sábado, 6 de junho de 2020

Exagerei...


Em frente à Sé, a catedral de Oporto

Perdão

“'O que de vós outros está sem pecados, seja o primeiro que a apedreje'. (João 8:7), disse Jesus. Esta máxima torna a indulgência um dever, por que não há quem não necessita de indulgência. Jesus quis dizer que a autoridade da reprovação está na autoridade moral de quem a pronuncia. Aos olhos de Deus só é autoridade legítima a que se apoia sobre o bom exemplo”.
Allan Kardec, codificador e sistematizador da Doutrina Espírita.

Exagerei...

Tempo bom, realizei nesta data, há 10 anos, a primeira etapa de minha peregrinação pelo Caminho Português a Santiago de Compostela. De forma emblemática, comecei na Sé, a catedral de Oporto dedicada à Nossa Senhora da Assunção. O edifício é magnífico e teve sua construção iniciada na primeira metade do século XII, estendendo-se até o princípio do século seguinte. Em estilo românico, dessa época restam apenas o conceito da fachada com as torres e a rosetão, além do corpo da igreja de três naves coberto por abóbada de canhão. Ao longo dos anos o edifício incorporou os estilos barroco e gótico...
Naquele domingo, a primeira etapa compreendeu até São Pedro de Rates. Com exceção de uns poucos ciclistas, o movimento no caminho foi muito tranquilo, desde a despedida de Oporto e a travessia pelos bairros do entorno, passando pelas aldeias próximas, Araújo, Maia, Vilar do Pinheiro, Mosteiró, Vilar, Gião, Vilarinho...
Em Vilarinho cheguei após caminhar cerca de 25 quilômetros e pensei em ficar para continuar no dia seguinte, conforme havia programado. O centro da pueblo apresentava agitação típica de domingo nos bares e restaurantes e resolvi seguir até o albergue público a cerca de 1 quilômetro. A informação que tinha era para pegar a chave na farmácia... Como estava me afastando do centro preferi primeiro conhecer o lugar e não gostei do que vi – sinistro, completamente abandonado e sem qualquer sinalização.
Avistei duas moradoras e confirmei se era ali mesmo o albergue de peregrinos. Era. Teria que pegar a chave na farmácia e retornar. Não achei uma boa ideia. E, em vez de ficar desconfortável e absolutamente só em Vilarinho, preferi continuar caminhando até São Pedro de Rates. Ocupei um banco na praça, comprei pão, doces e ali mesmo fiz um piquenique.
Desde Oporto, esta primeira etapa somou 37,1 quilômetros, somando cerca de 10 horas de caminhada. Acho mesmo que exagerei na extensão percorrida neste primeiro dia de peregrinação... Até São Pedro de Rates não encontrei um único peregrino! Cheguei exausto no albergue e, após chamar o “hospitaleiro” em sua casa, decidi ficar no local. Na verdade, não tinha outra alternativa. E, embora não tenha detectado qualquer peregrino no Caminho, havia duas ou três pessoas já inscritas... Mas eu estava mais preocupado em conhecer a famosa igreja românica local e procurar algum lugar para comer...
No único bar que encontrei aberto, o Café Macedo, não tinha menu peregrino e pedi um Prego no Prato, que combina bife de vaca, batatas fritas com dois ovos e presunto, pão e um bom vinho alentejano... Tudo bem. Também pude acessar a internet, esvaziar minha caixa de e-mails e visitar o site da Catedral de Santiago de Compostela, onde conferi o movimento de peregrinos no Caminho.
A Oficina de Peregrinaciones registrou a presença oficial de 28.787 peregrinos no mês de maio, número bem superior ao do Ano Santo de 2004, quando foram 16.862. Dos 28.787 peregrinos de maio, 24.620 chegaram a pé, 4.042 de bicicleta, 120 a cavalo e cinco de cadeira de rodas.
A maior parte dos peregrinos que chegaram em maio de 2010 a Compostela veio pelo Caminho Francês, exatos 20.876, sendo que 2.588 iniciaram em Saint Jean Pied de Port, na França; 1.762 em Roncesvalles, a primeira cidade espanhola; 1.474 em León; 1.347 em Ponferrada; 2.362 em O Cebreiro; e 5.798 em Sarria – a cerca de 100 km, só mesmo para obter a Compostela, o certificado de que o peregrino fez o Caminho de Santiago.
Optaram pelo Caminho Português 3.608 peregrinos, sendo que 1.053 iniciaram em Oporto, Portugal, e 1.621 em Tui, na Espanha, ou seja, pouco mais de 100 km; visando, claro, a Compostela. Outros 1.594 fizeram o Caminho Vía de la Plata, 1.267 o Caminho do Norte e 704 o Caminho Primitivo.
Sobre a nacionalidade dos peregrinos foram constatados 17.264 espanhóis, sendo que a maior parte desses procede das comunidades da Galícia, com 4.955; Madri, 2.359; Catalunha, 2.187; Andaluzia, 1.525; Comunidade Valenciana, 1.249; Castilla León, 1.081; País Basco, 829; Castilla la Mancha, 587; e 11.523 estrangeiros.
Sobre os peregrinos estrangeiros, a maior quantidade é da Alemanha, com 2.608; França, 1.398; Itália, 1.166; Portugal, 849; Holanda, 443; Irlanda, 443; Áustria, 416; e Estados Unidos, 409.
Buen Camino!
#pedrasdocaminho
#10yearchallenge

Caminho Português, desde Oporto: seguindo as flechas amarelas

Travessa do Ferraz

Ciclistas no Caminho Português

Vendedora de pães, em frente à Capela de Araújo

Apetrechos do peregrino descansam em Vilarinho

Ponte de Zameiro, deixando Vilarinho

Igreja românica de São Pedro de Rates

Sem menu peregrino, degustei Prego no Prato com bom vinho...

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Eu e mais...


Detalhe na Catedral de Compostela: em busca do sentido do perdão...

Um dia antes de iniciar o Caminho Português a Santiago de Compostela, há 10 anos, elaborei os textos que se seguem... Estava em Oporto, o exônimo espanhol e inglês que insisto em adotar para a cativante cidade portuguesa... Relendo-os, neste momento de pandemia, avalio que, aparentemente desconexos, eles revelam isto sim a alegre e indisfarçável ansiedade que me abraçava diante na jornada solitária rumo ao sepulcro do Apóstolo Tiago Maior naquele Ano Santo de 2010. Friso solitária, mas repito que nunca me senti só em nenhuma das seis vezes em que fui sozinho peregrinar o Caminho de Santiago.
Aliás, talvez este seja o momento de reiterar a você, que se dispõe a acompanhar meus passos e quer inspirar-se, para que peregrine só.
Não tema, pois não se sentirá só.
Confie e empodere-se!
Não adianta escorar-se em frágeis desculpas para justificar seu medo, sim medo, alegando, por exemplo, que vai “ajudar” um amigo... Se quer mesmo ajudar seu amigo, vá só e incentive-o a ir só.
Isto, é claro, se o que você verdadeiramente busca é sentir a poderosa energia que permeia a peregrinação pelo sagrado Caminho de Santiago, de ser acolhido pelo Espírito do Caminho (não estou falando do hospitaleiro!!!), que te proporcionará sentimento único, exclusivo, muito, mas muito diferente do que acontecerá se for acompanhado – mesmo que com aquele que consideras o melhor amigo; ou ainda com a amada esposa.
Após cinco das seis peregrinações só, fui com minha amada esposa em 2016 (quando completávamos 32 anos de feliz união) – e peregrinamos o Caminho Inglês, com relatos no livro “Juntos no Caminho” – e posso assegurar que sei o que estou escrevendo... A propósito, nosso amor é cada vez mais forte!
Agora, evidentemente, se o que pretendes é simplesmente andar, ou viajar, para curtir o período de férias, não é mesmo preciso que estejas só. Afinal, como o Caminho ensina: o caminhante, anda; o turista, viaja; e o peregrino, ah! este busca. E se você quer experimentar toda a mística da peregrinação pelo Caminho de Santiago, não há outra alternativa...
Buen Camino!
#pedrasdocaminho
#10yearchallenge

Bonde elétrico de Oporto

Postado em 05.06.10, 09h38 >>>>
Eu e mais...

Hoje, ao despertar, 3 de junho (neste momento, já no Aeroporto Internacional de São Paulo), dia em que dou mais um passo ao Caminho, busquei sinais. Nada que me qualifique como uma vítima do TOC, aquele Transtorno Obsessivo Compulsivo que ficou conhecido na pele do Rei Roberto Carlos. Algo místico, talvez, apenas para sinalizar que o dia será coroado de êxito, como se todos os dias não o fossem, pela simples comprovação numa primeira suspirada.
Caiu a casquinha de minha penúltima espinha do rosto! A unha do dedão da mão direita cresceu o suficiente e fez desaparecer a marca do hematoma que havia abaixo, causado por uma mordida despretensiosa da Lady. Pelo sim, pelo não, mantive a rotina e fui para o escritório trabalhar numa última (¿) (por onde anda a tecla do sinal de interrogação¿¿¿) tarefa...
Desta vez, em vez do tijolo de 15 polegadas, viajo com um net de 10 polegadas que, entre poucos inconvenientes, tem o teclado mais compacto, o que faz com que esbarre em teclas indesejáveis, e ainda não descobri como se grafa o referido sinal de interrogação de forma correta.(NA: Tudo bem, corrigi os próximos na revisão...).
O último dia no Brasil também foi reservado para arrumar a mochila. E para isso contei com a eficiente colaboração da paciente Sandra, minha mulher; claro, depois de indicar exatamente o necessário. Afinal, sou eu quem vai carregar! E o primeiro parâmetro é a utilização.
Mas ela sempre me convence a levar algumas quinquilharias a mais, ou as introduz sorrateiramente, como o cortador de unhas que vi entre os produtos de higiene!
Minutos atrás (já em Madri), conferindo o que carrego na balança do check in da TAP, no Aeroporto Barajas, constatei que a mochila pesa exatos 9 quilos e 500 gramas. Mais a bolsa com o net, carregador, o pesado guia da El País/Aguilar... e estou transportando, além dos meus 78 quilos, mais... 13 quilos e 400 gramas.
A conta vem a propósito de que várias pessoas me questionam sobre o que se leva numa peregrinação pelo Caminho de Santiago. Eu mesmo já li várias dessas listas, dicas de peregrinos mais experientes, pois a composição da mochila é mesmo um dado crucial para o sucesso da viagem.
Na primeira peregrinação – em 2009, pelo Caminho Francês, 800 quilômetros em 29 dias – não tive o cuidado de preparar uma lista e, apesar dos alertas e pelo excesso de zelo de minha querida Sandra, atravessei os Pirineus e caminhei cerca de 100 quilômetros carregando cerca de 4 quilos absolutamente desnecessários, que, ao final do 5º dia, em Estella, despachei para o amigo José Antonio Soto Rojas, em Santander, na casa de quem fui descansar alguns dias após completar a peregrinação.
Estou usando e carrego (já pensando no que posso descartar...) um par de botas e um par de chinelos, três pares de meias de algodão grossas, mais um par de meias para caminhada, uma calça/bermuda e uma bermuda, de tecido fino, quatro cuecas, uma sunga, uma malha grossa, duas camisetas dry fit de manga longa, duas camisetas dry fit de manga curta, uma camiseta dry fit sem mangas, uma polo, um lenço, uma bandana, chapéu de abas, um gorro, duas máquinas fotográficas, com respectivos carregadores, celular com carregador, este net com carregador, guia da El País/Aguilar, guia da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago, cerca de 10 folhas de papel com vários impressos, meia dúzia de canetas, um saco de dormir, uma toalha de banho, uma capa, dois sabonetes em barra, desodorante bastão, perfume, pasta e escova de dente, fio dental, cortador de unhas, agulha e linhas, cartelas de remédios, carteira com documentos, passaporte, credencial de peregrino, 50 cartões deste blog, adaptador de tomada, três barras de chocolate (única compra no duty free do Brasil), três óculos, sendo um de sol, protetor solar, uma bolsinha da TAM com alguns bagulhinhos, entre os quais um pente (no meu caso, uma verdadeira provocação)...
Amanhã, domingo 6, inicio (efetivamente...) a peregrinação pelo Caminho Português, rumo a Santiago de Compostela. A propósito, já estou em Oporto, no Residencial Oporto Novo. Dei uma circulada pelas ruas da cidade – como é possível, vias de paralelepípedos perfeitamente alinhados? –, e procurei com muito esforço um local com wifi público. Demorou, mas achei, na Avenida dos Aliados, onde se realiza uma feira de livros; esvaziei minha caixa de e-mails e, embora tenha tentado responder alguns, a conexão não me permite.

Personagens do Centro Histórico, Oporto

Oporto

Ah! Que delícia a Francesinha de Oporto. O que se dizer das tripas, os vinhos, e do povo então! Situada no Noroeste da Península Ibérica, Oporto originou-se de um povoado pré-romano e, chamado Portus Cale, deu nome a Portugal, vindo a tornar-se capital do Condado Portucalense...

Perdão

“Se um homem mau te ofende, perdoa-lhe, para que não haja dois homens maus”.
Santo Agostinho de Hipona.

Praça da Batalha, tendo ao fundo a Igreja de Santo Ildefonso

Interior da igreja dedicada a Santo Ildefonso de Toledo

Torre dos Clérigos, ícone de Oporto

Igreja dos Carmelitas e Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo

O tradicional Café Majestic

Ainda os touros...

Depois de um dia lindo em Oporto, com tudo dando certo – até a Claro voltando a funcionar, após admitir que deixou na mão todos os seus clientes que estavam fora do Brasil, por mais de 24 horas, desde a sexta-feira 4 até a tarde de sábado 5... –, antes de dormir liguei a televisão, no canal ATP1, e fiquei estupefato, e sempre ficarei, com a versão 46 da “Corrida de Touros” da emissora, transmitida ao vivo direto do Coliseu do Redondo, na Vila do Redondo, Portugal.
A corrida é diferente da tradicional tourada espanhola. Para uma plateia que não poupa sequer a presença de crianças, um toureiro montado a cavalo armado com espetos se esmera na arte de sangrar o touro até que..., sofrendo muito, o animal (?) ainda tem que enfrentar um grupo de toureiros que executa o que chamam de “pega”. Às vezes o touro resiste e não se deixa pegar, mas o seu destino está selado, vai morrer, não na frente de todos.
Tudo é classificado como uma grande festa, um evento que vai gerar desenvolvimento e promete mais seis apresentações, finalizando com a premiação da “melhor” pega. Cultura? Karma? Para tentar entender mais a tal corrida, em vez de desligar, decidi ver a apresentação seguinte. O coitado do touro, contudo, já estava com problemas de saúde e mancava com a pata traseira direita. Salvou-se. Pois, como alegou o árbitro, para “preservar a qualidade do espetáculo” e a “integridade do animal”, foi retirado da praça e substituído por outro, cujo fim todos já sabiam.
Fui dormir...

Morador de rua...

Motorneiro de bonde numa das muitas linhas de Oporto

Farol da Senhora da Luz, na foz do Rio Douro

Fachada de casas antigas no Centro Histórico

Ponte Luís I, sobre o Rio Douro

Pelourinho da Sé

Sé de Oporto

Painel na Estação de São Bento, em Oporto: Egas Moniz IV de Riba Douro, dito O Aio, apresenta-se com sua família ao Rei de Leão

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Dúvidas. Apenas dúvidas...


Estar não estando...., peregrino no Caminho de Santiago

Sentia a magia da peregrinação no Caminho de Santiago – de nele estar não estando (fisicamente); afinal já estive; e quem experimentou sabe do que estou falando... –, naqueles dias de maio, há 10 anos, quando já vivenciava meus passos pelos campos e antigas vias romanas da Península Ibérica rumo ao sepulcro do Apóstolo de Jesus, Tiago Maior...

Como anunciei no post anterior, cumpro o desafio #10yearchallenge, e exatamente naqueles dias de 2010 estava focado no meu retorno ao Caminho de Santiago, agora para peregrinar o Caminho Português, após ter peregrinado no ano anterior o Caminho Francês – que desencadeou em mim uma onda de transformações e a necessidade de aprofundar meus conhecimentos nos mistérios jacobeos.
Depois viriam o Caminho Aragonês (2012), Sanabrês (2013), a travessia de Assis a Compostela (2014) – perseguindo os passos de Francisco em sua célebre peregrinação de 1214 –, Primitivo (2015), Inglês (2016) e Lebaniego (2017) – pura preciosidade, uma rota tangencial do Caminho de Santiago!!! A saga resultou na edição de oito livros, com o relato do Caminho Inglês premiado no concurso internacional promovido pelo Concello de Oroso, na Galícia, e cristalizou minha condição de autor brasileiro com mais livros editados sobre o Caminho de Santiago.
O texto abaixo e os que serão postados nos próximos dias estão publicados no segundo livro da trilogia Pedras do Caminho, que foi denominado “Pedras do Caminho II, Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela” – eis que a peregrinação aconteceu no mais recente Ano Santo Compostelano. O próximo será no ano que vem...
Buen Camino!
#10yearchallenge
#pedrasdocaminho

Postado em 01.05.10, 18h06 >>>>
Dúvidas. Apenas dúvidas...

Minha segunda peregrinação gera mais dúvidas do que a primeira. Talvez os peregrinos mais experientes tenham uma explicação para isso. A questão é que, talvez pelo excesso de informação que consumo nesses dias decisivos, dúvidas, apenas dúvidas não param de surgir.
Como alguém que valoriza a informação, eu não cogito a ideia de me alienar para me aquietar; pelo contrário, procuro cada vez mais.
Dia 28 de maio recebi, pelo correio, da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago (Aacps), com sede em Ponte de Lima, exemplares de duas publicações sobre o Caminho Português. Uma de 2001 e outra, atualizada, de 2004.
Fiquei agradecido com a atenção e o carinho, não só da secretaria da Aacps, mas, especialmente, do amigo português Pedro Monteiro, pois, entre os muitos que o Caminho teve o condão de me proporcionar, este conheci logo no primeiro trecho de minha peregrinação de 2009, ao atravessar os Pirineus, entre Saint Jean Pied de Port e Roncesvalles.
Pedro, que já havia feito o Caminho Português, estava de bicicleta e, numa das difíceis subidas daquele trecho, caminhamos juntos. Eu, com quase 11 quilos nas costas (NA.: E um Dell 15 polegadas pendurado no pescoço), ele empurrando 25 quilos. Coincidências do Caminho, naquele dia 7 de junho Pedro fazia anos. Ao saber, sem recursos para encomendar um bolo, saquei uma barra de chocolate Lindt e comemoramos...
Tirei fotos dele e nos reencontramos em outros trechos dos Pirineus; como no ponto mais alto – conferido pelo altímetro do Pedro –, quando fizemos mais fotos. Depois dali, aproveitando as descidas e seguindo seu planejamento, nunca mais o vi. Mas, de posse do meu e-mail e endereço do blog, Pedro confirmou sua chegada em casa e incentivou-me a concluir com sucesso minha peregrinação.
Sei que não será fácil, mas tenho esperança de reencontrá-lo este ano...
Estou lendo e relendo as informações das publicações da Aacps, cruzando com outras que já possuía, vasculhando arquivos na Internet, conversando com peregrinos que já fizeram o Caminho Português, e as dúvidas vão surgindo. Para incrementá-las, adquiri no site de El País/Aguilar um exemplar do guia do Caminho Português.
Uma questão que me aflige, repetida por inúmeras fontes, é sobre a pouca estrutura para abrigar os peregrinos no trecho do Caminho em Portugal, de Oporto a Valença, comparando com o trecho na Espanha, de Tui, após a fronteira, a Santiago de Compostela. Um problema, aliás, inexistente no Caminho Francês, farto em opções para o peregrino.
Como os dados disponíveis não são de 2010 ou de 2009, e confiando nos possíveis investimentos alavancados pelo Ano Santo, espero encontrar novidades para tornar minha peregrinação mais segura e, porque não (!), mais confortável.
Isso tudo leva a crer que minhas etapas do Caminho serão não só fruto do planejamento que faço, mas, de forma pragmática, resultado da situação real que encontrarei. O guia da Aacps, por exemplo, em que pese não estar atualizado, garante hotéis e pensões em Oporto, mas veja o que diz sobre a cidade-sugestão para encerrar a primeira etapa, Vilarinho – após 25 quilômetros:
“Não existem unidades hoteleiras. Podes solicitar dormida na Casa Salesiana (Padres Salesianos) ou tomar um táxi para Vila do Conde (8 quilômetros), onde dispõem de diversos hotéis e pensões e regressar no dia seguinte (táxi – ida e volta – cerca de 10 euros)”. Problemão?!
Acho que sim, pois não está em meus planos, durante a peregrinação, andar por qualquer meio que não sejam meus pés. Foi o que fiz na primeira vez e pretendo repetir. Só espero não precisar de outra forma de locomoção, pois admito o imponderável! Torço, na verdade, para que se confirme a informação de outra fonte, a Associação Espaço Jacobeus (AEJ), que diz simplesmente haver “alojamento em Vilarinho”, sem, contudo, especificar.
A propósito, o site desta fonte, que também me foi apresentada pelo amigo Pedro, sugere o Caminho Português em 11 etapas, mais suave que o guia da Aacps, com 9. Como reservei 11 dias para realizar minha peregrinação – após o que descansarei, turisticamente, em terras portuguesas –, essa dúvida já não me causa tanta aflição.
A proposta da AEJ é interessante. Afirma que o Caminho Português Medieval (o Central), de Oporto a Santiago, tem 238,1 quilômetros, e sugere 11 etapas, com observações entre parênteses:
1. Oporto a Vilarinho = 25,3 km (alojamento em Oporto, alojamento em Vilarinho).
2. Vilarinho a Barcelos = 27,3 km (alojamento em São Pedro de Rates, 11,8 km de Vilarinho; 37,1 km do Oporto; alojamento em Barcelos).
3. Barcelos a Ponte de Lima = 33 km (alojamento em Ponte de Lima).
4. Ponte de Lima a Rubiães = 18,2 km (alojamento em Rubiães).
5. Rubiães a Valença do Minho = 16,3 km (alojamento em Valença do Minho).
6. Valença do Minho a Porriño = 19,1 km (alojamento em Tui, alojamento em Porriño).
7. Porriño a Redondela = 15,0 km (alojamento em Mós [Santa Eulália] – 5,2 km de Porriño; 24,3 km de Valença, alojamento em Redondela).
8. Redondela a Pontevedra = 18,2 km (alojamento em Pontevedra).
9. Pontevedra a Brialhos (Portas) = 18,7 km (alojamento em Barro [depois de San Amaro] – 10,4 km de Pontevedra, alojamento em Brialhos).
10. Brialhos a Padrón = 23,4 km (alojamento em Caldas de Reis – 5,1 km de Brialhos; 23,8 km de Pontevedra, alojamento em Hebrón, alojamento em Padrón).
11. Padrón a Santiago de Compostela = 23,6 km (alojamento em Teo – 10,5 km de Padrón; 13,1 km de Santiago, alojamento em Santiago de Compostela).
Vou ler mais as publicações da Aacps, que indicam 9 etapas para o Caminho Português, e detalharei em breve. Enquanto isso, vou somando dúvidas. Apenas dúvidas...

quarta-feira, 27 de maio de 2020

#10yearchallenge

Xacobeo 2010: indulgência plenária ao peregrino

Inicio com certo atraso, mas, enfim... Nesses dias de reflexão proporcionada pelo isolamento social em face à pandemia do novo coronavírus decidi enfrentar o desafio #10yearchallenge – considerando também que permaneço em sabbatical – para celebrar os 10 anos de minha peregrinação pelo Caminho Português.
Assim, a partir de agora, passo a postar, cronologicamente, as publicações feitas em 2010 – e que integram o conteúdo do livro “Pedras do Caminho II, Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela”.
O grande diferencial desta segunda peregrinação (a primeira ocorreu em 2009 pelo Caminho Francês, desde Saint Jean Pied de Port) foi que tratou-se do Xacobeo 2010, ou seja, Ano Jacobeo, Ano Jubilar, Ano Santo Compostelano, enfim, ano em que 25 de julho, Dia de Santiago, cai em domingo, o que, segundo bula papal, todo peregrino que vai a Santiago de Compostela é contemplado com indulgência plenária, ou seja, o perdão dos pecados.
Números redondos são motivo de festa, apesar de considerar um ciclo completo o 12º ano, em referência ao horóscopo lunar chinês, pois foram 12 animais que compareceram ao convite de Buda para comemorar o Ano Novo. 2010 foi ano do tigre; 2020 é ano do rato...
Buen Camino!
#pedrasdocaminho

10 etapas, de Oporto a Santiago de Compostela

Postado em 14.01.10, 11h42 >>>>
Em 2010, o Caminho Português!!!

Com muito ânimo, iniciei em janeiro minha preparação para peregrinar este ano o Caminho Português, saindo de Oporto rumo a Santiago de Compostela. São cerca de 240 quilômetros, que pretendo percorrer em 10 dias – ou seja, mantendo a média de 24 quilômetros por dia... Para isso, é preciso muito mais do que preparo físico.
2010 é Ano Santo Compostelano, quando o Dia de Santiago Maior, 25 de julho, cai num domingo. Santiago e todos os Caminhos que levam ao túmulo do Apóstolo estarão em festa; assim espero. O Vaticano estima que mais de 6 milhões de peregrinos irão a Santiago durante todo o ano. Afinal, peregrinar o Caminho de Santiago em Ano Santo garante indulgência plenária. Há quem diga mais: sim, perdão a todos os pecados consumados e mais três a serem praticados...
Não é o meu caso. Como na peregrinação que fiz em 2009 pelo Caminho Francês (800 quilômetros em 29 dias), volto para reiterar a minha fé; para, como já disse e escrevi (em postagens feitas durante o Caminho no BlogComCebola e no livro “Pedras do Caminho, Meu encontro no Caminho de Santiago de Compostela”), me encontrar comigo; para, desta vez, me aventurar por terras portuguesas, naturalmente de meus antepassados; para... tantos são os motivos que me tornaria cansativo.
Como da primeira vez, farei as postagens no blog – que já soma cerca de 3.000 acessos (NA: em 16 de fevereiro de 2012 eram exatos 8.201, enquanto em 30 de abril de 2013, 11.849, e atualmente foi retirado do ar pela UOL, sob alegação de fim de contrato com o desenvolvedor da plataforma...), o que me deixa profundamente feliz e me leva a acreditar que tenha colaborado para inspirar outras pessoas, amigos ou desconhecidos, a fazer a peregrinação, uma experiência fantástica.
Por ora, continuo desenvolvendo o projeto do livro (*) que mostra a peregrinação pelo Caminho Francês...

(*) O livro “Pedras do Caminho, Meu encontro no Caminho de Santiago de Compostela” foi impresso no Verão de 2013 e teve lançamento nacional em 11 de março, no foyer do Teatro Guarany, Centro Histórico de Santos/SP

Postado em 11.04.10, 22h36 >>>>
Meu retorno

Traçando meu plano de viagem, decidi que vou começar minha segunda peregrinação a Santiago de Compostela, agora pelo Caminho Português, no dia 6 de junho, um domingo, partindo da cidade de Oporto. Isso, é claro, se minha ansiedade não resolver antecipar o início para sábado, considerando que desde sexta-feira deverei estar na bela cidade portuguesa.
A ideia é peregrinar os cerca de 240 quilômetros, entre Oporto e Santiago, em 10 dias, exigindo uma média de 24 quilômetros por dia – o que, convenhamos, é tranquilo, considerando a média de 27,5 quilômetros por dia que adotei na peregrinação de 2009 pelo Caminho Francês (800 quilômetros em 29 dias).
Em termos físicos e psicológicos, considero-me melhor preparado que da primeira vez. O fato de não ser mais um iniciante certamente representa alguma vantagem. Entre outras, minha mochila terá efetivamente o necessário; em vez de um notebook de 15 polegadas, levarei um netbook de 10 polegadas, muito mais leve. Mas, com certeza, cada peregrinação é uma peregrinação e não me deixarei descuidar por um eventual excesso de autoconfiança...
A quem se dispuser me acompanhar, desde já agradeço, e, ao final de cada jornada, darei detalhes da peregrinação, com relatos e imagens. Selo aqui este compromisso; conquanto consiga uma conexão wifi e segurança na transmissão dos dados. A energia desse olhar à distância é importante e foi fundamental na primeira vez, pois me deu ânimo e, com disposição, busquei melhorar a cada etapa – o que resultou num blog dinâmico e, mais recentemente, no livro “Pedras do Caminho, Meu encontro no Caminho de Santiago de Compostela”.
Pois é, com apoio do amigo e ex-professor de fotografia João Batista Mendes Neto, que carinhosamente chamo de Búfalo Bill – que selecionou e tratou com dramaticidade as imagens do livro – consegui preparar uma bela edição com 208 páginas. (NA: E que seria reduzido para 152 páginas). Como primeiras providências, enviei uma cópia para registro no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e solicitei orçamentos em várias gráficas. A partir daí, passei a enviar propostas de apoio a empresas e instituições. Além disso, por meio de amigos, meu jornal, neste blog... vou anunciando o empreendimento, que pretendo lançar em julho, em Santos, durante a Semana de Santiago (*). O incentivo que recebo é grande. De repente...
(*) A edição do primeiro livro da trilogia “Pedras do Caminho” só viria a se concretizar no Verão de 2013.

Confessionário na Catedral de Santiago de Compostela

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Mais 2 títulos em e-book


Passos do Amor: o resgate da célebre peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago de Compostela

Com exclusividade no portal www.amazon.com.br iniciei domingo passado, 24, a disponibilização de dois livros (dos oito que escrevi) sobre minhas pesquisas e peregrinações pelo Caminho de Santiago. Depois da trilogia “Pedras do Caminho” – que envolveram os Caminhos Francês, Português e Aragonês – agora foi a vez de dois títulos da série “Descobrindo novos Caminhos”: “Descobrindo novos Caminhos, as pedras do Caminho Sanabrês a Santiago de Compostela” e “Passos do Amor, a peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago de Compostela”.
A data escolhida é emblemática na história de São Francisco de Assis – o Novo Apóstolo –, pois foi em 25 de maio de 1230, portanto há 790 anos, que seu corpo foi transferido da Igreja de São Jorge, onde estava sepultado desde a morte (em 3 de outubro de 1226) para sua nova basílica, em Assis. Aliás, a Basílica foi consagrada pelo Papa Inocêncio IV em 1253, também em 25 de maio. Atualmente, contudo, a Família franciscana celebra estes acontecimentos a cada 24 de maio.
Em “Passos do Amor” resgato a peregrinação feita por São Francisco no século XIII, entre 1213 e 1215, de Assis, na Itália, a Santiago de Compostela, na Espanha, logo após ter recebido autorização do Papa Inocêncio III para continuar seu trabalho evangelizador junto aos pobres, que deu origem à Ordem dos Frades Menores (OFM).
A célebre peregrinação compreendeu cerca de 2.500 quilômetros e está revelada no Capítulo 4 dos “Fioretti”, os famosos relatos medievais sobre os feitos de Francisco e de seus companheiros... Para compor a obra, busquei recriar o itinerário de Francisco e, em junho de 2014, comemorando o oitavo centenário da peregrinação, acompanhado de minha esposa, a também jornalista Sandra Luzia Netto, percorremos de trem, ônibus e carro o trajeto de Assis a Compostela, para pesquisar, fotografar e resgatar a tradição entre moradores e religiosos nas cidades por onde Francisco passou. Os relatos são ilustrados com mais de 100 fotos e surpreendem, ao combinar história, lenda e mística.

Descobrindo novos Caminhos: as pedras do Caminho Sanabrês, desde Zamora...

Em “Descobrindo novos Caminhos” relato a peregrinação realizada pelo Caminho Sanabrês. Nesta jornada, iniciei a rota ainda na Vía de La Plata, exatamente em Zamora, um dos mansios da formidável rede de vias romanas que funcionou na Península Ibérica e está descrita no famoso Itinerário Antonino. Foram 16 dias de peregrinação, cerca de 423 quilômetros, por paisagens fantásticas e rico patrimônio cultural até alcançar Santiago de Compostela, onde mais uma vez pude venerar as relíquias do Apóstolo de Cristo na cripta da Catedral, e me reencontrar comigo, na minha incessante busca por conhecimento, autoconhecimento, paz interior, momentos de reflexão sobre a existência, sobre o que fez, o que faz e o que ainda pretende fazer nesta curta, porém, rica, bela, agradável... experiência de vida.
Buen Camino!
#pedrasdocaminho

PS.: Sobre a promoção dos livros impressos (com três títulos já esgotados...), conforme posts abaixo (50% de desconto!), informo que ela encerrará em 31 de maio – com a anunciada abertura das livrarias.