aumentar minha determinação no quarto dia de peregrinação pelo Caminho Aragonês, de Arrés a Ruesta, um percurso com mais de 31 quilômetros de distância.

O trecho de Arrés a Ruesta é um convite à reflexão. O silêncio pela ausência de árvores..., ou melhor, de pássaros, acompanha o peregrino a partir da descida do Monte Samitier em direção ao vale do Rio Aragão, atravessando ora campos de cereais, ora terras áridas..., o céu azul; passando ao largo de alguns pueblos, como Martes (Província de Huesca) e Mianos (já na Província de Zaragoza), até a entrada em Artieda. Fiz alguns vídeos, que confirmam o clima e o som, apenas, dos meus passos. Foi uma excelente oportunidade de, mais uma vez, promover o reencontro comigo – o deserto de Marcos, compartilhado por Santiago...; pensar na minha querida família; nos estimados amigos; agradecer, agradecer... e ainda impactado pela atenção da hospitaleira Piedad.

Já havia sido alertado pelos guias Rother e El País/Aguilar que seria uma etapa sem muitas opções (El País/Aguilar a intitula como “maratón de desamparo”), com praticamente apenas uma parada, Artieda, após cerca de 21,5 quilômetros sem sombras, ou apenas a sua. E foi lá que cheguei, após 4 horas e meia de caminhada, a 655 metros de altitude. O pueblo tem área de 14 km2 e população de pouco mais de 50 habitantes.

Pelo que informa uma placa antes da subida, Artieda concentrou, em sua extensão, um conjunto impressionante de assentamentos romanos. “En tan sólo 4 km de ribera se conocen varios yacimientos de interés, entre los que destaca La Cantera de Gimeno, que ofreció magníficos mosaicos trasladados a Zaragoza”. O marco oficial explica que o disperso assentamento romano foi reduzido aos núcleos medievais de Rienda, Artieda e Viasués, restando apenas Artieda, com clara vocação de defesa, em virtude de sua localização junto à fronteira entre as Províncias de Aragão e Navarra.

Sua ligação com o Caminho de Santiago é enfatizada pela tradição assistencial: “Se cita en 1124 un refugio (albergaria) em Viasués, en medio del camino (in media via); y en Artieda, el famoso Hospital de Santa Cristina de Somport, mantuvo un hospício con dos sacerdotes y cinco donados donde se atendia a pobre e peregrinos”.

Uma joia de Artieda é a Igreja de San Martín, cujo templo original foi construído no final do século XII e consistia em uma nave fechada com ábside de forma semicircular. Mais tarde, entre o XVI e XVI, foram adicionados vários edifícios, a sacristia, a capela de Nossa Senhora do Rosário, o pórtico que abriga a porta clássica e a torre quadrada de pedra, com uma escada em espiral anexa.

Quando passei por Artieda a igreja estava fechada. Mas, pelos relatos, estão na capela de Nossa Senhora do Rosário as duas obras mais valiosas do templo, o altar e a imagem de Cristo, cuja qualidade artística revela a influência das oficinas de escultura da vizinha cidade de Sangüesa, já em Navarra.

Uma preocupação latente do pueblo é com o projeto de ampliação da represa de Yesa, aos seus pés, que nos anos 1960 já inundou uma extensão 2.400 hectares, sendo mais da metade de terras agrícolas, a partir do estrangulamento das águas do Rio Aragão. Em meio ao rico patrimônio submerso, as termas romanas de Tiermas e o traçado original do Caminho de Santiago, entre Ruesta e Tiermas, e deste pueblo até o Monastério de Leyre. A transformação ambiental provocou a transferência de muitas famílias e continua perturbando o sono das autoridades locais. Irritados, os ambientalistas criaram o movimento “Yesa no!”; uma bandeira, aliás, que é encampada por peregrinos de todo o mundo, já que, se a capacidade da represa for mesmo triplicada, como se pretende, desaparecerá o trecho do Caminho de Santiago entre Artieda e Ruesta!

A parada em Artieda foi providencial. Tirei as botas e meias e, junto com a mochila, deixei tudo no sol para secar o suor..., coloquei os chinelos e fui comer um bocadilho de jamón com queijo no bar do albergue de peregrinos, acompanhado por três, sim, três Aquarius em lata. Revigorado, desci o morro de Artieda e me reencontrei, na estrada, com o espanhol Xavi, um dos 13 peregrinos que estavam em Arrés.

Paramos para fotos e depois seguimos um trecho juntos; falamos sobre vários assuntos, entre os quais, seu triste relato sobre como as bolhas nos pés ameaçavam sua peregrinação – que, aliás, viria a ser suspensa no final do dia seguinte, logo após ser atendido no posto médico em Sangüesa.

De Artieda a Ruesta foram mais 10 quilômetros, em meio a plantações, um pequeno bosque refrescante, com árvores magras, seguindo por um caminho que acompanha o temido reservatório de Yesa. Antes mesmo de chegar a Ruesta é possível avistar as torres e ruínas do castelo medieval, de origem árabe, do final do século X, e da Igreja de Santa Maria, do século XVI. Os edifícios são ícones do pueblo, cuja grande parte do território está submersa pelas águas de Yesa, cuja construção exigiu a desapropriação de campos e casas.

Muitos dos moradores foram embora para sempre ou aceitaram se mudar para núcleos de repovoamento, em zonas irrigadas do Canal de Bardenas, como Bardena, Santa Anastásia e Pinsoro. Conforme apurado, Ruesta ocupa hoje áreas dos pueblos de Sigüés e Urriés, região de Jacetania, distrito judicial de Ejea de los Caballeros.

Nessa movimentação provocada por Yesa, a Confederação Geral do Trabalho de Aragão, em parceria com o Colégio Oficial de Arquitetos de Aragão, fez um trabalho de recuperação de vários edifícios, como a casa Valentín e a casa Alifonso, onde hoje funcionam o albergue de peregrinos, a casa de cultura, biblioteca e o camping.

Duas joias de Ruesta, o Castelo e a Igreja de Santa Maria, junto ao albergue, sobrevivem em meio às ruínas. Registros históricos revelam que Ruesta foi fortificada por Sancho III o Grande, de Navarra, em 915, e até 1055 se constituiu em enclave navarro em Aragão. Em 1050 passou definitivamente ao poder de Aragão e, em 1055, assumiu Sancho Garcés, como primeiro senhor de Ruesta, sob o domínio de Ramiro I. Depois, até 1058, Sancho Galíndez. No tempo de Ramiro II o Monge, desde 1133, Ruesta esteve nas mãos de Cecodín de Navasa; e Frontín, até 1136. Reinando James II, assumiu Dom Pedro de Ayerbe. Situada no outro extremo do castelo, a Igreja de Santa María de Ruesta deve ter sido fundada nos séculos X e XI, mas foi completamente reconstruída no século XVI. Na Idade Média, Ruesta abrigou a comunidade judia mais antiga de Aragão.

Amapola junto ao Caminho Aragonês

Mais um belo dia, muitas cores, céu azul, rumo a Ruesta

Peregrinos miram Artieda