quinta-feira, 6 de junho de 2019

10 anos depois!



A travessia dos Pirineus é a agonia dos peregrinos...

Exatamente nesta data, 6 de junho, há 10 anos, iniciava a saga de minhas peregrinações pelo Caminho de Santiago, atravessando os Pirineus, de Saint Jean Pied de Port a Roncesvalles, na primeira etapa do Caminho Francês, em torno de 24,9 km... Depois viriam o Caminho Português (2010), Aragonês (2012), Sanabrês (2013), Primitivo (2015), Inglês (2016), além da travessia de Assis a Compostela (2014), perseguindo os passos de Francisco em sua célebre peregrinação de 1214, e Lebaniego (2017), uma preciosidade, uma rota tangencial do Caminho de Santiago!!! Saga que resultou na edição de 8 livros, sendo um dos relatos premiado no concurso internacional promovido pelo Concello de Oroso, na Galícia - e a condição de autor brasileiro com mais livros editados sobre o Caminho de Santiago.
Buen Camino! 👣🙏🏽🐾
#10yearchallenge
#pedrasdocaminho
#xacobeo2021

Os textos abaixo foram publicados no primeiro livro da trilogia Pedras do Caminho: Meu Encontro no Caminho de Santiago!

Eu, um peregrino, apenas...

PEREGRINO

Sou um peregrino, apenas. O nome que se dá a toda e qualquer pessoa que faça um dos muitos caminhos que levam a Santiago de Compostela, na Espanha. No meu caso, fiz o Caminho Francês, considerado o mais tradicional e o mais organizado, bem sinalizado e com uma boa infraestrutura de atendimento ao peregrino. A pé, a partir de Saint Jean Pied de Port, na França, completei os cerca de 800 quilômetros em 29 dias, de 6 de junho a 4 de julho de 2009.
Sou apenas um dos milhões de peregrinos que chegaram a Santiago de Compostela a pé. Poderia também ter ido de bicicleta ou cavalo – uma das três formas admitidas para ser declarado peregrino e fazer jus à Compostela, o diploma que comprova a viagem. Meu despertar se deu ao fazer uma reportagem sobre o Caminho, a pedido do amigo peregrino e hospitaleiro José Roberto Lisbôa Júnior, o que exigiu pesquisa e confirmou minha fé.
Fui só. Mas nunca me senti só. Carregando meu notebook, quase diariamente checando minha caixa de e-mails e postando no blog especialmente criado para detalhar meus passos, sempre estive perto da família e dos muitos amigos que descobri ter.
O que você lerá e verá nas próximas páginas são relatos e imagens de um peregrino, apenas com o diferencial de ser um peregrino jornalista, com um ritmo semelhante a uma reportagem, compromissado com o real. Não há, contudo, a pretensão de servir de guia para a sua peregrinação.
Este é o meu Caminho.
Se você busca um guia, desde já indico dois, editados por El País/Aguilar e Rother, que utilizei e muito me facilitaram.
Espero que você aprecie o meu Caminho e se divirta. Da mesma forma que me diverti e me surpreendi ao acompanhar a transformação da minha visão de mundo, vencer meus demônios e me encontrar comigo.

NADA É FÁCIL NO CAMINHO

Albergue de Roncesvalles

Estou agora no albergue do Monastério de Roncesvalles, sentado num dos 60 beliches, ou seja, 120 camas do enorme galpão de paredes de pedra e um pé direito de uns sete metros. Ele está estrategicamente localizado no final da primeira etapa do Caminho Francês, que iniciei em Saint Jean Pied de Port, e em meio a tanta facilidade, inclusive internet (que funciona mediante o depósito de uma moeda 1 euro por 20 minutos), por 6 euros acabei ficando.
Até agora – 21h25 –, com todos se preparando para dormir, a experiência tem sido ótima. Peregrinos exaustos, o pessoal fala baixo na mesa dos hospitaleiros, o equipamento de som toca cantos gregorianos – afinal o albergue é mantido pelo Monastério – e quem está a fim de conversar está no subsolo, onde funcionam os terminais de computadores, os banheiros, lavanderia e tem uma grande mesa para encontros e comilanças.
Na entrada, ao falar com um dos três hospitaleiros que estavam recepcionando, disse que tinha um amigo brasileiro hospitaleiro em Castrojeriz. Ele respondeu que conhecia o local e o refúgio de lá, mas não o hospitaleiro.
Pediu que eu colocasse as botas na entrada e escolhesse uma das camas. Minhas botas no meio de outros 100 pares? Não coloquei e fui para o fundão; escolhi uma cama na parte de baixo. Ajeitei minhas coisas, fui lavar as roupas suadas na travessia dos Pirineus, estendi tudo no varal externo e fui tomar banho. Ainda não tinha comprado sabonete. Mas, tudo bem, sempre tem um bom peregrino esquecido; alguém deixou um frasco de shampoo dentro do banheiro...
Depois fui ao restaurante em frente e reservei um menu peregrino a partir das 19 horas – entrada, sopa de batatas de entrada, depois truta com batatas fritas, iogurte de sobremesa, tudo acompanhado com pão, água e vinho, por 9 euros.
Com tempo, passei a fazer reflexões sobre o Caminho, lembrando as inúmeras contradições ao longo dos 24,9 quilômetros, que o guia de El País/Aguilar sugere em 8 horas. Como saí às 7h30, quando batia o sino da Igreja de Saint Jean Pied de Port, e cheguei por volta das 14h10, quando ainda não estava funcionando o albergue, o que só viria a acontecer a partir das 15 horas, fiz o percurso em cerca de 6h40.
A travessia dos Pirineus é a agonia dos peregrinos. Tanto que muitos desconversam e iniciam o que seria o Caminho Francês não do seu início, em Saint Jean Pied de Port – por onde entraram as tropas de Carlos Magno nas batalhas contra os sarracenos, e depois as tropas de Napoleão..., mas de Roncesvalles – evitando a fase reconhecida como mais árdua do Caminho. Vencê-la, portanto, deve ser comemorada a cada minuto. E a cada minuto da etapa é uma sequência de ânimos, especialmente para quem a faz pela primeira vez. Pois sem conhecê-la, após subir, subir, subir e alcançar um momento plano, você pensa em soltar rojões. Era isso? Fácil... Mas a sensação é por pouco tempo, pois pode vir outra subida, subida, subida, ou, pior, descida, descida, descida. E aquilo que parecia uma facilidade se revela que não é tão fácil assim... Foi o que aconteceu durante as 6 horas e 40 minutos que consegui fazê-la. Para temperar, uma chuvinha aqui, outra acolá. E foi assim, com muito sacrifício e chuva, a primeira etapa do Caminho. Agora, se foi ou não fruto da primeira etapa, a primeira bolha no pé direito só fui perceber quase no finalzinho da segunda etapa...

domingo, 26 de maio de 2019

Peregrino!

Uma dica para diferenciar o peregrino: “"Se for pidão, não é peregrino!”

Num desses grupos alusivos ao Caminho de Santiago um participante alega ter dificuldade para diferenciar o peregrino no universo de pessoas que transitam no Caminho.
Como alguém que busca ser um peregrino – e também pela dúvida ter sido manifestada num post que fiz no Facebook, sobre a ameaça que paira sobre a essência da peregrinação (SOS Caminho de Santiago!, leia também o post abaixo, de 16/05...) –, aceitei tentar colaborar.
Disse, e repito com humildade, que não é muito difícil. "Se for pidão, não é peregrino. Peregrino não pede (quase nunca!!!), peregrino agradece! Aí você já elimina 90%".
Aliás, o que mais se lê nos grupos do Caminho e de amigos do Caminho de Santiago que proliferam no Facebook, é pedido. Quanto pedido!!! “Que hora passa o ônibus?”, “Tem táxi?”, “Algum grupo vai fazer o Caminho tal? Eu vou...”, “É verdade que...”.
A grande maioria dos pedidos é desnecessária. Alguns, contudo, são idiotas, frutos da extrema preguiça – que é um vício terrível. Ora, vai ler um livro entre tantos editados sobre o Caminho de Santiago (eu mesmo escrevi oito!). Vá acessar um site especializado. Tente o dr. Google. Vá escutar seu interior... Ou seja, quando o elemento não tem esse discernimento, também não é peregrino.
"Peregrino busca – pois ele não anda simplesmente, como um andarilho; nem viaja, como um turista", reitero, lembrando uma máxima do Caminho. E mais: "Peregrino é discreto e silencioso – como uma nuvem. Peregrino é harmonia e equilíbrio  como a natureza. Peregrino carrega sua mochila e suas esperanças com alegria, pois elas não pesam. Pelo contrário! Peregrino...".
Finalmente, concluo, pois também não quero parecer que tenho o modelo de como é um peregrino; já que não tenho e continuo buscando ser melhor, e melhor – talvez por isso, peregrinei seis vezes o Caminho de Santiago (e vou voltar!) e também o Caminho Lebaniego, que é uma rota tangencial ao Caminho de Santiago: "Se ainda assim tiver dificuldades em diferenciá-lo, abaixe a cabeça até o solo e ouça o som de seus passos – ouvirá o amor!"
Assim é, ou tenta ser, este peregrino...
Buen Camino!
#pedrasdocaminho
#xacobeo2021

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Eu não sou melhor que tu...

Cada um peregrina o seu Caminho, pois de todos é o Caminho!

Por conseguinte, tu não é melhor que eu!
A partir desta singela constatação é saudável compartilhar a leitura do dia de hoje do Evangelho de João 13, 16-20, proposta pelos estimados irmãos jesuítas e disponível gratuitamente em www.rezandovoy.org
“Cuando Jesús acabó de lavar los pies a sus discípulos, les dijo: “Os aseguro, el criado no es más que su amo, ni el enviado es más que el que lo envía. Puesto que sabéis esto, dichosos vosotros si lo ponéis en práctica. No lo digo por todos vosotros; yo sé bien a quiénes he elegido, pero tiene que cumplirse la Escritura: ‘El que compartía mi pan me ha traicionado’. Os lo digo ahora, antes de que suceda, para que cuando suceda creáis que yo soy. Os lo aseguro: El que recibe a mi enviado me recibe a mí; y el que a mí me recibe, recibe al que me ha enviado”.
Me inspiro neste texto para associá-lo ao espírito do Caminho de Santiago e costurar algumas reflexões que me agitam nestes dias de Primavera europeia, quando as rotas milenares que levam ao sepulcro do Apóstolo de Jesus, Tiago Maior, apresentam número crescente de pessoas, que para lá convergem por motivos diversos.
Em abril passado, por exemplo, com base nas estatísticas da Oficina del Peregrino da Catedral de Santiago de Compostela, para 49,88%, ou 15.823 pessoas, o motivo da peregrinação foi religioso-cultural. Outros 38,65%, ou 12.259 pessoas, disseram que a motivação foi religiosa; e 11,47%, 3.639, alegaram o interesse só cultural.
Talvez a fria análise dos números explique um pouco o clima de intolerância que volta a permear os diferentes itinerários a Compostela, colocando face a face os que querem efetivamente realizar uma peregrinação, na acepção pura da palavra, visando venerar as relíquias do Apóstolo, buscar autoconhecimento, resposta às suas inquietações; e aqueles – aparentemente a maioria – que querem tão somente viajar, atravessar pueblos pitorescos, aproveitar a gastronomia, visitar o fantástico patrimônio cultural.
Aparentemente, o primeiro grupo não tem nada contra o segundo, muito pelo contrário, não fosse o detalhe crucial de que o segundo grupo quer fazer seu turismo utilizando a estrutura criada exatamente para atender a demanda do primeiro grupo. Ou seja, quando o peregrino do primeiro grupo chega exausto ao albergue público, com preço a 6 euros, quase sempre o encontra lotado – e lotado de pessoas do segundo grupo (que chegaram mais cedo, pois caminham pouco...).
Uma alternativa será procurar um albergue particular e pagar a partir de 12 euros. Isto se o albergue particular já não estiver lotado por meio de reservas antecipadas, até mesmo por famílias desse segundo grupo. Também não adiantará caminhar mais algumas horas, pois o próximo albergue público, pelo horário, certamente já estará lotado.
Parece pouco, mas não é!
Além do descarado oportunismo, as pessoas do famigerado segundo grupo exibem outros vícios que aborrecem as pessoas do primeiro grupo. Como observado, os albergues particulares aceitam reservas. Tudo bem. Afinal, eles funcionam como um hotel barato, muito mais barato do que um verdadeiro hotel, que também estão disponíveis na maioria das cidades cruzadas pelos itinerários.
Outra prática questionável desse segundo grupo é que seus integrantes não gostam de carregar peso, ou alegam não ter condições para tanto. Assim, incrementam um serviço de transporte de mochilas – um nicho que os taxistas disputam com unhas e dentes com os Correios da Espanha. A pessoa desse grupo, trajando roupa fitness e tênis, separa para o Caminho uma bolsa com seu necessaire e uma garrafinha de água, e um cajado, e abandona sua mochila com roupas, calçados, shampoo, secador de cabelos... devidamente identificada e o endereço do próximo albergue.
O serviço é eficiente. Na entrega, o funcionário que faz o papel de camareiro não se importará em acolher a mochila e aguardar o dono. Constrangedor é quando as pessoas desse segundo grupo teimam em despachar a mochila para um albergue público ou mantido por associações de amigos do Caminho, ou entidades religiosas, constrangendo o hospitaleiro a acolher uma mochila!!!
Esta situação não é nova! Eu mesmo a relatei no meu primeiro livro, “Pedras do Caminho, meu encontro no Caminho de Santiago”, sobre minha peregrinação pelo Caminho Francês, em 2009. Viria a constatar o mesmo problema em outras peregrinações; e de forma trágica em 2013, no Caminho Sanabrês, por um grupo de quatro que estava de carro. Eles se revezavam na direção. Ao final da etapa, quando era possível, tinham a ousadia de estacionar o veículo na área do albergue...
A questão é que os abusos aumentam a cada ano, por conta da popularização natural das rotas de peregrinação, atraindo pessoas desinformadas sobre o espírito do Caminho de Santiago.
Neste ano, com a crescente proliferação de grupos de peregrinos em redes sociais, como o Facebook, as situações estão ainda mais esdrúxulas, com perguntas que ofendem o razoável e demonstram a total falta de noção dessas pessoas – tudo indicando que os conflitos tenderão a se acirrar no final da Primavera e durante o Verão europeu.
Hoje, contestei uma pessoa que tem a pretensão de transitar entre os dois grupos, pois quer ser reconhecida como peregrina, mas não gosta de carregar mochila, prefere os spas e adora reservar albergue antecipadamente (sobre um deles, gabou-se ter feito a reserva em fevereiro!!!). Fui delicado, falando sempre de forma hipotética, mas não teve jeito, pois a carapuça era do tamanho do seu ego.
Um Caminho se peregrina com passos!!! Seja de quem forem as pernas...
O imbróglio iniciou ao lhe fazer uma pergunta e, em vez de me responder, me perguntar se eu a estava vigiando. Confessei que não, não a estava vigiando e que ela deveria saber, por tudo que disse, escrevi e fiz, pois defendo que cada um realize o seu Caminho do jeito que quiser:
“Se quiser contratar táxi ou uma mula para levar mochila, que contrate; se quiser ficar só em hotel de luxo, tipo spa, ou em albergues particulares, tipo 4 num quarto, que fique... Faça cada um seu 'my way'. Só fico indignado quando este sujeito quer usar a estrutura criada para o peregrino, seja o albergue de 6 euros para o peregrino, seja o hospitaleiro voluntário para o peregrino..., para fazer turismo barato e alardear que faz peregrinação. ‘O que é isso, peregrino?’, diria Gabeira nos anos de chumbo...”
Argumentei ainda que agindo daquela forma, o tal peregrino – sempre indeterminado! – só estará perdendo uma boa oportunidade de conhecer a mística do Caminho e fazer uma verdadeira peregrinação. Disse ainda que acompanho algumas páginas do Caminho na Internet e acho engraçado a postura de alguns "peregrinos", que alardeiam que fazem isso e aquilo, por retórica, enquanto seus passos derrapam pelo Caminho:
“Insisto, não sou contra, nem a favor. O Caminho é de todos. Mas, não façam xororô, pois soa falso...”
Ainda pela manhã, na esteira das reflexões sobre o Caminho, minha timeline do Face ofereceu-me uma foto que tirei em 2015, no Caminho Primitivo. A data do post, contudo, era 2016, quando do lançamento do livro "A Última Peregrinação...", que refletiu sobre o que foi minha quinta peregrinação (que para mim não seria a última, pois voltaria em 2016 para peregrinar o Caminho Inglês e em 2017...)!
Insisti na minha convicção, que é a minha verdade – não admito censura e não negocio meu direito de manifestar minha opinião. E repeti pela enésima vez:
“Cada um peregrina o seu Caminho, pois de todos é o Caminho – este é o axioma. Mas não se engane, nem tente isso contra terceiros, se em vez de peregrinar você gosta mesmo é de turistar! Só não mande sua mochila de táxi para ser recepcionada pelo hospitaleiro, e nem utilize albergue público de 6 euros, muito menos os beneficentes!!!, pois esse patrimônio que sobrevive há 1.200 anos foi criado para o peregrino. Vá para os hotéis e spas que proliferam nas rotas sagradas”.
Para os do segundo grupo, atribuo apenas uma boa viagem!
Para os do primeiro grupo, a quem chamo peregrinos, desejo um entusiasmado Buen Camino!
#pedrasdocaminho
#xacobeo2021

domingo, 20 de janeiro de 2019

#10yearchallenge

06/06/2009: atravessando os Pirineus no primeiro dia de peregrinação pelo Caminho Francês

Algum tempo antes de viralizar #10yearchallenge já havia decidido, no âmbito do meu sabbatical, que este ano o Caminho de Santiago seria em mim revivido por meio de uma singela celebração dos 10 anos de minha primeira peregrinação a Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha, onde repousam as relíquias do Apóstolo de Jesus, Tiago Maior. Números redondos são sempre motivo de festa, embora, cá comigo, considere um ciclo mais consequente a chegada do 12º ano, em referência ao horóscopo lunar chinês e aos 12 animais que compareceram ao convite de Buda para comemorar o Ano Novo...
2009 foi ano do boi.
Em 2009 inaugurei minhas peregrinações pelo Caminho de Santiago e, com pouca noção sobre o estupendo universo que envolve o mistério jacobeo, optei pelos 800 quilômetros do Caminho Francês. Não só pelo fato de ser o mais famoso, ou pano de fundo para o best-seller “Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, mas, também, por ter sido o primeiro sobre o qual colhi informações no momento em que estava sendo despertado para o Caminho.
Esse instante mágico, se é possível aprisioná-lo numa linha do tempo, foi quando no final de 2008 o amigo José Roberto Lisbôa Júnior me pediu (aliás, quebrando uma máxima que eu viria a cultivar no Caminho...) que publicasse no meu jornal uma reportagem sobre o Caminho de Santiago.
O fraterno irmão ponderou que havia sido diplomado hospitaleiro no refúgio de peregrinos de Castrojeriz, no coração do Caminho Francês em Espanha, e um de seus compromissos era divulgar a milenar rota de peregrinação cristã. Concordei de imediato e um dia marcamos a entrevista, quando Lisbôa me detalhou a experiência de sua peregrinação em 2006 pelo Caminho Francês e sua atuação como hospitaleiro em setembro e outubro de 2008.
A entrevista foi capa da edição de janeiro de 2009 do jornal Perspectiva, sob o título “Santiago – Caminho da Solidariedade”, em www.jornalperspectiva.com.br/wp-content/uploads/2016/02/1761.pdf

Capa do jornal Perspectiva, janeiro de 2009

Desde então o Caminho de Santiago passou a fazer parte da minha vida, pois havia decidido peregrinar o Caminho Francês. Sem dispor de todos os recursos que hoje transbordam na internet, fiz uma cópia do guia El País/Aguilar (edição de março de 2006) que havia tomado emprestado de Lisbôa e passei a estudar como poderiam ser minhas etapas. Li até o final (ufa!) o exemplar de Diário de um Mago, que adquiri num sebo. Na Decathon comprei botas, mochila, roupas, meias, enfim, tudo o que achava ser necessário para a viagem. Em 15 de abril de 2009 comprei os bilhetes de avião até Pamplona, com conexões em Lisboa e Madri. A ideia era seguir de ônibus para Roncesvalles e pegar uma van até Saint Jean Pied de Port, o início emblemático do Caminho Francês.
Acabou dando tudo certo... Ou mais que certo, pois desde que havia tomado minha decisão as coisas foram acontecendo sem embaraços, numa sequência de “coincidências” (já me referi como não classifico coincidências os fatos misteriosos no sagrado Caminho de Santiago!) e sinais místicos.
O projeto incluiu documentar a peregrinação, considerando minha disposição de editar um livro. Afinal, o ano seguinte, 2010, seria comemorado Ano Santo, ou ano jacobeo, quando o dia do Apóstolo Santiago, 25 de julho, cai num domingo. E os Caminhos de Santiago são invadidos por peregrinos de todo o planeta. Assim, aproveitando a onda de proliferação dos blogs, em 23 de abril de 2009 criei o meu, na plataforma Uol, em www.blogcomcebola.zip.net, com o objetivo de registrar momentos pitorescos da peregrinação.
A experiência do BlogComCebola foi surpreendente durante a peregrinação (além da primeira, ele abriga as três peregrinações seguintes...) e foi muito importante por ter me proporcionado uma forte interação com amigos. Recordo que minha conta no Facebook somente viria a ser criada algum tempo depois, em 29 de setembro de 2009!
Infelizmente, as postagens neste blog só foram possíveis até 18 de julho de 2014, quando contava com mais de 18 mil acessos e o sistema me informou que não havia mais espaço para textos e fotos. A alternativa foi criar em 15 de agosto de 2014 meu segundo blog, em outra plataforma mais adequada, em www.pedrasdocaminhodesantiago.blogspot.com.br, que está ativo e até este momento totaliza 61.390 visualizações.
É aqui que estarei resgatando os 10 anos de minha primeira peregrinação pelos Caminhos de Santiago, agora animado pela campanha #10yearchallenge!
Buen Camino!

sábado, 5 de janeiro de 2019

Adiós, Sabbatical!

Duas cirurgias, num intervalo de cinco meses...

Sabbatical, em hebraico, shabbat (שבת); em latim, sabbaticus; em grego, sabbatikos (σαββατικός), é um período de interrupção que pode variar de dois meses a um ano, cujo conceito tem fonte em shemitá, descrita em diversas passagens da Bíblia.

Não sei exatamente o momento, mas em alguma esquina da vida havia decidido que, após um período intenso de peregrinações pelo Caminho de Santiago, era chegada a hora de meu sabbatical. E no meu caso, haveria de ser o mais amplo possível, afastando-me tanto das peregrinações quanto de seus respectivos relatos por meio de livros, e todas as demais implicações que um e outro geram. Não seria tarefa fácil.
Havia acabado de constatar, em junho de 2018, que desde 2009 havia realizado oito peregrinações pelo Caminho de Santiago, das quais uma resgatando a célebre peregrinação de Francisco (de Assis, na Itália, a Compostela, na Espanha) e outra por uma rota tangencial do Caminho, totalizando algo em torno de 2.100 quilômetros a pé; e, de forma correspondente, havia publicado oito livros-reportagem  e já trabalhava para escrever uma ficção ambientada no Caminho de Santiago!
Era, pois, tempo de sabbatical. E, entre algumas inusitadas referências, encontrei ensinamentos relevantes em Levítico XXV, transmitidos pelo Senhor a Moisés... Naquele instante, ainda traduzindo em mim os efeitos da peregrinação realizada em junho de 2017 pelo Caminho Lebaniego, a citada rota tangencial do Caminho de Santiago que atravessa a Cordilheira Cantábrica, havia acabado de editar um livro alusivo por meio do financiamento coletivo proporcionado entre meus amigos e amigos de Santiago.
Informações sobre todo este processo, desde a peregrinação até a publicação de “Lebaniego”, estão nos posts anteriores, ou abaixo, o mais recente datado de 26 de julho de 2018! Naqueles dias, temperando o conturbado momento, estava focado em me recuperar de uma cirurgia crucial, feita há pouco mais de um mês, em 15 de junho, para colocação de uma prótese de titânio na articulação coxofemoral esquerda; ou, como se diz, uma prótese no quadril, para aliviar a intensa dor provocada pela artrose.
E antes que algum desavisado possa atribuir o mínimo fiapo de culpa ou dolo ao Apóstolo Santiago, esclareço que o desgaste da cartilagem articular do quadril pode ser causado por traumatismos antigos, como pela prática do surfe (desde o final dos anos 60), por alterações congênitas da forma do quadril (o que é fato), por doenças da infância e da adolescência que tenham afetado o quadril (que desconheço), ou pelo desgaste puro da cartilagem sem razão aparente.
Aliás, a leitura que faço agora é exatamente oposta; neste instante em que me recupero de ter colocado prótese semelhante na articulação coxofemoral direita, em 23 de novembro, cinco meses após a primeira, executada de forma magistral pelo mesmo dr. Paulo Rogério Ferreira, que carinhosamente apelidei “Mão Santa”. Hoje, não tenho dúvidas de que se resisti bravamente às duas cirurgias, num intervalo de cinco meses, impressionando positivamente o dr. Paulo Rogério, assim com os profissionais da saúde que trataram e tratam de minha reabilitação (especialmente o fisioterapeuta dr. Carlos Bahir de Andrade Jr., que chamo “Dr. Esperança”), foi exatamente por ter caminhado os mais de 2.100 quilômetros do Caminho de Santiago. Ou seja, se não os tivesse peregrinado, teria inevitavelmente sofrido todo o drama da artrose severa em meu quadril, pois o processo degenerativo já se havia instalado – e não teria tanta certeza se estaria comemorando a graça de voltar a caminhar com minhas pernas. Ah! E certamente não teria a mais remota possibilidade de um dia peregrinar o Caminho de Santiago: nem os últimos 100 quilômetros em troca de uma Compostela, muito menos o emblemático Caminho Francês, com seus estupendos 800 quilômetros, que enfrentei durante 29 dias em 2009!
Obrigado, Santiago!
Se o leitor se atentou para as datas, ou “coincidências” (pois, como já explanei em algum dos meus livros, não existem coincidências no âmbito do sagrado Caminho de Santiago!), em 2019 – exatamente em 6 de junho – estarei completando 10 anos do início de minha peregrinação pelo meu primeiro Caminho de Santiago. Naquele dia, abençoado por uma fina garoa, me despedi de Saint Jean Pied de Port, na França, para atravessar os Pirineus e chegar a Roncesvalles, na Espanha, inaugurando uma saga que mudaria minha vida de uma vez por todas...
Buen Camino!