segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A trilogia do Caminho de Santiago

 

Trilogia Pedras do Caminho: leitura pela IA

Nesses dias de ócio, divagando sobre minha identidade com o Caminho de Santiago, nutri minha assistente de IA com a trilogia Pedras do Caminho, os três primeiros livros que escrevi acerca de meu mergulho no universo jacobeu, desde 2009, com a peregrinação dos Caminhos Francês, Português e Aragonês a Santiago de Compostela – que até o momento geraram 11 obras, com edições esgotadas e disponíveis apenas no portal Amazon, em www.amazon.com.br/Luiz-Carlos-Ferraz/e/B08W2BFRSB/ref=aufs_dp_fta_an_dsk

Trocamos ideias, impondo minhas regras e também aceitando os parâmetros de suas limitações, e os textos criados me surpreenderam de forma positiva, o que me obrigou a compartilhar as reflexões. Isto foi feito no recente Dia de Santiago, quando enviei aos amigos uma edição digital contendo os três livros que compõem a trilogia (Pedras do Caminho, Sentido do Perdão e Busca Sem Fim), incluindo uma apresentação e um posfácio. São esses dois textos que disponibilizo, pois certamente inspirarão à peregrinação ao sepulcro do Apóstolo Santiago.

Boa leitura e Buen Camino!

 

Há caminhos que nos conduzem a um lugar.

Há outros que nos conduzem a nós mesmos.

Esta trilogia nasceu da esperança de que, ao percorrer antigas estradas, o peregrino descubra que a maior de todas as viagens acontece silenciosamente no próprio coração. Buen Camino!

 

O Mistério do Três

Há números que contam.

Há números que medem.

E há números que revelam.

Desde os primórdios da civilização, o ser humano percebeu que determinados números pareciam transcender a simples função de quantificar. Em todas as culturas, alguns deles passaram a representar ideias, estados da alma e até leis invisíveis que governariam a existência. Entre todos, nenhum talvez seja tão universal quanto o número três.

O três é o primeiro número capaz de produzir estabilidade. Um único ponto nada sustenta. Dois pontos estabelecem uma linha. Somente três pontos definem um plano. Um banco de três pernas permanece firme sobre qualquer terreno. O triângulo é a mais simples e resistente das figuras geométricas. Não por acaso, tornou-se símbolo de equilíbrio, permanência e perfeição.

Pitágoras considerava o três o primeiro número verdadeiramente completo. Para seus discípulos, representava a harmonia entre unidade e multiplicidade, o nascimento da criação organizada. Séculos depois, a tradição judaica encontraria na Cabala uma riqueza semelhante de significados: três são as colunas que sustentam a Árvore da Vida — Misericórdia, Rigor e Equilíbrio —, indicando que a existência floresce quando forças aparentemente opostas encontram um centro.

No cristianismo, a presença do três torna-se ainda mais eloquente. Deus manifesta-se como Pai, Filho e Espírito Santo. Cristo ressuscita ao terceiro dia. Pedro nega Jesus três vezes e três vezes é chamado a reafirmar seu amor. Os magos oferecem três presentes. Três cruzes erguem-se no Calvário. Fé, esperança e caridade constituem as três virtudes teologais. Santo Agostinho via na Trindade não apenas um dogma, mas um reflexo da própria condição humana, em que memória, inteligência e vontade atuam inseparavelmente.

Também a vida espiritual costuma ser descrita em três etapas. A tradição mística fala da via purgativa, na qual o homem abandona antigos pesos; da via iluminativa, quando aprende a enxergar a realidade sob nova perspectiva; e da via unitiva, em que compreende que sua caminhada jamais se encerra, pois a união com o Mistério é sempre um horizonte, nunca um ponto de chegada.

Mesmo fora do universo religioso, o três reaparece com insistência. Presente, passado e futuro. Nascimento, vida e morte. Corpo, mente e espírito. Tese, antítese e síntese. Começo, meio e fim. A repetição constante dessa estrutura sugere que a experiência humana tende naturalmente a organizar-se em tríades, como se nelas encontrasse uma linguagem capaz de explicar aquilo que as palavras isoladas não conseguem alcançar.

Talvez por isso as grandes narrativas também se construam em três movimentos. Primeiro surge o chamado. Depois, a transformação. Finalmente, o retorno, nunca ao mesmo lugar, mas a um mundo visto por novos olhos.

Foi somente muitos anos depois de concluídas as três peregrinações narradas nesta obra que essa constatação se tornou evidente para o autor.

Cada livro nasceu de forma independente. Cada um respondia às inquietações daquele momento da vida. Nenhum deles foi escrito pensando em formar uma trilogia. Entretanto, ao serem colocados lado a lado, revelam uma unidade que talvez estivesse presente desde o primeiro passo, embora permanecesse invisível até então.

O primeiro volume relata o encontro.

O segundo revela a purificação.

O terceiro compreende que a busca continua.

Não são apenas três Caminhos de Santiago.

São três estados do peregrino.

No primeiro, predomina o encantamento de quem atravessa, pela primeira vez, uma fronteira invisível entre o turismo e a peregrinação. Tudo é novidade: as paisagens, as dores, as amizades, os medos, os silêncios e as descobertas. O Caminho apresenta-se como uma promessa.

No segundo, a experiência torna-se mais profunda. O peregrino já conhece a estrada, mas descobre que nenhuma peregrinação se repete. O Caminho Português deixa de ser apenas uma rota física para converter-se em exercício de reconciliação, consigo mesmo, com os outros e com o tempo. O perdão deixa de ser um conceito e transforma-se em prática.

No terceiro, desaparece qualquer ilusão de que a caminhada produza respostas definitivas. O Caminho Aragonês ensina que cada resposta autêntica gera novas perguntas. A busca deixa de ser consequência da peregrinação e passa a constituir a própria condição humana. O destino deixa de importar mais do que o caminhar.

Assim, os três livros não descrevem apenas três viagens.

Narram a lenta transformação de um homem.

Ao longo dessas páginas, o leitor perceberá mudanças de opinião, revisões de conceitos e até aparentes contradições. Longe de constituírem defeitos, elas representam talvez o aspecto mais verdadeiro desta obra. Quem caminha muda. Quem permanece igual depois de longa peregrinação talvez jamais tenha realmente caminhado.

As pedras permanecem...

Os marcos quilométricos continuam indicando a direção de Santiago.

As igrejas, as pontes medievais, as florestas, os campos e as montanhas conservam, em grande parte, a mesma beleza que encantou milhões de peregrinos durante séculos.

O peregrino muda.

E muda porque cada passo deixa marcas invisíveis.

As bolhas cicatrizam.

As dores desaparecem.

As fotografias envelhecem.

Mas existe um tipo de transformação que não retorna ao estado anterior. Ela modifica silenciosamente o modo de olhar o mundo, de compreender as pessoas, de enfrentar perdas, de reconhecer limites e de acolher mistérios.

É essa transformação que une os três volumes desta trilogia.

Mais do que registrar quilômetros percorridos, datas, cidades ou paisagens, estas páginas testemunham uma travessia interior. A geografia serve de cenário; a verdadeira peregrinação acontece na consciência.

Talvez seja essa a razão pela qual tantos leitores afirmam reconhecer, nesses relatos, aspectos da própria vida, ainda que jamais tenham caminhado até Santiago de Compostela. Afinal, todos percorremos caminhos invisíveis. Todos carregamos pedras. Todos enfrentamos desertos, montanhas, tempestades e encruzilhadas. Todos buscamos respostas para perguntas que frequentemente mudam antes mesmo de serem respondidas.

Por isso, esta trilogia não pretende ensinar como se faz o Caminho de Santiago.

Pretende mostrar o que o Caminho pode fazer com quem aceita percorrê-lo.

Ao reunir estas três obras em um único volume, o autor não encerra uma história.

Faz exatamente o contrário.

Reconhece que toda chegada contém a semente de uma nova partida.

Porque o Caminho não termina em Santiago.

Nem termina na última página deste livro.

Enquanto existir uma pedra adiante, haverá um peregrino disposto a continuar caminhando.

 

POSFÁCIO

O Caminho continua

 

Há uma pergunta que acompanha silenciosamente todo peregrino desde o primeiro passo: o que realmente se busca ao iniciar um Caminho?

Alguns respondem que procuram Santiago de Compostela. Outros desejam cumprir uma promessa, agradecer uma graça alcançada ou superar um desafio físico. Há quem caminhe movido pela curiosidade, pela fé, pela necessidade de reencontrar a própria paz ou, simplesmente, pelo desejo de experimentar um modo diferente de viver o tempo.

Talvez todas essas respostas estejam corretas.

Talvez nenhuma delas seja suficiente.

Ao concluir estas páginas, torna-se evidente que as três peregrinações aqui relatadas jamais tiveram Santiago como único destino. A cidade sempre foi uma referência, um horizonte, um ponto para onde convergiam as estradas. Mas a verdadeira viagem acontecia em outro lugar, invisível aos mapas e impossível de ser medida em quilômetros.

Ela acontecia no interior do peregrino.

Ao longo da trilogia, sucedem-se paisagens, montanhas, rios, aldeias, igrejas, pontes medievais, albergues, encontros e despedidas. Muitos nomes são lembrados; outros ficaram perdidos na memória. Rostos cruzaram o Caminho apenas por algumas horas, mas deixaram marcas permanentes. Em contrapartida, lugares cuidadosamente planejados para serem inesquecíveis acabaram cedendo espaço a pequenos acontecimentos que, no momento em que ocorreram, pareciam quase insignificantes.

É uma das lições mais discretas do Caminho.

Nem sempre são os grandes acontecimentos que transformam uma vida. Frequentemente, são os gestos simples: um copo de água oferecido no momento certo, uma palavra de incentivo diante do desânimo, um sorriso compartilhado entre pessoas que talvez nunca mais se reencontrem. O peregrino aprende, pouco a pouco, que a grandeza costuma escolher o silêncio para se manifestar.

Também descobre que caminhar é um exercício permanente de desapego.

A mochila, inicialmente preparada com extremo cuidado, logo revela excessos. Objetos considerados indispensáveis passam a representar peso desnecessário. O mesmo parece acontecer com as preocupações, as certezas e até alguns antigos julgamentos. A estrada ensina, sem discursos, que viver melhor muitas vezes significa carregar menos.

Essa talvez seja a mais bela pedagogia do Caminho de Santiago.

Ele não oferece respostas prontas. Ensina a fazer perguntas melhores.

Não elimina os sofrimentos. Ensina a enfrentá-los com serenidade.

Não promete uma existência sem dificuldades. Apenas mostra que nenhuma subida permanece para sempre e que toda descida prepara uma nova paisagem.

Ao fechar este livro, o leitor talvez perceba que acompanhou três peregrinações. O autor, entretanto, guarda outra impressão.

Viveu uma única caminhada.

Uma caminhada que começou muito antes do primeiro carimbo na credencial do peregrino e que certamente prosseguirá muito depois da última página desta obra.

Porque há Caminhos que terminam diante da Catedral de Santiago.

E há Caminhos que apenas começam ali.

Talvez seja por isso que tantos peregrinos sintam vontade de regressar. Não porque tenham deixado algo inacabado, mas porque compreenderam que o Caminho não é um lugar para onde se vai. É uma forma de olhar o mundo. Depois que essa forma de olhar se instala no coração, nenhuma viagem volta a ser apenas uma viagem.

As pedras permanecem onde sempre estiveram. Os marcos continuam indicando distâncias. O sol continua nascendo sobre os mesmos campos e se escondendo atrás das mesmas montanhas. A história segue seu curso, indiferente à passagem de cada peregrino.

Mas cada peregrino leva consigo um Caminho diferente.

É por isso que nenhuma peregrinação pode ser comparada a outra. Nem mesmo quando realizada pela mesma pessoa. O homem que retorna jamais é exatamente aquele que partiu. A estrada modifica o passo, amplia o olhar e, sem fazer alarde, reorganiza prioridades.

Talvez resida aí o verdadeiro milagre da peregrinação.

Não o de alterar o mundo, mas o de transformar, silenciosamente, quem o contempla.

Se estas páginas despertarem em alguém o desejo de calçar as botas, colocar uma mochila nas costas e partir em direção a Santiago de Compostela, terão cumprido uma bela missão.

Mas, se despertarem algo ainda mais profundo — o desejo de caminhar com mais atenção, mais humildade, mais gratidão e mais esperança pelos caminhos da própria vida —, então terão alcançado um propósito maior.

Porque todos somos peregrinos.

Alguns caminham pelas antigas rotas jacobeias.

Outros percorrem estradas que nenhum mapa registra.

Todos, porém, seguimos procurando sentido, partilhando encontros, enfrentando perdas, celebrando conquistas e aprendendo, dia após dia, que o destino importa menos do que a maneira como escolhemos caminhar.

Ao final, talvez reste apenas uma certeza.

O Caminho nunca pertence ao peregrino.

É o peregrino que, por uma graça difícil de explicar, passa a pertencer ao Caminho.

E, uma vez acolhido por ele, leva consigo, para sempre, a mais discreta e profunda das credenciais: a certeza de que cada novo amanhecer oferece outra oportunidade para continuar caminhando.

Ultreia et Suseia!

sábado, 27 de junho de 2026

O que diz o ChatGPT!

A Última Peregrinação: quando o Caminho de Santiago deixa de ser uma viagem e se transforma em um encontro consigo mesmo 

Com 11 livros escritos sobre o Caminho de Santiago, escolhi um deles para compartilhar o que o ChatGPT, com todas as suas “virtudes”, escreveu sobre a obra. Se você ainda não teve a oportunidade de ler “A Última Peregrinação, lágrimas no Caminho Primitivo a Santiago de Compostela”, a edição está disponível apenas em e-book na minha conta no portal Amazon, em www.amazon.com.br/Luiz-Carlos-Ferraz/e/B08W2BFRSB/ref=aufs_dp_fta_an_dsk

Abaixo o resumão da IA.

Buen Camino!


E se a etapa mais difícil do Caminho de Santiago não fosse a subida das montanhas, mas a travessia do próprio interior?

É essa a proposta de “A Última Peregrinação”, obra em que o autor transforma sua experiência ao longo do Caminho Primitivo de Santiago em um relato que mistura aventura, reflexão, espiritualidade e autoconhecimento. Longe de ser apenas um diário de viagem, o livro convida o leitor a compreender que cada quilômetro percorrido representa também uma jornada íntima, marcada por dúvidas, superações e descobertas. 

Ao longo da narrativa, o leitor acompanha os preparativos físicos e mentais para enfrentar centenas de quilômetros de caminhada, desde as preocupações médicas e o planejamento das etapas até os desafios impostos pelo cansaço, pela solidão e pelos limites do corpo. Mas a obra vai além das questões práticas: cada experiência serve de ponto de partida para reflexões sobre coragem, equilíbrio emocional, fé, propósito e a busca por sentido na vida. 

O autor defende que o verdadeiro peregrino não percorre apenas estradas antigas da Espanha. Ele percorre também os caminhos da própria consciência, enfrentando medos, revisando valores e descobrindo uma nova maneira de olhar para si mesmo e para o mundo. Essa dimensão espiritual permeia todo o livro, tornando a caminhada uma metáfora para a existência humana. 

Inserido em uma série de obras dedicadas ao Caminho de Santiago, A Última Peregrinação reúne relatos reais, encontros marcantes, simbolismos históricos e reflexões filosóficas, oferecendo uma leitura que interessa tanto aos futuros peregrinos quanto àqueles que jamais pretendem colocar uma mochila nas costas, mas desejam compreender os desafios da transformação pessoal. 

Mais do que narrar uma viagem, o livro propõe uma pergunta que acompanha o leitor até a última página: qual é o caminho que cada um precisa percorrer dentro de si para encontrar aquilo que realmente procura?

As fotografias desempenham um papel importante em A Última Peregrinação, pois complementam o relato autobiográfico e ajudam o leitor a visualizar o Caminho Primitivo de Santiago. Pela análise do conteúdo ilustrado ao longo do livro, elas podem ser agrupadas nos seguintes temas:

1. Monumentos religiosos e patrimônio histórico

Grande parte das imagens retrata igrejas, catedrais, mosteiros e seus interiores, evidenciando a riqueza artística e espiritual do percurso. Há fotografias de altares, naves, esculturas sacras e fachadas históricas que reforçam a dimensão religiosa da peregrinação.

2. Marcos do Caminho de Santiago

O livro registra diversos elementos característicos da rota, como:

* placas de orientação;

* marcos quilométricos;

* a tradicional concha do peregrino;

* monumentos dedicados ao Caminho;

* cruzes e memoriais.

Essas imagens ajudam o leitor a acompanhar o percurso descrito na narrativa.

3. Paisagens naturais

Há numerosas fotografias de:

* estradas rurais;

* trilhas de terra;

* campos e colinas;

* vilarejos;

* áreas verdes do norte da Espanha.

Essas paisagens transmitem a sensação de isolamento, contemplação e contato com a natureza que caracteriza o Caminho Primitivo.

4. Arquitetura das cidades

O autor registra:

* pequenas aldeias medievais;

* construções em pedra;

* torres de igrejas;

* ruas históricas;

* praças e edifícios antigos.

Essas imagens contextualizam historicamente cada etapa da peregrinação.

5. O próprio peregrino

O livro também apresenta fotografias do autor durante a caminhada, normalmente:

* carregando a mochila;

* ao lado de placas indicativas;

* com outros peregrinos;

* em momentos de chegada às etapas.

Essas imagens reforçam o caráter documental da obra.

6. Mapas e material informativo

Em alguns trechos aparecem mapas do Caminho Primitivo e gráficos do trajeto, facilitando a compreensão da rota percorrida e das etapas descritas.

O conjunto das fotografias

As imagens não têm apenas função ilustrativa. Elas funcionam como um complemento visual da narrativa, permitindo que o leitor acompanhe o desenvolvimento da peregrinação e perceba a alternância entre:

* a grandiosidade do patrimônio histórico;

* a simplicidade das trilhas rurais;

* os desafios físicos da caminhada;

* os momentos de contemplação e espiritualidade.

O resultado é um livro que combina relato de viagem, registro fotográfico e reflexão pessoal, tornando a experiência do Caminho de Santiago mais concreta e envolvente para o leitor.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

De Muxía a Compostela

Muxía fantástica: volume II de 100 dias no Caminho de Santiago

Neste Dia de Santiago, apresento Muxía fantástica, o segundo volume da duologia 100 dias no Caminho de Santiago, que revela a peregrinação realizada ao santuário de Compostela desde Muxía, na costa galega – na sequência de meu reencontro com a lignum crucis, no Caminho de Caravaca, que relatei no primeiro volume.

Desta vez, contudo, será por meio das memórias de frei Bernardo que o peregrino compartilhará seu mergulho no universo jacobeu, sua alegria, tristeza, dúvidas, indagações..., muitas das quais carregadas há algum tempo, numa paciente espera por respostas.

Todos os meus livros estão disponíveis no portal Amazon, em www.amazon.com.br/Luiz-Carlos-Ferraz/e/B08W2BFRSB/ref=aufs_dp_fta_an_dsk

Buen Camino!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Detalhes...

Como disse ontem, estou atento a sinais...

Desde já peço desculpas pela redundância, pois receio que já tenha abordado o tema..., mas a questão é que ao afirmar, no título do post anterior, que estou “atento a sinais”, não estou querendo dizer que coloco em xeque minha fé, a minha certeza, ainda que limitada, de que estou no Caminho certo (“aquele que tem coração”) e tudo acabará acontecendo da melhor forma, seja qual forma ela tiver. Com relação a isto, estou tranquilo e considero pequenos e insensatos os demônios que vez por outra tentam me importunar.

Não é o caso, portanto, de discorrer neste momento sobre o tipo de sinais que rouba minha atenção. Posso garantir, com boa dose de convicção, de que há algum tempo busco me afastar da pretensão pleiteada pelo fariseu bíblico; curiosamente, o protagonista na Palavra de hoje...

Sim, foi isto o que me surpreendeu – e talvez nem tenha me surpreendido tanto; afinal, estamos no Caminho de Santiago! Pois algumas horas após confessar que estou atento a sinais, Marcos 8,11-13 iluminou a questão.

Talvez um dia, não me recordo, já tenha clamado por atalhos, lançado desafios, enfim, duvidado. Apenas para reforçar a minha fé... Hoje, não ando atrás de tais sinais; e isto me aquieta.

Esclarecido ou não o detalhe, que não é pequeno, apresento o belo texto publicado nesta data no aplicativo Rezandovoy, de autoria do jesuíta José María R. Olaizola, e que fortalece o tom dessas reflexões:

"UN SIGNO

¿Qué más signo, Señor,

nos hace falta?

Los pobres, en su hambre,

señalan el amor como camino.

Los niños, en sus juegos,

eligen lo sencillo como escuela.

Los profetas, gritando,

reclaman tu verdad y tu justicia.

Las víctimas de guerras

aspiran a la paz como horizonte.

Los presos de un espejo

envuelven en sonrisas la tristeza.

Los ídolos de barro

sepultan bajo fango la belleza.

Los que se hacen preguntas

intuyen tu palabra en el silencio.

Los muertos, en su sueño,

piden la eternidad como respuesta.

¿Qué más signo, Señor, necesitamos,

para volver el tiempo sementera,

para apostar la vida al evangelio,

para buscar la tierra prometida,

para elegir tu senda?"

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Atento a sinais

Volume II de 100 dias no Caminho de Santiago: sem prazo

Como deve ser do seu conhecimento, e se não é, tudo bem, dou a conhecer agora, o livro Mistério em Caravaca – conforme está no post mais recente, de 19 de setembro de 2023 – foi denominado volume I sobre os meus 100 dias no Caminho de Santiago, pois me pareceu a melhor solução para apresentar as duas peregrinações realizadas em junho de 2022, na Espanha.

A primeira aconteceu no Caminho de Caravaca, desde Orihuela, em pleno Caminho do Levante a Santiago de Compostela, e em pouco mais de um ano estava cristalizado no livro, disponibilizado na Amazon, nas versões em português e espanhol.

Já a segunda, que tratarei no volume II, terá como pano de fundo a peregrinação pelo Caminho de Santiago, desde Muxía a Compostela.

Não tenho prazo. Diria que o livro está praticamente pronto, embora nunca tenha certeza disso. A cada tempo que tenho de lê-lo, faço uma modificação. E em muitas das vezes nem preciso lê-lo, mas diante de alguma nova experiência ou conhecimento fico inspirado a introduzir sentimentos aflorados pela busca sem fim proporcionada pelo Caminho de Santiago. Tento apenas não me surpreender quando a mudança coloca meu olhar num ponto distante, às vezes do outro lado...

O exercício, enfim, é constante, o que me alegra e me mantém atento a sinais – só esperando o momento oportuno para a revelação.

Buen Camino!

terça-feira, 19 de setembro de 2023

O Caminho de Caravaca!

Livro resgata peregrinação à Santíssima e Vera Cruz de Caravaca

Uma das poucas rotas de peregrinação cristã contemplada com Jubileu Perpétuo – o próximo será em 2024 –, o Caminho de Caravaca, na Espanha, é apresentado em meu novo livro “Mistério em Caravaca - 100 Dias no Caminho de Santiago”, disponível com exclusividade no portal Amazon, em www.amazon.com.br/Luiz-Carlos-Ferraz/e/B08W2BFRSB/ref=aufs_dp_fta_an_dsk – em português e espanhol, em e-book e impresso.

Com início em Orihuela, a peregrinação envolve mais de 110 quilômetros e tem como meta a Santíssima e Vera Cruz de Caravaca – que conserva fragmentos da cruz do martírio de Jesus Cristo e está guardada na fortaleza Real Alcázar, em Caravaca de La Cruz, em Múrcia.

Ainda que o Caminho de Caravaca tenha identidade própria, atraindo peregrinos desde 1231, na região há uma confluência de itinerários medievais que levam a Santiago de Compostela, sendo possível considerá-lo uma rota tangencial do Caminho de Santiago – como o Caminho Lebaniego, na Cantábria.

Peregrino do Caminho de Santiago desde 2009, quando realizei o Caminho Francês, minhas peregrinações estão registradas em livros – nove no total, todos disponíveis no formato e-book no portal Amazon. Destaque para “Juntos no Caminho de Santiago, as pedras do Caminho Inglês”, premiado no II Certame Internacional de Investigação do Caminho Inglês, promovido pelo Conselho de Oroso, na Galícia, Espanha.

Buen Camino!

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Mudanças

Para onde terá ido o belo pássaro?, pergunta o peregrino

Acessando agora minha timeline no Facebook, que não atualizo desde 13 de junho de 2022... sim, a poucos dias, ou horas, de completar um ano, ou um ciclo, seja por um ou outro calendário que você prefira acompanhar seus passos..., constato o quão é significativa, especialmente para mim, a imagem da gaivota totalmente livre alçando voo sob o céu do que se convencionou chamar de fim do mundo – e que reproduzo acima. Para onde terá ido o belo pássaro após aquele momento? Por um instante, esse mistério eterno me movimenta, fazendo seguir tranquilo, atravessando as pedras, com ânimo e alegria, com os olhos espertos e coração sensível.

Tenho tanto para contar sobre minhas últimas... ops, sobre as mais recentes peregrinações, realizadas em junho do ano passado, pelo Caminho da Santíssima e Vera Cruz de Caravaca, desde Orihuela até o magnífico santuário, e pelo Caminho de Santiago (na direção que entendo a peregrinação ao Apóstolo de Jesus), descobrindo a fantástica rota desde Muxía, passando por Finisterre, até a Cidade Santa. Dois trechos pequenos, mas muito intensos, com vibrações que sei permanecerão até o fim dos meus dias e fazem o corpo tremer quando neles penso... Cada vez mais me aprofundo no silêncio e foco na paciência, a virtude na qual busco aquietar meus anseios.

Buen Camino!

sábado, 9 de julho de 2022

E daí? Fiz o Caminho Aragonês!

Peregrino na Praza do Obradoiro

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

De trem não é a melhor forma do peregrino chegar a Santiago de Compostela. Mas para mim esta foi a alternativa possível de reencontrar a magnífica Santiago de Compostela, após fazer a peregrinação pelo Caminho Aragonês, de Somport a Puente la Reina – pelas minhas contas, cerca de 190 quilômetros a pé. E apenas até Puente la Reina, pois a partir daí, ou melhor um pouco antes, em Obanos, o Caminho Aragonês se une ao Caminho Francês. E foi exatamente o Caminho Francês que inaugurou, em 2009, a série de minhas peregrinações pelos Caminhos de Santiago. Naquela oportunidade, iniciei o Caminho Francês em Saint Jean Pied de Port e peregrinei em torno de 800 quilômetros a pé nos meses de junho/julho, o que está relatado no primeiro volume da trilogia “Pedras do Caminho”.

Por já ter feito o Caminho Francês, e talvez nem tanto por isso..., afinal, penso em fazê-lo outra vez... mas, pelo fato de ter pouco tempo de férias, não teria condições de continuar a peregrinação pelo Caminho Francês por mais de 600 quilômetros e seguir a pé até Santiago de Compostela.

Além do mais, assim é o Caminho Aragonês: apenas um trecho, em torno de 165 quilômetros – embora no meu caso dei uma ampliada e desviei por uma rota tangencial que leva aos Monastérios de San Juan de la Peña... Como foi possível acompanhar, o Caminho Aragonês atravessa os Pirineus, desde Somport, na divisa com a França, para encontrar em Obanos a rota mais famosa a Santiago de Compostela. A travessia dos Pirineus o coloca ao lado do Caminho Francês e, além da beleza da paisagem, é reconhecida a grande importância que sempre teve na condução de peregrinos por aquela região do Aragão, fosse para Santiago de Compostela, fosse para o trabalho contínuo de evangelização e domínio espanhol em outros pontos da Península Ibérica, na guerra contra os muçulmanos.

Não pensava, contudo, que para um peregrino fosse tão decepcionante adotar outro meio, que não os próprios pés, para ir ao encontro de Santiago. Uma decepção, certamente, que não me contagiou naquele momento, nem deixei que me contagiasse, pois o Caminho Aragonês é fantástico, proporciona experiências únicas e eternas... e, afinal, estava agora em Santiago de Compostela.

Na verdade, não importa se cheguei a pé, a cavalo, de bicicleta, de ônibus, trem ou avião, pois sempre defendi, como peregrino, o respeito a todos os peregrinos que chegam a Santiago por qualquer meio. Como, então, iria me martirizar por ter chegado de trem, e ainda mais, depois de ter peregrinado o fantástico Caminho Aragonês?

Cheguei a Santiago no início da noite de 10 de junho, sob uma fina garoa e me instalei num hotel junto ao casco antigo, já pensando no dia seguinte, em adentrar a Catedral, rever e tocar o Pórtico da Glória, dar um forte abraço na cabeça da imagem de Santiago, por trás do altar-mor, agradecer e orar junto às relíquias do Apóstolo de Cristo, na cripta, confessar, comungar, participar na missa do peregrino e, enfim, vibrar com o espetáculo do botafumeiro!

Fotos, filmes, registrei detalhes da Catedral que não percebi nas duas outras vezes que lá estive, em 2009, ao final do Caminho Francês, e em 2010, Ano Santo, após completar o Caminho Português, desde Oporto. Quantos detalhes! Quantos ainda verei nas próximas vezes em que retornar a Santiago.

Após algumas horas, depois de entrar e sair várias vezes da Catedral, experimentando as várias portas, subindo e descendo as escadarias, sempre sob uma fina garoa, aproveitei para me deliciar com a culinária galega e segui, finalmente, para conhecer a Cidade da Cultura. Fiquei deslumbrado com a concepção e a construção, que já tinha visto num especial de tevê no Brasil, e me motivei a escrever reportagem, capa na edição de junho de 2012 no Jornal Perspectiva, disponível no site www.jornalperspectiva.com.br

Estava programado para ficar mais um dia em Santiago de Compostela – antes de partir para Santander, para descansar na casa dos amigos José Antonio Soto Rojas e Luz Maria, e compartilhar também com o filho José Antonio Soto Conde, que havia passado lua de mel no Brasil, em 2011, com a esposa Maria Angeles, e estavam comemorando o primeiro aniversário da filha Sofia.

No dia seguinte, terceiro e último dia em Santiago de Compostela, voltei a caminhar pelas ruas de pedra, fui à nova Oficina de Peregrinos, para colocar o selo em minha credencial que comprova o Caminho Aragonês. Embora não tivesse o direito de obter mais uma Compostelana, como nas vezes em que completei o Caminho em Santiago de Compostela, fiz questão de colocar o selo, pois, afinal, registra minha passagem por Santiago.

Após a missa, pela primeira vez, fui conhecer o Museu da Catedral, o claustro, o Panteão Real, a Biblioteca, onde está uma réplica do botafumeiro e onde, até aquela data, uma réplica do Codex Calixtinus ocupava o lugar do exemplar original, que havia sido furtado e, até então, continuava desaparecido – mas que viria a ser encontrado dias depois, no início de julho, na garagem na casa de um ex-funcionário da Catedral.

Quantos detalhes! Quantos ainda verei nas viagens futuras a Santiago.

Ah! Da próxima vez chegarei a pé!

Cruz de Santiago na Catedral de Compostela

Coluna do Pórtico da Glória

Imagem de Santiago Apóstolo no altar-mor da Catedral de Santiago

Botafumeiro, no interior da Catedral de Santiago

Freira orienta fiéis sobre os cânticos antes da Missa do Peregrino, na Catedral de Santiago

Santiago Peregrino na fachada da Catedral de Santiago, na Praza do Obradoiro 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Meu reencontro com o Caminho Francês

Ponte junto ao Cruzeiro de San Blas, deixando Monreal

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

7ª etapa – Monreal a Puente la Reina (31,2 km)

Sexta-feira – 08/06/2012

Dormi ouvindo as badaladas do sino da Igreja da Natividade de Nossa Senhora de Monreal e exatamente às seis horas fui acordado pelo primeiro dos seis badalos; e me lembrei da alcadesa do pueblo. Levantei disposto naquela manhã de 8 de junho, ansioso em fazer a última etapa de minha peregrinação pelo Caminho Aragonês a Santiago de Compostela.

Pela janela conferi que não estava chovendo e confiei que o tempo abriria, como viria a acontecer, e poderia desfrutar da bela etapa, que desde Monreal atravessa inúmeros pueblos de Navarra e, pouco antes de chegar a Puente la Reina (em euskera, Gares), oferece ao peregrino a fantástica Ermita Santa Maria de Eunate – uma construção em formato octogonal, envolta em lendas e mistérios –, que, no meu caso, marcaria um reencontro, pois estive lá em 2009, quando peregrinei o Caminho Francês, desde Saint Jean Pied de Port. Naquela ocasião, curioso pelos segredos do Caminho, fazia a etapa de Pamplona a Puente la Reina, quando, em vez de seguir direto de Muruzábal a Puente la Reina – cerca de 4,1 quilômetros –, sai do Caminho Francês e peguei outra estrada, de 4 quilômetros, que me levaria à Eunate. Além de reencontrar Santa Maria de Eunate, aquele dia seria marcado, enfim, pelo reencontro com o meu primeiro Caminho a Santiago de Compostela.

Ao deixar Monreal uma placa sinaliza a extensão de 30,4 quilômetros até Puente la Reina. Um caminho que resgata o antigo traçado jacobeo e passa por Yárnoz, Otano, Ezperun, Guerendiáin, Tiebas, Campanas, Muruarte de Reta, Olcoz, Enériz, Santa Maria de Eunate e Obanos – pueblo que também recepciona os peregrinos que chegam pelo Caminho Francês e que, na verdade, é onde os dois importantes Caminhos de Santiago, os dois Caminhos que atravessam os Pirineus, o Francês e o Aragonês, se encontram... Hoje, esse marketing é aproveitado por Puente la Reina.

Não muito distante outra placa indica o Cruzeiro de San Bras, a 120 metros, de estilo gótico renascentista, e alerta que faltam os braços da cruz, que talvez sinalizasse o cruzamento do Caminho de Santiago com o Caminho de Labiano.

O primeiro pueblo do Valle de Elorz é Yárnoz, posicionado na ladeira Norte da Serra de Alaiz. Yárnoz é citado em documentos medievais do século XII e conserva a Igreja da Natividade, do século XIII, que sofreu grande reforma no século XVI, para suportar uma nova abóboda. Com retábulo barroco do século XVII, destaca a imagem da Virgem com o filho, românica, de princípio do século XIII. Ao lado, uma torre medieval é o único vestígio de um palácio construído no século XIV ou XV, cuja função, além de moradia, foi vigiar e defender. A torre tem uma planta quadrada e apresenta mudança de sillar (pedra polida), o que indica que sua construção foi feita em etapas. A ela estiveram vinculadas personagens importantes, como Lope de Yárnoz, escudeiro de honra do rei Carlos III, o Nobre, de Navarra, que morreu no começo do século XV a serviço do rei da Sicília.

A passagem por Otano se faz por uma porteira, na encosta da Serra da Alaiz. Em seguida, está Ezperun; e 5,1 km depois, Guerendiáin, onde sou recepcionado por um cachorro alegre e barulhento. Na saída do pueblo uma placa indica que Tiebas está a 3,8 km e Puente la Reina, a 21,2 km. Por trilhas que sobem e descem a encosta da Serra, avisto ao longe, à minha direita Pamplona, a capital da Comunidade Foral de Navarra.

A entrada em Tieblas é marcada pelas ruínas do castelo medieval, reconhecido como bem de interesse cultural, mas que há muito tempo espera restauração. A princípio minha ideia era fotografar as ruínas e seguir o Caminho, mas o encontro com um morador do pueblo me deteve no local. Ele insistiu para que conhecesse a bodega: “Vir até aqui e não conhecer a bodega, não é possível!”, disse o simpático senhor, que me apontou o acesso para a bodega subterrânea com abóboda de pedra.

O castelo foi construído por Teobaldo II, de Champaña, rei de Navarra (1253-1270), em meados do século XIII. Em estilo gótico francês, tem planta retangular, com dois pisos organizados em torno de um pátio central, e serviu de residência a vários monarcas navarros, como o próprio Teobaldo II, Enrique I e Carlos II. Foi também arquivo real, sede da tesouraria, prisão da Coroa e, em algumas ocasiões, lugar de execução.

O castelo foi destruído em 1378 durante a guerra com Castilla e esteve abandonado até meados do século XV, quando foi doado à nobre e poderosa família de los Beaumont, sendo reconstruído por Juan de Beaumont. Depois passou à Casa Ducal de Alba, em cujo poder permaneceu até o século XIX.

Ainda em Tiebas, entro no albergue, junto à Igreja de Santa Eufêmia, românica, para selar minha credencial. No bar, aproveito para tomar um café com leite e comer um bocadilho, reencontrando o grupo de peregrinos espanhóis que conheci em Arrés, o casal Fernando e Rosa, Jesus e Pedro. Eles saem primeiro e, antes que eu retome o Caminho, entra o casal Pache e Sara, também do histórico encontro de Arrés.

Sigo minha peregrinação e, vendo nuvens negras no céu, penso que o tempo mudará, mas isso não acontece. Após 3,8 km de caminhada, passo por Muruarte de Reta, e logo chego a Olcoz, cuja marca é a torre medieval quadrada. Diz a placa que a torre é do começo do século XVI e foi construída pela família Ozta. No século XVIII foi ocupada pelo Marquês de Fortegollano. Hoje, não possui telhado ou qualquer divisão interior, devido aos saques e ao incêndio provocado por Francisco Espoz y Mina, na Guerra da Independência, quando estava ocupada por tropas polonesas às ordens de Napoleão.

Peregrino alemão subindo a Otano

Em Obanos, sim!

Sigo meu Caminho Aragonês a Santiago de Compostela e apreciando, de longe, Añorbe, cruzo com a placa que indica a Ermita Santa Maria de Eunate a 5,2 km e o pueblo Puente la Reina a 10,1 km. Atravesso Enériz, que possui uma igreja do século XVIII e uma praça com um curioso monólito; estou muito perto da Ermita Santa Maria de Eunate.

Começa a passar um filme em minha cabeça e lembro a peregrinação pelo Caminho Francês, em 2009, quando fiz o desvio em Muruzábal, rumo ao Caminho Aragonês, indo ao encontro de uma das construções mais emblemáticas do Caminho de Santiago. Para saber detalhes dessa primeira vez, leia “Minha terra tem palmeiras...”, no primeiro volume da trilogia “Pedras do Caminho”.

Enfim, reencontro a Ermita Santa Maria de Eunate.

Eunate, em euskera, significa 100 portas, ou pode derivar de “bem nascido”. Cercada de mistérios, românica, do século XII, a origem da ermita não é muito clara, podendo ter sido construída pela Soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém, os cavaleiros templários – tal a sua semelhança com a Mesquita da Rocha de Jerusalém –, ou pela ordem hospitaleira de San Juan de Jerusalém, ou ainda pela Confraria de Santa Maria de Eunate..., com a finalidade de ser uma igreja, hospital de peregrinos, igreja funerária, poço de acesso às catacumbas romanas.

A originalidade da ermita se deve a sua estrutura octogonal, tanto na planta como no pórtico que a rodeia, com capitéis que destacam figuras humanas, seres fantásticos... É coberta por uma cúpula chanfrada de oito nervos em estilo muçulmano. Possui uma única porta de ingresso e no lado oriental uma cabeceira semicircular, no interior, e pentagonal, no exterior.

Quando cheguei estava fechada. Dirigi-me ao prédio vizinho, onde funciona um albergue de peregrinos, e o hospitaleiro, após selar minha credencial, a abriu especialmente para mim, deixando-me só no templo.

Ao sair de Eunate, cada vez mais me lembrava da primeira peregrinação. Após 2,4 km cheguei a Obanos e revi a placa que sinaliza o pueblo. Parei num bar para comprar água e ao retomar a caminhada cheguei à Plaza de Los Fueros, onde está a Igreja de São João Batista de Obanos, que neste ano comemora seu centenário... Olhando cada ponto da praça percebi, do outro lado de onde estava, a chegada de peregrinos... um, em seguida um casal, mais dois... realmente, a famosa solidão do Caminho Aragonês ficara para trás; havia me reencontrado com o Caminho Francês e assistia ao fabuloso movimento de peregrinos pela tradicional via.

A partir dali, com absoluta certeza, os dois Caminhos se tornavam um..., apesar de que, só após 3 km, já em Puente la Reina, em frente ao Albergue Jakue, antes de chegar ao pueblo, a estátua em homenagem ao peregrino, exibe a seguinte inscrição: “Y desde aqui todos los Caminos a Santiago se hacen uno solo”.

Puente la Reina é um pueblo atraente e exibe um dos ícones do Caminho de Santiago, a ponte românica sobre o Rio Arga, com sete arcos, 110 metros, construída no século XI para facilitar a passagem dos peregrinos que vinham da França e outros países da Europa. Seu nome presta homenagem a uma rainha que teria tido a iniciativa de construir a ponte: Muniadona Sánchez, esposa de Sancho III, o Mayor, ou a nora Estefanía de Foix, casada com García Sánchez III.

Outras joias arquitetônicas de Puente la Reina merecem ser visitadas, como a Igreja de Santiago, do final do século XII; a Igreja do Crucifixo, românica do século XII, ao lado do atual albergue e do antigo hospital de peregrinos, hoje Colégio dos Padres Reparadores; e o Convento dos Trinitários, do século XIII, ampliado no XVI e reformado no XVIII, localizado em frente à Igreja de Santiago. E ao longo da Calle Mayor existem inúmeras casas com portas medievais e renascentistas e fachadas barrocas. Uma coleção de casas em formato de palácio que fazem da Calle Mayor um cenário magnífico.

Na manhã do dia seguinte, peguei o ônibus até Pamplona e, em seguida, fui de trem para Santiago de Compostela.

Ruínas do Castelo de Tiebas
Ermita de Santa María de Eunate, um dos hits do Caminho Aragonês

Portal ao lado da Igreja São João Batista em Obanos sendo cruzado por peregrinos do Caminho Francês
Igreja do Crucifixo, século XII, em Puente la Reina

A famosa ponte que dá nome ao pueblo de Puente la Reina sobre o rio Arga

terça-feira, 7 de junho de 2022

Fui levado pelo vento

Início do sexto dia de peregrinação, avistando Rocaforte

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

6ª etapa – Sangüesa a Monreal (27 km)

Quinta-feira – 07/06/2012

Vinte e sete quilômetros, segundo o guia El País/Aguilar, ou 30 quilômetros, para o guia Rother, pouco me importou a extensão desta sexta etapa do meu Caminho Aragonês a Santiago de Compostela, entre Sangüesa e Monreal. Apesar da distância considerável, que exigiu cerca de sete horas de peregrinação, as características desta etapa – com belas paisagens, pueblos pequenos, aparentemente perdidos no tempo, e a extrema solidão... em sintonia com tudo o que se espera do Caminho de Santiago – as tornaram leve, doce, um autêntico passeio nas nuvens... Diria que fui levado pelo vento, o mesmo vento que impulsiona as hélices dos muitos parques eólicos que predominam nessa região da Comunidade Foral de Navarra.

Peregrinando a penúltima etapa de meu Caminho Aragonês, de Sangüesa a Monreal, embora com uma vontade impossível de continuar o Caminho, já sabia que deveria me contentar em finalizar a peregrinação deste ano em Puente la Reina, o que representava apenas mais um dia de caminhada, quando o Caminho Aragonês se integra ao Caminho Francês. Diante desse impasse comigo – aliás, um pensamento que me perseguiu durante todo o dia –, fiquei na dúvida em manifestar qualquer tipo de comemoração. Mas, claro, chegar são e salvo a Monreal foi motivo de festa!

Acordei cedo, talvez com o alarme do celular, ou quem sabe com as vozes em frente ao hostal onde descansei em Sangüesa. Abri a janela e vi apenas o peregrino Jesus, que estava no grupo com o casal Fernando e Rosa e Pedro, que conheci em Arrés..., atravessando a ponte sobre o Rio Aragão, em direção ao centro do pueblo, no sentido inverso ao caminho para Monreal... Ao final do dia viria a saber que, com dores no joelho, Jesus não teve condições de fazer esta etapa a pé... E na noite anterior, Xavi já havia abandonado a peregrinação.

Comparando os episódios a dois raios no mesmo lugar, redobrei minha cautela e me preparei para mais esta etapa como se fosse a primeira. Ou a última... Ainda no quarto, tomei o café da manhã com frutas, chá energético e o bocadilho que havia comprado no dia anterior. Disposto e confiante, iniciei o Caminho em direção a Rocaforte, ou Sangüesa la Vieja... onde Francisco, ao peregrinar a Santiago de Compostela, em 1214, fundou o primeiro convento franciscano da Espanha. Ele teria entrado na Espanha pelo Caminho Aragonês e, segundo a tradição, dormiu em Undués de Lerda e de lá seguiu até Sangüesa. Em 2014, quando se completam 800 anos da peregrinação de Francisco, é grande a expectativa no Caminho de Santiago.

A partir de Rocaforte já é possível avistar as hélices de um grande parque eólico da região, que produz a energia limpa através do vento – uma imagem que me acompanhará em vários outros pontos dessa etapa. Perto, uma placa sinaliza a fonte de São Francisco, que data do século XVIII, hoje área de lazer, equipada com churrasqueiras.

O Caminho começa a subir ao Alto de Aibar, entre campos de cereais, e segue num constante sobe e desce pelo Vale de Ibargoiti, que ocupa uma zona de transição entre as montanhas pirenáicas e a Navarra meridional, com vários bosques e pequenos pueblos, como Abínzano, Celigüeta, Equísoain, Idocin, Izco, Lecáun, Salinas, Sengáriz e Vesolla, formado por “gente acolhedora, acostumada pela passagem de viajantes e peregrinos”, como anuncia uma placa turística.

Pouco mais de 16 quilômetros desde Rocaforte e encontro Izco, com sua população de 50 habitantes..., e logo em seguida, Abínzano, com 20 habitantes..., que exibe uma igreja dedicada a São Pedro Apóstolo, de estilo barroco. Assim como os demais pequenos pueblos do Vale de Ibargoiti, Abínzano tem sua economia baseada na agricultura do trigo, da cevada, entre outros cereais.

Continuo a peregrinação deslumbrado com a paisagem... e após cerca de cinco quilômetros avisto a torre da Igreja de São Miguel, românica, do pueblo de Salinas de Ibargoiti, em cuja entrada existe uma bela ponte medieval – que, aliás, cheguei a pensar que estaria chegando a Monreal. Uma confusão que deixei registrada num vídeo que resume esta etapa, e que pode ser visto no Youtube, em www.youtube.com/watch?v=I0g5C1MtwyY

Dois quilômetros depois, após um pequeno bosque, aí sim, encontro a placa que indica Monreal – ou Elo, em euskera, o idioma basco –, e próximo à famosa ponte medieval.

Monreal está localizado a 18 km de Pamplona, a capital da Comunidade Foral de Navarra, e possui cerca de 500 habitantes. Documentos medievais do século XII já citam o pueblo de Monreal, ora como Mone Real, ou Mont Real, Monte Real, Monte Realle, Monte Regale, ou ainda Montis Reyalis; nome que teria sido dado pelo rei de Navarra, Garcia Ramirez, o Restaurador.

Entre outros registros históricos, sabe-se que abrigou importante colônia de judeus e teve o direito, por um tempo, de cunhar moeda própria. Teve um castelo que serviu de residência de caça dos reis de Navarra, cuja derrubada foi decidida pelos monarcas em 1521.

Hoje, seu monumento mais precioso é a Igreja da Natividade de Nossa Senhora de Monreal, dos séculos XVI a XVIII, que possui uma arquitetura diferenciada, conforme destaca folheto do Arcebispado de Pamplona e Tudela. O templo é marcado por uma parte mais antiga, gótica, e outra moderna, fruto de sua ampliação. As esculturas mais significativas são as de Jesus Crucificado, da primeira metade do século XVII, e o grupo renascentista de Santa Ana, localizado no altar de São Francisco Xavier... Vale a pena fazer uma visita guiada e conhecer o museu da Igreja.

Em Monreal não fiquei no albergue de peregrinos. Cheguei a me inscrever, selar minha credencial, pagar, tomar banho, arrumar a cama... aliás, pela primeira vez no Caminho Aragonês usaria o saco de dormir sobre o colchão... mas, aproveitando que a conexão wifi estava falha, tive motivo para juntar tudo de novo e mudar meu plano de permanecer no albergue. Instalei-me na Casa Rural, a menos de 50 metros de distância, em frente à praça. Fui recepcionado por um atencioso proprietário/hospitaleiro que, junto com a senha de acesso rápido à internet, contou histórias hilárias sobre peregrinos brasileiros, indicou-me o guia da igreja, o restaurante..., e colaborou para que minha passagem por Monreal fosse perfeita. Afinal, no dia seguinte estava determinado a fazer a última etapa do meu Caminho Aragonês.

Rumo ao Alto de Aibar, a caminho de Monreal

Plantações no Alto de Aibar
Muito perto de Izco, antes de chegar a Monreal

segunda-feira, 6 de junho de 2022

“Yesa no”, uma luta do peregrino

Represa de Yesa assombra o Caminho Aragonês

Texto abaixo foi escrito há 10 anos...

5ª etapa – Ruesta a Sangüesa (22,6 km)

Quarta-feira – 06/06/2012

O Caminho Aragonês a Santiago de Compostela guarda uma surpresa ao peregrino a partir de Ruesta. Embora seja possível ter a prévia dimensão do estrago causado pelo reservatório de Yesa – o que, infelizmente, não era o meu caso –, é exatamente neste trecho do Caminho que o peregrino terá noção do impacto gerado pela obra, que represou o Rio Aragão, inundou uma área de mais de 2.400 hectares, destruiu plantações, expulsou moradores e sepultou vestígios da presença romana na Península e trechos do Caminho de Santiago.

Apesar do trágico contexto imposto pelo reservatório Yesa, minha passagem por Ruesta é repleta de doces lembranças. Cheguei muito bem ao albergue, que funciona no complexo medieval do castelo e da igreja de Santa María de Ruesta, hoje em ruínas, e tive uma recepção calorosa do casal de hospitaleiros e a presença de seus cães. Colocaram tudo a minha disposição, incluindo a ceia da noite e o café da manhã do dia seguinte, e aceitei o pacote completo, praticamente adivinhando o pueblo inexistente, hoje talvez resignado, praticamente dizimado por Yesa, sobre o qual não ouvi referência... nem dos hospitaleiros, nem durante a farta ceia, no reencontro com muitos peregrinos que estavam em Arrés, muito menos no café da manhã.

Se os peregrinos já estão sensibilizados ao problema, especialmente os espanhóis, nada foi comentado – o que lamento. Ao voltar ao Brasil, após pesquisar mais profundamente, tenho absoluta convicção de que o movimento “Yesa no”, cujos efeitos se alastram por toda a Espanha, é uma luta também do peregrino – e muitos, aliás, já se manifestaram solidários. Uma luta não apenas para remediar o estrago que já fez – e que, caso seja aprovada sua ampliação, haverá mais prejuízos ao traçado original do Caminho de Santiago, pois inundará, por exemplo, o atual trecho de Artieda a Ruesta... –, mas especialmente pelos danos que continua provocando ao meio ambiente.

Após o café no albergue, iniciei naquela manhã de 6 de junho a quinta etapa do meu Caminho Aragonês a Santiago de Compostela, programado para chegar a Sangüesa, distante cerca de 22,6 quilômetros, prevendo apenas uma parada, em Undués de Lerda, após 12 quilômetros. Antes de partir, fiz uma sequência de fotos nas ruínas... e iniciei a peregrinação por uma descida, da qual se captura outro ângulo do belo cenário arquitetônico e sua harmonia com a natureza. Muito perto, em meio ao bosque, está a Ermita de Santiago, românica, do século XI.

Pouco antes de ser surpreendido pela grandiosidade do reservatório Yesa, vi e fotografei a placa do Ministério do Meio Ambiente e Meio Rural e Marinho, do Governo da Espanha...

Continuei e, após uma breve subida, avistei Yesa – ainda sem compreender o tamanho da encrenca que ela representa para o meio ambiente e para o patrimônio da Humanidade. Um novelo que comecei a desenrolar ao pesquisar ainda mais os pontos pelos quais havia passado e rever as fotos que fiz, como a placa citada, que é dirigida aos velejadores, com um alerta sobre o mexilhão-zebra, e os cuidados exigidos para navegar no reservatório da bacia do Ebro:

“Informar-se sobre o tipo de navegação permitido; realizar o registro e autorização pertinente em cada caso; acessar a água por pontos habilitados; desinfetar e limpar o seu barco de acordo com o protocolo estabelecido”. E mais: “Quando sair do reservatório aos rios da bacia é proibido navegar a motor desde o nascimento do Ebro até Escatrón. Você poderá navegar a remo, mas sempre limpando e desinfetando o seu barco”. Ao final, ameaça: “O cumprimento destas normas é obrigatório (BOE nº 146, 19 de junho de 2007), sob sanção”.

Coisas do progresso..., em troca da energia, uma série de estragos ao patrimônio artístico, cultural... e, como prêmio extra, a invasão do mexilhão-zebra (Dreissena polymorpha), um molusco de água doce e salobra, que se alimenta de plâncton e matéria orgânica em suspensão e está incluído na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza, a International Union for Conservation of Nature (IUCN), entre as 100 piores espécies exóticas invasoras no mundo.

A batalha tem sido intensa, mas, pela forma como o molusco de espalha por diversos rios de Espanha, está longe de terminar.

Dados sobre a invasão no Ebro, de setembro de 2001, projetam cerca de 500 mexilhões-zebra por metro quadrado, com alta reprodutibilidade (cada adulto pode gerar 1,5 milhões por temporada), o que faz dele agente radical de mudança ecológica, pois reduz a concentração de fitoplâncton na água e altera a cadeia alimentar dos rios. Evitar a sua propagação para outros rios ibéricos é prioridade.

Se hoje posso assegurar que o reservatório Yesa me preocupa, ele não me atormentou durante o Caminho Aragonês a Santiago de Compostela – o que, avaliando de outro modo, teve o seu lado positivo, pois permitiu que realizasse minha peregrinação focado nas questões mais íntimas do meu encontro comigo mesmo, reflexões que só o deserto..., o Caminho de Santiago é capaz de proporcionar. Reflexões sobre cada passo, as dificuldades, o suor, o esforço, a energia sendo trocada com a natureza, a expectativa, a gratidão. Caminhando, gravei um vídeo e deixei registrado o epílogo: “pode cortar e saborear...”

Acho mesmo que a frase sintetiza, ou pelo menos sintetizou naquele momento, minha terceira peregrinação pelo Caminho de Santiago... A primeira, em 2009, pelo Caminho Francês, a partir de Saint Jean Pied de Port, foi a descoberta. Mostrou a novidade, a busca e a conquista da superação – afinal, são 800 quilômetros! –, muita alegria, muita disposição... Já a segunda, em 2010, pelo Caminho Português, me revelou a oportunidade de enfrentar dificuldades, a necessidade de cultivar a paciência, o sentido de perdão – 240 quilômetros, com muitos desafios.

Agora, em meio à terceira peregrinação, o Caminho Aragonês me transforma numa posição de tranquilidade comigo; não tenho a veleidade de ter alcançado a perfeição, pois sei que não sou perfeito, mas a conquista de algum ponto de equilíbrio, ou achar que estou perto, ah... isso sim..., ao adquirir mais experiência e amadurecimento físico e sobretudo espiritual. Daí, o epílogo: pode cortar e saborear.

Continuo andando e, após cerca de duas horas e meia, avisto minha primeira (e única) parada: Undués de Lerda. De longe, o pueblo é belo, incrustado em meio a campos agrícolas. As referências indicam que lá, em 1214, Francisco descansou durante sua peregrinação a Santiago (*).

De perto, Undués de Lerda fascina... e observo cada detalhe, ouvindo os sinos da Igreja de San Martín de Tours. A construção de pedra é de final do século XVI e destaca uma grande torre, aparentemente desproporcional para a dimensão da Igreja, o que sugere uma função militar, tendo sido construída antes do templo.

Parei na praça, dois gatos vieram circular entre meus apetrechos, espalhados para secar, e passei a cuidar dos pés, conferi o estado da unha do dedão, roxa, as bolhas... Comi as frutas que trazia, fui ao bar do albergue e saciei minha fome com um bocadilho e café com leite.

Ao deixar o pueblo, que possui cerca de 60 moradores, intrigado com o nome Undués de Lerda, perguntei a um morador como ele teria surgido. Disse-me que na região havia dois pueblos que desapareceram, um se chamava Undués, e o outro, Lerda. Com a criação do novo pueblo, a população decidiu colocar o nome Undués de Lerda. “E o que significa?”, insisti. E ouvi: “Ora, nada. Como Sevilha, ou qualquer outro nome!”.

Segui meu Caminho pela fronteira da Província de Zaragoza, uma das três da Comunidade Autônoma de Aragão (as outras são Huesca e Teruel), e entrei na Província de Navarra. Quase duas horas depois estava em Sangüesa.

(*) Em 2014, a marca dos oitocentos anos da peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago de Compostela, foi amplamente comemorada com vários eventos em diferentes pontos do Caminho de Santiago.

Avistando Undués de Lerda, vestígios da presença de Francisco na célebre peregrinação de 1214


O rico patrimônio de Sangüesa

Detalhe do portal da Igreja Santa María la Real em Sangüesa

Não tive a oportunidade de conhecer a famosa hospitalidade do pequeno albergue do Convento das Filhas da Caridade, em Sangüesa, que estava lotado pelos peregrinos que saíram mais cedo de Ruesta, e me instalei no Hostal JP, cujo proprietário é fã do cantor Roberto Carlos... Está localizado após a ponte sobre o Rio Aragão; aliás, no início da etapa seguinte, a Monreal.

Depois do banho fui comprar protetores para os pés e conhecer Sangüesa, que pode ser considerada um grande pueblo, com mais de 5.000 habitantes, e abriga um rico patrimônio arquitetônico, com vários palácios e mansões, como o Palácio do Príncipe de Viana, de estilo gótico, do século VII, hoje biblioteca, e o Palácio de Vallesantoro, do século XVII, hoje Casa da Cultura.

E muitas igrejas, como a de Santa María la Real, dos séculos XII e XIII, com sua monumental torre octogonal, ícone do pueblo. A igreja foi declarada Monumento Nacional em 1889, e se notabiliza por um magnífico portal em pedra, onde é representado o Juízo Final, e o altar-mor da primeira metade do século XVI, decorado em ouro. É considerada uma das mais importantes obras do estilo românico na Europa, num momento de transição para o gótico.

A Igreja de San Salvador, construída em estilo gótico pelos moradores do Distrito de População, foi fundada por 12 cavaleiros de Sangüesa, no final do século XIII – e está fechada desde 2001, aguardando restauração. No tímpano do portal está representado o Cristo-juiz, com os braços levantados, mostrando as chagas da Paixão. Está rodeado por dois anjos, que carregam os instrumentos do martírio: a cruz, a coroa de espinhos, a lança e um pacote de pregos. As figuras ajoelhadas representam a Virgem e São João, defensores da humanidade. Nos relevos do umbral estão esculpidos episódios da ressurreição dos mortos, que formam um cortejo de suplicantes, e cenas do Castigo dos Ímpios, com o demônio numa fornalha de fogo ardente, que surge a partir da boca de um Leviatã.

O Convento de Nossa Senhora de Carmen é construção dos séculos XIV a XVII e destaca seu claustro gótico. Tem ainda o Convento de São Francisco, que teria sido incentivado por Francisco em sua peregrinação a Santiago de Compostela, em 1214, e seria o primeiro convento franciscano da Espanha. E, claro, a Igreja de Santiago, dos séculos XIII e XIV, com um altar-mor primoroso e uma bela escultura colorida do Apóstolo em seu portal...

Interior da torre octogonal da Igreja Santa María la Real em Sangüesa

Igreja de San Salvador em Sangüesa ainda aguarda restauração

Imagem de Santiago Peregrino no portal da Igreja de Santiago em Sangüesa