Nesses dias de ócio, divagando sobre minha identidade com o Caminho de Santiago, nutri minha assistente de IA com a trilogia Pedras do Caminho, os três primeiros livros que escrevi acerca de meu mergulho no universo jacobeu, desde 2009, com a peregrinação dos Caminhos Francês, Português e Aragonês a Santiago de Compostela – que até o momento geraram 11 obras, com edições esgotadas e disponíveis apenas no portal Amazon, em www.amazon.com.br/Luiz-Carlos-Ferraz/e/B08W2BFRSB/ref=aufs_dp_fta_an_dsk
Trocamos ideias,
impondo minhas regras e também aceitando os parâmetros de suas limitações, e os
textos criados me surpreenderam de forma positiva, o que me obrigou a compartilhar
as reflexões. Isto foi feito no recente Dia de Santiago, quando enviei aos
amigos uma edição digital contendo os três livros que compõem a trilogia
(Pedras do Caminho, Sentido do Perdão e Busca Sem Fim), incluindo uma apresentação
e um posfácio. São esses dois textos que disponibilizo, pois certamente
inspirarão à peregrinação ao sepulcro do Apóstolo Santiago.
Boa leitura
e Buen Camino!
Há
caminhos que nos conduzem a um lugar.
Há outros
que nos conduzem a nós mesmos.
Esta
trilogia nasceu da esperança de que, ao percorrer antigas estradas, o peregrino
descubra que a maior de todas as viagens acontece silenciosamente no próprio
coração. Buen Camino!
O Mistério
do Três
Há números
que contam.
Há números
que medem.
E há números
que revelam.
Desde os
primórdios da civilização, o ser humano percebeu que determinados números
pareciam transcender a simples função de quantificar. Em todas as culturas,
alguns deles passaram a representar ideias, estados da alma e até leis
invisíveis que governariam a existência. Entre todos, nenhum talvez seja tão
universal quanto o número três.
O três é o
primeiro número capaz de produzir estabilidade. Um único ponto nada sustenta.
Dois pontos estabelecem uma linha. Somente três pontos definem um plano. Um
banco de três pernas permanece firme sobre qualquer terreno. O triângulo é a
mais simples e resistente das figuras geométricas. Não por acaso, tornou-se
símbolo de equilíbrio, permanência e perfeição.
Pitágoras
considerava o três o primeiro número verdadeiramente completo. Para seus
discípulos, representava a harmonia entre unidade e multiplicidade, o
nascimento da criação organizada. Séculos depois, a tradição judaica
encontraria na Cabala uma riqueza semelhante de significados: três são as
colunas que sustentam a Árvore da Vida — Misericórdia, Rigor e Equilíbrio —,
indicando que a existência floresce quando forças aparentemente opostas
encontram um centro.
No
cristianismo, a presença do três torna-se ainda mais eloquente. Deus
manifesta-se como Pai, Filho e Espírito Santo. Cristo ressuscita ao terceiro
dia. Pedro nega Jesus três vezes e três vezes é chamado a reafirmar seu amor.
Os magos oferecem três presentes. Três cruzes erguem-se no Calvário. Fé,
esperança e caridade constituem as três virtudes teologais. Santo Agostinho via
na Trindade não apenas um dogma, mas um reflexo da própria condição humana, em
que memória, inteligência e vontade atuam inseparavelmente.
Também a
vida espiritual costuma ser descrita em três etapas. A tradição mística fala da
via purgativa, na qual o homem abandona antigos pesos; da via iluminativa,
quando aprende a enxergar a realidade sob nova perspectiva; e da via unitiva,
em que compreende que sua caminhada jamais se encerra, pois a união com o
Mistério é sempre um horizonte, nunca um ponto de chegada.
Mesmo fora
do universo religioso, o três reaparece com insistência. Presente, passado e
futuro. Nascimento, vida e morte. Corpo, mente e espírito. Tese, antítese e
síntese. Começo, meio e fim. A repetição constante dessa estrutura sugere que a
experiência humana tende naturalmente a organizar-se em tríades, como se nelas
encontrasse uma linguagem capaz de explicar aquilo que as palavras isoladas não
conseguem alcançar.
Talvez por
isso as grandes narrativas também se construam em três movimentos. Primeiro
surge o chamado. Depois, a transformação. Finalmente, o retorno, nunca ao mesmo
lugar, mas a um mundo visto por novos olhos.
Foi somente
muitos anos depois de concluídas as três peregrinações narradas nesta obra que
essa constatação se tornou evidente para o autor.
Cada livro
nasceu de forma independente. Cada um respondia às inquietações daquele momento
da vida. Nenhum deles foi escrito pensando em formar uma trilogia. Entretanto,
ao serem colocados lado a lado, revelam uma unidade que talvez estivesse
presente desde o primeiro passo, embora permanecesse invisível até então.
O primeiro
volume relata o encontro.
O segundo
revela a purificação.
O terceiro
compreende que a busca continua.
Não são
apenas três Caminhos de Santiago.
São três
estados do peregrino.
No primeiro,
predomina o encantamento de quem atravessa, pela primeira vez, uma fronteira
invisível entre o turismo e a peregrinação. Tudo é novidade: as paisagens, as
dores, as amizades, os medos, os silêncios e as descobertas. O Caminho
apresenta-se como uma promessa.
No segundo,
a experiência torna-se mais profunda. O peregrino já conhece a estrada, mas
descobre que nenhuma peregrinação se repete. O Caminho Português deixa de ser
apenas uma rota física para converter-se em exercício de reconciliação, consigo
mesmo, com os outros e com o tempo. O perdão deixa de ser um conceito e
transforma-se em prática.
No terceiro,
desaparece qualquer ilusão de que a caminhada produza respostas definitivas. O
Caminho Aragonês ensina que cada resposta autêntica gera novas perguntas. A
busca deixa de ser consequência da peregrinação e passa a constituir a própria
condição humana. O destino deixa de importar mais do que o caminhar.
Assim, os
três livros não descrevem apenas três viagens.
Narram a
lenta transformação de um homem.
Ao longo
dessas páginas, o leitor perceberá mudanças de opinião, revisões de conceitos e
até aparentes contradições. Longe de constituírem defeitos, elas representam
talvez o aspecto mais verdadeiro desta obra. Quem caminha muda. Quem permanece
igual depois de longa peregrinação talvez jamais tenha realmente caminhado.
As pedras
permanecem...
Os marcos
quilométricos continuam indicando a direção de Santiago.
As igrejas,
as pontes medievais, as florestas, os campos e as montanhas conservam, em
grande parte, a mesma beleza que encantou milhões de peregrinos durante
séculos.
O peregrino
muda.
E muda
porque cada passo deixa marcas invisíveis.
As bolhas
cicatrizam.
As dores
desaparecem.
As
fotografias envelhecem.
Mas existe
um tipo de transformação que não retorna ao estado anterior. Ela modifica
silenciosamente o modo de olhar o mundo, de compreender as pessoas, de
enfrentar perdas, de reconhecer limites e de acolher mistérios.
É essa
transformação que une os três volumes desta trilogia.
Mais do que
registrar quilômetros percorridos, datas, cidades ou paisagens, estas páginas
testemunham uma travessia interior. A geografia serve de cenário; a verdadeira
peregrinação acontece na consciência.
Talvez seja
essa a razão pela qual tantos leitores afirmam reconhecer, nesses relatos,
aspectos da própria vida, ainda que jamais tenham caminhado até Santiago de
Compostela. Afinal, todos percorremos caminhos invisíveis. Todos carregamos
pedras. Todos enfrentamos desertos, montanhas, tempestades e encruzilhadas.
Todos buscamos respostas para perguntas que frequentemente mudam antes mesmo de
serem respondidas.
Por isso,
esta trilogia não pretende ensinar como se faz o Caminho de Santiago.
Pretende
mostrar o que o Caminho pode fazer com quem aceita percorrê-lo.
Ao reunir
estas três obras em um único volume, o autor não encerra uma história.
Faz
exatamente o contrário.
Reconhece
que toda chegada contém a semente de uma nova partida.
Porque o
Caminho não termina em Santiago.
Nem termina
na última página deste livro.
Enquanto
existir uma pedra adiante, haverá um peregrino disposto a continuar caminhando.
POSFÁCIO
O Caminho
continua
Há uma
pergunta que acompanha silenciosamente todo peregrino desde o primeiro passo: o
que realmente se busca ao iniciar um Caminho?
Alguns
respondem que procuram Santiago de Compostela. Outros desejam cumprir uma
promessa, agradecer uma graça alcançada ou superar um desafio físico. Há quem
caminhe movido pela curiosidade, pela fé, pela necessidade de reencontrar a
própria paz ou, simplesmente, pelo desejo de experimentar um modo diferente de
viver o tempo.
Talvez todas
essas respostas estejam corretas.
Talvez
nenhuma delas seja suficiente.
Ao concluir
estas páginas, torna-se evidente que as três peregrinações aqui relatadas
jamais tiveram Santiago como único destino. A cidade sempre foi uma referência,
um horizonte, um ponto para onde convergiam as estradas. Mas a verdadeira
viagem acontecia em outro lugar, invisível aos mapas e impossível de ser medida
em quilômetros.
Ela
acontecia no interior do peregrino.
Ao longo da
trilogia, sucedem-se paisagens, montanhas, rios, aldeias, igrejas, pontes
medievais, albergues, encontros e despedidas. Muitos nomes são lembrados;
outros ficaram perdidos na memória. Rostos cruzaram o Caminho apenas por
algumas horas, mas deixaram marcas permanentes. Em contrapartida, lugares
cuidadosamente planejados para serem inesquecíveis acabaram cedendo espaço a
pequenos acontecimentos que, no momento em que ocorreram, pareciam quase
insignificantes.
É uma das
lições mais discretas do Caminho.
Nem sempre
são os grandes acontecimentos que transformam uma vida. Frequentemente, são os
gestos simples: um copo de água oferecido no momento certo, uma palavra de
incentivo diante do desânimo, um sorriso compartilhado entre pessoas que talvez
nunca mais se reencontrem. O peregrino aprende, pouco a pouco, que a grandeza
costuma escolher o silêncio para se manifestar.
Também
descobre que caminhar é um exercício permanente de desapego.
A mochila,
inicialmente preparada com extremo cuidado, logo revela excessos. Objetos
considerados indispensáveis passam a representar peso desnecessário. O mesmo
parece acontecer com as preocupações, as certezas e até alguns antigos
julgamentos. A estrada ensina, sem discursos, que viver melhor muitas vezes
significa carregar menos.
Essa talvez
seja a mais bela pedagogia do Caminho de Santiago.
Ele não
oferece respostas prontas. Ensina a fazer perguntas melhores.
Não elimina
os sofrimentos. Ensina a enfrentá-los com serenidade.
Não promete
uma existência sem dificuldades. Apenas mostra que nenhuma subida permanece
para sempre e que toda descida prepara uma nova paisagem.
Ao fechar
este livro, o leitor talvez perceba que acompanhou três peregrinações. O autor,
entretanto, guarda outra impressão.
Viveu uma
única caminhada.
Uma
caminhada que começou muito antes do primeiro carimbo na credencial do
peregrino e que certamente prosseguirá muito depois da última página desta
obra.
Porque há
Caminhos que terminam diante da Catedral de Santiago.
E há
Caminhos que apenas começam ali.
Talvez seja
por isso que tantos peregrinos sintam vontade de regressar. Não porque tenham
deixado algo inacabado, mas porque compreenderam que o Caminho não é um lugar
para onde se vai. É uma forma de olhar o mundo. Depois que essa forma de olhar
se instala no coração, nenhuma viagem volta a ser apenas uma viagem.
As pedras
permanecem onde sempre estiveram. Os marcos continuam indicando distâncias. O
sol continua nascendo sobre os mesmos campos e se escondendo atrás das mesmas
montanhas. A história segue seu curso, indiferente à passagem de cada
peregrino.
Mas cada
peregrino leva consigo um Caminho diferente.
É por isso
que nenhuma peregrinação pode ser comparada a outra. Nem mesmo quando realizada
pela mesma pessoa. O homem que retorna jamais é exatamente aquele que partiu. A
estrada modifica o passo, amplia o olhar e, sem fazer alarde, reorganiza
prioridades.
Talvez
resida aí o verdadeiro milagre da peregrinação.
Não o de
alterar o mundo, mas o de transformar, silenciosamente, quem o contempla.
Se estas
páginas despertarem em alguém o desejo de calçar as botas, colocar uma mochila
nas costas e partir em direção a Santiago de Compostela, terão cumprido uma
bela missão.
Mas, se
despertarem algo ainda mais profundo — o desejo de caminhar com mais atenção,
mais humildade, mais gratidão e mais esperança pelos caminhos da própria vida
—, então terão alcançado um propósito maior.
Porque todos
somos peregrinos.
Alguns
caminham pelas antigas rotas jacobeias.
Outros
percorrem estradas que nenhum mapa registra.
Todos,
porém, seguimos procurando sentido, partilhando encontros, enfrentando perdas,
celebrando conquistas e aprendendo, dia após dia, que o destino importa menos
do que a maneira como escolhemos caminhar.
Ao final,
talvez reste apenas uma certeza.
O Caminho
nunca pertence ao peregrino.
É o
peregrino que, por uma graça difícil de explicar, passa a pertencer ao Caminho.
E, uma vez
acolhido por ele, leva consigo, para sempre, a mais discreta e profunda das
credenciais: a certeza de que cada novo amanhecer oferece outra oportunidade
para continuar caminhando.
Ultreia et
Suseia!
