segunda-feira, 10 de junho de 2019

Saudades do Brasil


Ermida de Santa María de Eunate: legado dos Templários...

As quarta e quinta etapas de minha peregrinação pelo Caminho Francês, há 10 anos, corresponderam ao trecho de Pamplona até Estella, com cerca de 45 km – friso “cerca de” pois essas marcas não têm e possivelmente nunca terão um consenso nos diferentes guias e sites sobre o Caminho de Santiago... Enfim, ao chegar a Estella refleti sobre os dois dias anteriores, quando experimentei uma rota tangencial do Caminho de Santiago para alcançar o Caminho Aragonês e visitar a ermida de Santa María de Eunate: fantástica!!!
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O texto abaixo foi publicado no primeiro livro da trilogia Pedras do Caminho: Meu Encontro no Caminho de Santiago!

MINHA TERRA TEM PALMEIRAS

Na quarta-feira, 10 de junho, completei a minha quinta etapa do Caminho, no qual em algum momento ultrapassei os primeiros 100 quilômetros – só para lembrar, serão mais de 800 quilômetros até a Catedral de Santiago de Compostela...
Afinal, a primeira etapa, de Saint Jean Pied de Port, na França, até Roncesvalles, na Espanha, tem 25,7 km. A segunda, de Roncesvalles até Zubiri, 21,5 km. A terceira, de Zubiri até Pamplona, 20,4 km. A quarta, de Pamplona até Puente la Reina, 24 km. E a quinta, de Puente la Reina até Estella, 22 km, totalizando 113,6 km. Mais teve uns quilômetros a mais, que vou detalhar...
Se quiser ser um pouco mais exato e tirar esses 13,6 km da marca, creio que os 100 quilômetros foram completados em algum momento em que pisava em resquícios da calçada romana, entre Cirauqui e Lorca.
A calçada, possível ver em vários trechos, é uma das atrações históricas de todo o Caminho e junto com as pontes românicas e medievais, com suas estruturas arcadas, fazem uma composição muito bonita com a natureza.
Pois é, merecem destaque os aspectos arquitetônicos e naturais do Caminho, embora na postagem anterior foi enfatizado que o melhor do Caminho se encontra nos peregrinos, gente de toda parte do planeta, e no povo, francês e espanhol, dos “pueblos”, que vive diuturnamente o fenômeno da peregrinação. Não se trata de uma contradição, muito menos fazer uma mea culpa, mas sim deixar claro que tantas são as atrações do Caminho para quem se dispõe a fazê-lo, que vale a pena inclui-lo no roteiro de viagem de algum ano – ainda que seja por alguns dias.
Quem tem tempo reserva 30 dias, ou mais, para percorrê-lo na sua forma tradicional, de Saint Jean Pied de Port, no caso do Caminho Francês, ou de Somport, no caso do Aragonês, até Santiago de Compostela. Quem tem mais dias, começa de outros pontos da França. Ouvi casos de pessoas que vieram de Jerusalém, outras da Holanda, sempre a pé.
Mas, quem não tem tempo, e conheci muitos com essa limitação, fazem um ou mais trechos, 10 ou 30 quilômetros, apenas para sentir o espírito do Caminho, conversar com os peregrinos, o povo, ver os monumentos, refletir, se aventurar, fazer amigos etc. No ano seguinte, faz mais um pedaço. E aí continua se divertindo, aprendendo, se machucando...
E como dói...
Mas como vim de longe, não desisto fácil... Depois das duas primeiras etapas, completei a terceira, de Zubiri a Pamplona, com alguma dificuldade... Em termos, pois ao chegar e atravessar a ponte elevadiça das muralhas restauradas de Pamplona fui de tênis percorrer a cidade, até a Plaza de Toros, e também as famosas ruas que em julho sediarão a tradicional Festa de São Firmino, quando os touros são soltos e sai da frente... No centro da cidade tem uma escultura sobre a festa...
Não é a minha combalida coluna que dói, mas os joelhos, de tanta subida e, principalmente, descida. Acho que teve gente que parou aqui e desistiu... O José Avelino, aquele brasileiro de Ribeirão Preto, não vi mais... De repente, em alguma etapa volte a encontrá-lo. Mas da última vez que falei com ele, em Pamplona (e olha que iniciou em Roncesvalles e não fez o trecho mais difícil, saindo de Saint Jean!) estava desolado.
Eu mesmo cheguei a arquitetar uma paradinha. Ou seja, em vez de fazer a quarta etapa completa, de Pamplona a Puente la Reina, iria parar em Cizur Menor, a 5,1 quilômetros, um passeio, que tem uma boa estrutura, tiraria o dia para descansar, ou mesmo voltar a Pamplona e curtir mais a cidade. Fui dormir na dúvida. Seguir e me arriscar ou parar logo mais e recarregar energias? É aquele negócio que só você decide, não dá para pedir ajudar a outro peregrino, às cartas, aos universitários, como naquele programa de televisão... Afinal, quem deve saber do seu limite é você, e mais ninguém!
(PS.: Tremenda bobagem. Agora entendo que nem mesmo você, muitos menos os outros sabem o seu limite, eis que, absolutamente imponderável!)
O que sei é que no dia seguinte a ideia de jerico havia desaparecido. Acordei recuperado e, em vez dos 5,1 km negociados, fiz os 24 km (na verdade um pouco mais, vou detalhar...) até Puente la Reina. Foi fácil? Claro que não. Mas o trajeto me reservou situações emocionantes.
Ao chegar em Muruzábal, faltando apenas 4,1 km para Puente la Reina, avistei o templo da igreja de San Esteban e na porta, faltando 15 minutos para fechar, conheci mais uma Maria. Atenciosa, começamos a conversar e como demonstrei interesse entramos e ela deu detalhes do templo, com partes bem diferenciadas. A primeira, gótica, do século XIV. A segunda, renascentista, do século XVII.
Entre tantos aspectos interessantes, está na Capela de São José os restos mortais do bispo de Calahorra, Don Juan Juaniz de Echalaz, nascido em Muruzábal, que conquistou o espaço pois ajudou a financiar uma ampliação da igreja...
Aí surgiu a reiteração (outras pessoas também me deram essa dica...) de que deveria conhecer a ermida de Santa María de Eunate, que está no Caminho Aragonês, exatamente no momento em que se encontra com o Francês para seguir até Santiago. Apontou o percurso, com sinalização precária e lá fui eu conhecer a famosa ermida. Para quem estava a ponto de parar para embromar um dia, dar uma esticada de mais uns 4 a 5 quilômetros parece coisa de louco...
Pois é, caminhei com disposição. Um pouco antes de chegar dei uma parada para tomar uma água e notei a aproximação de uma pessoa. Vestia camisa e calça na cor marrom, trazia um crucifixo no peito e puxava uma mala de rodinhas. Não pode ser peregrino, pensei. Mas já havia ouvido falar de peregrino que leva suas coisas em mala de rodinhas, em vez da mochila...
Ah!, sobre isso e sobre as pessoas que fazem um pedaço do Caminho, é cada vez mais normal peregrinar levando uma mochilinha básica, enquanto as roupas da noite, para o passeio para saborear a gastronomia e outras diversões da parada, vão de carro, por meio de serviços prestados por empresas, em conjunto com hotéis de classe.
Não era o caso. Tratava-se de Lázaro, um ermitanho, em espanhol, ou ermitão (não aquele de caverna...), ou seja, quem vive em ermida, orando, aprendendo a Bíblia, orando... Era o primeiro ermitão que estava conhecendo no dia. Primeiro, porque logo em seguida iria conhecer João, o ermitão de Santa María de Eunate.
Abordei Lázaro e caminhamos juntos. Me contou que Lázaro não era seu nome de batismo, mas o que escolheu quando fez seus votos e passou a se dedicar à Igreja Católica. Lázaro, aquele que Deus ressuscitou. Estava em visita ao ermitão de Eunate e ficaria lá uns dias.
A ermida é do século XII, tem forma octogonal e é cercada por um muro também octogonal. Ela teria sido construída pelos Templários, mas não há provas consistentes. Mas tem tudo a ver, pois é da época em que foi forte a influência dos Templários em toda a Península Ibérica. Ela foi recuperada, como a grande maioria dos templos e monumentos do Caminho – uma preocupação com o patrimônio histórico e cultural que deveria ser mais efetiva no Brasil.
Conheci a ermida enquanto Lázaro foi ao encontro de João, nome de batismo. Ao me despedir, conheci o segundo ermitão. Ao saber que eu era brasileiro – como faz a grande parte dos espanhóis que tenho conhecido nos últimos dias – ficou tão alegre que recitou versos de Gonçalves Dias e eu, claro, o acompanhei: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá...” Sem lembrar todas as estrofes acrescentei a última: “Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá!”
Lázaro não estava entendendo nada e João passou a explicar os significados dos versos.
Sobre o final, contei que, pelo que eu sabia, ao retornar ao Brasil o navio que trazia o desterrado Gonçalves Dias naufragou na costa.
Vai chorar?

sábado, 8 de junho de 2019

O que estou fazendo aqui?!?!?!


Em Pamplona: a síndrome do terceiro dia...

Hoje, há 10 anos, completei a terceira etapa de minha peregrinação pelo Caminho Francês, de Zubiri até Pamplona, algo em torno de 21,1 quilômetros. Foi um momento crucial, a síndrome do terceiro dia, quando me perguntava e me perguntava: “o que estou fazendo aqui?!?!?!”
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O texto abaixo foi publicado no primeiro livro da trilogia Pedras do Caminho: Meu Encontro no Caminho de Santiago!

DOMINGOS E OS AMANTES DO BRASIL

No primeiro domingo no Caminho conheci Domingos, natural de Benin, na África – que, orgulhoso, diz ser a terra do vodú... –, e que reside em Versalhes. Entre as coisas que pude entender na sua língua enrolada, contou sobre famílias de seu país que foram morar na Bahia, e relacionou o vodú, candomblé e o escambau. Lembrar de Domingos me fez recordar muitas das pessoas, provavelmente inesquecíveis, que estou encontrando no Caminho. Antes mesmo de iniciar o Caminho coloquei em minha cabeça que, muito mais do que paisagens, monumentos, cultura, o Caminho são as pessoas, sejam peregrinos, sejam os que convivem com essa rotina de muitos séculos.
Sempre que posso, fotografo... Maria Camino me abrigou em Sain Jean Pied de Port – duas diárias, cada 25 euros, e mais 5 euros de um bocadilho que me salvou na primeira etapa... Ela mesma duas vezes peregrina até Santiago. O negócio deu tanto certo que possibilitou a compra de um pequeno sítio nas cercanias de Saint Jean, onde planta verduras e frutas – a banana que me serviu, contudo, era das Ilhas Canárias.
Domingos encontrei na segunda etapa, na saída de Roncesvalles. Ele já vinha do trecho francês, não lembro exatamente, mas após Le Puy, e tinha um pique muito forte. Acabamos tomando café da manhã juntos no primeiro bar do trajeto e trocamos ideias, ele falando um francês, misturado com inglês e espanhol, e eu com meu portunhol e alguma coisa em inglês. Se não nos entendemos completamente, pelo menos não discutimos e o papo rolou fácil, animando a caminhada.
Sua motivação – aliás, como a da grande maioria com quem tenho falado e indagado – é a aventura, aliada à fé numa energia superior. Quase sempre esses peregrinos não revelam a religiosidade, mas todos, pelos menos os que confessaram, eram católicos. Acho que essa discrição é fruto do desgaste da Igreja, alvo de tantas denúncias, e de seu eventual afastamento do rebanho – mas que investe forte na peregrinação, pelo menos na Espanha. Para a qual, tanto quanto, a peregrinação é um negócio.
O português Pedro, que está fazendo o Caminho de bicicleta, peregrina por aventura e aproveita as férias. A bicicleta veio de trem, não é uma “Brastemp” e pesa 13,5 quilos. Na primeira etapa, com muitas subidas, em muitos trechos Pedro a empurrou. Contei que a bicicleta especial de um amigo, de carbono, que fará a travessia da Califórnia, nos Estados Unidos, pesa 3,5 quilos e ele delirou... Católico e louco por aventura, Pedro – que estava fazendo 47 anos naquele sábado (dei-lhe um pedaço do Lindt que comprei no freeshop) – levava um altímetro e, apesar de sua incredulidade na capacidade da máquina, confirmou o ponto mais alto dos Pirineus a 1.430 metros.
Outro figuraça acabou de passar agora por aqui – estou escrevendo sentado na cama (desta vez na parte de cima do beliche), cama número 33 (ainda falta muito para alcançar...), no novo e grande albergue municipal de Pamplona. Tem capacidade de 112 camas, mas é muito mais moderno que o de Roncesvalles – aquele casarão medieval a que já me referi. É um belga – que não me lembro o nome, mas que sempre que me vê diz “Olá, Luiz!!!!”. Sentamos na mesma mesa para comer um menu do peregrino em Roncesvalles. Acho que já falei da sopa de batatas, truta frita com batatas e iogurte de sobremesa (ele me deu o dele, o que me ajudou na manhã seguinte até tomar o café da manhã no Caminho com o Domingos...), regado a vinho de Navarra e água.
Ah! E de outros três brasileiros que ainda não tenho fotos. Um é o..., como é mesmo o nome dele? De Ribeirão Preto, vendeu a sociedade que tinha numa universidade, uma dezena de cursos, negocião, jogou tudo para o espaço para viver a vida. Diz que vai comprar uns boizinhos para colocar na fazenda dos pais... Tem 50 anos, mas os cabelos brancos aparentam mais.
Nos conhecemos na minha segunda etapa, mas a primeira dele, pois iniciou em Roncesvalles. Ele leva fraldas de pano para se enxugar, porque sua pele é sensível. Sei disso, pois em Pamplona colocamos as roupas molhadas na mesma máquina para secar. Ele pagou uma rodada da máquina, eu paguei um chocolate na máquina que tem na lavanderia. Ao final, vai se encontrar com a esposa em Madri... Era o que eu queria... com a minha, claro! Foi ele que, coincidentemente, providenciou o meu reencontro com meus óculos, que havia perdido quando fotografava a medieval “Puente de la Rabia”, em Zubiri. Uma peregrina achou, ele estava junto; ambos seguiram para Larrasoaña, mas no local que os óculos caíram no chão, junto ao rio, outro peregrino também tomou conhecimento. Ao refazer o percurso desde a hora em que havia trocado de óculos, pelo escuro, acabei localizando o peregrino, que ficou de conversar com a dupla, pois sabia exatamente quem era, e deixar com algum hospitaleiro em Larrasoaña.
Pois não é que no dia seguinte, com o compromisso de parar no albergue de Larrasoaña para pegar os óculos (naturalmente levei um reserva e estava tudo bem...), encontrei o... Ribeirão e a peregrina exatamente no ponto onde sairia do Caminho para ir até o albergue – que fica a uns 200 metros. Eles estavam escrevendo um bilhete para mim num mural do Caminho. Demais, né? Agradeci aos dois e fui até o albergue...
Mas haviam escrito que estava em cima de um móvel na entrada principal e a porta estava fechada. Bati e ninguém apareceu...
Vi um senhor numa casa em frente e fui ao seu encontro. Santiago – mais uma figura. Adora o Brasil e os brasileiros – Ih! Lembrei de outros dois espanhóis que encontrei e que também amam as coisas do Brasil. Aliás, aproveitando a sequência de parênteses, o que tem de espanhol que gosta do Brasil não é brincadeira. O Lisbôa já havia me advertido disso. Aí, eu aproveito!!! Nesta segunda-feira, no café da manhã, que acabei tomando em Larrasoaña, logo depois de conhecer Santiago – que mantém um Museu do Peregrino, com coisas que ganha de peregrinos. Ele tem um cantinho com bandeiras do Brasil, camisa do Ronaldo Fenômeno, foto do Ayrton Senna... O que me deu de presentes e cartões, brincadeira! Ele dizia, leva mais alguns, divulga lá no Brasil. Em minutos, me dava mais um montinho...
Mas... e o responsável pelo albergue? Afinal foi para isso que busquei informações com ele. “Daqui a pouco chega o pessoal da limpeza...”, me tentava tranquilizar. E depois de um papo com Santiago – que me indicou o café onde conheci outro espanhol amante do Brasil – fiquei alguns minutos na praça ajeitando minha mochila, quando vi uma senhora entrando no prédio. Não era da faxina, mas uma hospitaleira, que me entregou os óculos.
Resolvida a questão, aceitei a sugestão do Santiago e fui tomar o café da manhã no bar indicado. Esse outro espanhol foi muito engraçado. Tinha outros estrangeiros no bar, mas quando disse que era do Brasil, da terra do Santos Futebol Clube, do Rei do Futebol – e quem no mundo não conhece essa dupla!!!, coisa de deixar qualquer santista com muito orgulho, rolando de rir de outros times, que nem vou citar, que não tem história, não tem cultura, lamentável... O papo foi se prolongando até que versou sobre música e eu pedi para ele colocar uma brasileira. Não é que o bonachão abandonou o balcão, veio se sentar na mesa comigo, trazendo junto um grande livro com nomes de cantores e músicas e ia falando... Eram CDs que ele dizia ter. Várias coleções... sertanejo, Roberta Miranda, Chitãozinho & Chororó (claro que com sotaque navarro..., o que ficava mais engraçado), Caetano, Chico Buarque, Tom Jobim... Ele falava alto... e eu acrescentava... “É um especialista, é um especialista!!!”. Ele não parava. Percebi pelo vidro da janela que vinham uns quatro peregrinos e avisei. Ele não deu pelota (“eles esperam...”) e continuou recitando os grupos musicais e cantores brasileiros.
Um dos peregrinos que entrou, aproveitou o clima e brincou, sem saber de quem ele estava falando...
– São peregrinos?
Outro espanhol que revelou seu amor pelo Brasil foi o que me preparou um tremendo bocadilho em Zubiri, logo após reservar a vaga no refúgio e ter localizado o paradeiro dos óculos...
Ao saber que eu era brasileiro colocou um CD com músicas de um show ao vivo de Roberta Miranda. Ele estava encerrando o expediente, mas ficou tão alegre, que cantava a guarânia de Roberta, enquanto tomava uma mistura com Campari preparada pelo funcionário – que também arriscava um trago. Ao perguntar se ele tinha comprado ou ganho o CD ele resumiu: “Internet!”
E ainda me avisou: “Você precisa conhecer o Pepe... Ele sim, adora o Brasil”. Os outros dois brasileiros são um casal, Graciliano, de São Luis, do Maranhão, e a esposa. De 2003 até agora fez o Caminho seis vezes. As duas últimas com a esposa – juntos fazem o terceiro.
Eles estão andando desde Le Puy, na França. Ao chegar a Saint Jean Pied de Port – eu os conheci na sede da Associação – eles já tinham caminhado cerca de 700 quilômetros. Contam com entusiasmo que o lado francês é demais e diz que preciso fazê-lo. Aliás, não é a primeira pessoa que diz isso.
Quem sabe, um dia.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

10 anos depois!



A travessia dos Pirineus é a agonia dos peregrinos...

Exatamente nesta data, 6 de junho, há 10 anos, iniciava a saga de minhas peregrinações pelo Caminho de Santiago, atravessando os Pirineus, de Saint Jean Pied de Port a Roncesvalles, na primeira etapa do Caminho Francês, em torno de 24,9 km... Depois viriam o Caminho Português (2010), Aragonês (2012), Sanabrês (2013), Primitivo (2015), Inglês (2016), além da travessia de Assis a Compostela (2014), perseguindo os passos de Francisco em sua célebre peregrinação de 1214, e Lebaniego (2017), uma preciosidade, uma rota tangencial do Caminho de Santiago!!! Saga que resultou na edição de 8 livros, sendo um dos relatos premiado no concurso internacional promovido pelo Concello de Oroso, na Galícia - e a condição de autor brasileiro com mais livros editados sobre o Caminho de Santiago.
Buen Camino! 👣🙏🏽🐾
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Os textos abaixo foram publicados no primeiro livro da trilogia Pedras do Caminho: Meu Encontro no Caminho de Santiago!

Eu, um peregrino, apenas...

PEREGRINO

Sou um peregrino, apenas. O nome que se dá a toda e qualquer pessoa que faça um dos muitos caminhos que levam a Santiago de Compostela, na Espanha. No meu caso, fiz o Caminho Francês, considerado o mais tradicional e o mais organizado, bem sinalizado e com uma boa infraestrutura de atendimento ao peregrino. A pé, a partir de Saint Jean Pied de Port, na França, completei os cerca de 800 quilômetros em 29 dias, de 6 de junho a 4 de julho de 2009.
Sou apenas um dos milhões de peregrinos que chegaram a Santiago de Compostela a pé. Poderia também ter ido de bicicleta ou cavalo – uma das três formas admitidas para ser declarado peregrino e fazer jus à Compostela, o diploma que comprova a viagem. Meu despertar se deu ao fazer uma reportagem sobre o Caminho, a pedido do amigo peregrino e hospitaleiro José Roberto Lisbôa Júnior, o que exigiu pesquisa e confirmou minha fé.
Fui só. Mas nunca me senti só. Carregando meu notebook, quase diariamente checando minha caixa de e-mails e postando no blog especialmente criado para detalhar meus passos, sempre estive perto da família e dos muitos amigos que descobri ter.
O que você lerá e verá nas próximas páginas são relatos e imagens de um peregrino, apenas com o diferencial de ser um peregrino jornalista, com um ritmo semelhante a uma reportagem, compromissado com o real. Não há, contudo, a pretensão de servir de guia para a sua peregrinação.
Este é o meu Caminho.
Se você busca um guia, desde já indico dois, editados por El País/Aguilar e Rother, que utilizei e muito me facilitaram.
Espero que você aprecie o meu Caminho e se divirta. Da mesma forma que me diverti e me surpreendi ao acompanhar a transformação da minha visão de mundo, vencer meus demônios e me encontrar comigo.

NADA É FÁCIL NO CAMINHO

Albergue de Roncesvalles

Estou agora no albergue do Monastério de Roncesvalles, sentado num dos 60 beliches, ou seja, 120 camas do enorme galpão de paredes de pedra e um pé direito de uns sete metros. Ele está estrategicamente localizado no final da primeira etapa do Caminho Francês, que iniciei em Saint Jean Pied de Port, e em meio a tanta facilidade, inclusive internet (que funciona mediante o depósito de uma moeda 1 euro por 20 minutos), por 6 euros acabei ficando.
Até agora – 21h25 –, com todos se preparando para dormir, a experiência tem sido ótima. Peregrinos exaustos, o pessoal fala baixo na mesa dos hospitaleiros, o equipamento de som toca cantos gregorianos – afinal o albergue é mantido pelo Monastério – e quem está a fim de conversar está no subsolo, onde funcionam os terminais de computadores, os banheiros, lavanderia e tem uma grande mesa para encontros e comilanças.
Na entrada, ao falar com um dos três hospitaleiros que estavam recepcionando, disse que tinha um amigo brasileiro hospitaleiro em Castrojeriz. Ele respondeu que conhecia o local e o refúgio de lá, mas não o hospitaleiro.
Pediu que eu colocasse as botas na entrada e escolhesse uma das camas. Minhas botas no meio de outros 100 pares? Não coloquei e fui para o fundão; escolhi uma cama na parte de baixo. Ajeitei minhas coisas, fui lavar as roupas suadas na travessia dos Pirineus, estendi tudo no varal externo e fui tomar banho. Ainda não tinha comprado sabonete. Mas, tudo bem, sempre tem um bom peregrino esquecido; alguém deixou um frasco de shampoo dentro do banheiro...
Depois fui ao restaurante em frente e reservei um menu peregrino a partir das 19 horas – entrada, sopa de batatas de entrada, depois truta com batatas fritas, iogurte de sobremesa, tudo acompanhado com pão, água e vinho, por 9 euros.
Com tempo, passei a fazer reflexões sobre o Caminho, lembrando as inúmeras contradições ao longo dos 24,9 quilômetros, que o guia de El País/Aguilar sugere em 8 horas. Como saí às 7h30, quando batia o sino da Igreja de Saint Jean Pied de Port, e cheguei por volta das 14h10, quando ainda não estava funcionando o albergue, o que só viria a acontecer a partir das 15 horas, fiz o percurso em cerca de 6h40.
A travessia dos Pirineus é a agonia dos peregrinos. Tanto que muitos desconversam e iniciam o que seria o Caminho Francês não do seu início, em Saint Jean Pied de Port – por onde entraram as tropas de Carlos Magno nas batalhas contra os sarracenos, e depois as tropas de Napoleão..., mas de Roncesvalles – evitando a fase reconhecida como mais árdua do Caminho. Vencê-la, portanto, deve ser comemorada a cada minuto. E a cada minuto da etapa é uma sequência de ânimos, especialmente para quem a faz pela primeira vez. Pois sem conhecê-la, após subir, subir, subir e alcançar um momento plano, você pensa em soltar rojões. Era isso? Fácil... Mas a sensação é por pouco tempo, pois pode vir outra subida, subida, subida, ou, pior, descida, descida, descida. E aquilo que parecia uma facilidade se revela que não é tão fácil assim... Foi o que aconteceu durante as 6 horas e 40 minutos que consegui fazê-la. Para temperar, uma chuvinha aqui, outra acolá. E foi assim, com muito sacrifício e chuva, a primeira etapa do Caminho. Agora, se foi ou não fruto da primeira etapa, a primeira bolha no pé direito só fui perceber quase no finalzinho da segunda etapa...

domingo, 26 de maio de 2019

Peregrino!

Uma dica para diferenciar o peregrino: “"Se for pidão, não é peregrino!”

Num desses grupos alusivos ao Caminho de Santiago um participante alega ter dificuldade para diferenciar o peregrino no universo de pessoas que transitam no Caminho.
Como alguém que busca ser um peregrino – e também pela dúvida ter sido manifestada num post que fiz no Facebook, sobre a ameaça que paira sobre a essência da peregrinação (SOS Caminho de Santiago!, leia também o post abaixo, de 16/05...) –, aceitei tentar colaborar.
Disse, e repito com humildade, que não é muito difícil. "Se for pidão, não é peregrino. Peregrino não pede (quase nunca!!!), peregrino agradece! Aí você já elimina 90%".
Aliás, o que mais se lê nos grupos do Caminho e de amigos do Caminho de Santiago que proliferam no Facebook, é pedido. Quanto pedido!!! “Que hora passa o ônibus?”, “Tem táxi?”, “Algum grupo vai fazer o Caminho tal? Eu vou...”, “É verdade que...”.
A grande maioria dos pedidos é desnecessária. Alguns, contudo, são idiotas, frutos da extrema preguiça – que é um vício terrível. Ora, vai ler um livro entre tantos editados sobre o Caminho de Santiago (eu mesmo escrevi oito!). Vá acessar um site especializado. Tente o dr. Google. Vá escutar seu interior... Ou seja, quando o elemento não tem esse discernimento, também não é peregrino.
"Peregrino busca – pois ele não anda simplesmente, como um andarilho; nem viaja, como um turista", reitero, lembrando uma máxima do Caminho. E mais: "Peregrino é discreto e silencioso – como uma nuvem. Peregrino é harmonia e equilíbrio  como a natureza. Peregrino carrega sua mochila e suas esperanças com alegria, pois elas não pesam. Pelo contrário! Peregrino...".
Finalmente, concluo, pois também não quero parecer que tenho o modelo de como é um peregrino; já que não tenho e continuo buscando ser melhor, e melhor – talvez por isso, peregrinei seis vezes o Caminho de Santiago (e vou voltar!) e também o Caminho Lebaniego, que é uma rota tangencial ao Caminho de Santiago: "Se ainda assim tiver dificuldades em diferenciá-lo, abaixe a cabeça até o solo e ouça o som de seus passos – ouvirá o amor!"
Assim é, ou tenta ser, este peregrino...
Buen Camino!
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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Eu não sou melhor que tu...

Cada um peregrina o seu Caminho, pois de todos é o Caminho!

Por conseguinte, tu não é melhor que eu!
A partir desta singela constatação é saudável compartilhar a leitura do dia de hoje do Evangelho de João 13, 16-20, proposta pelos estimados irmãos jesuítas e disponível gratuitamente em www.rezandovoy.org
“Cuando Jesús acabó de lavar los pies a sus discípulos, les dijo: “Os aseguro, el criado no es más que su amo, ni el enviado es más que el que lo envía. Puesto que sabéis esto, dichosos vosotros si lo ponéis en práctica. No lo digo por todos vosotros; yo sé bien a quiénes he elegido, pero tiene que cumplirse la Escritura: ‘El que compartía mi pan me ha traicionado’. Os lo digo ahora, antes de que suceda, para que cuando suceda creáis que yo soy. Os lo aseguro: El que recibe a mi enviado me recibe a mí; y el que a mí me recibe, recibe al que me ha enviado”.
Me inspiro neste texto para associá-lo ao espírito do Caminho de Santiago e costurar algumas reflexões que me agitam nestes dias de Primavera europeia, quando as rotas milenares que levam ao sepulcro do Apóstolo de Jesus, Tiago Maior, apresentam número crescente de pessoas, que para lá convergem por motivos diversos.
Em abril passado, por exemplo, com base nas estatísticas da Oficina del Peregrino da Catedral de Santiago de Compostela, para 49,88%, ou 15.823 pessoas, o motivo da peregrinação foi religioso-cultural. Outros 38,65%, ou 12.259 pessoas, disseram que a motivação foi religiosa; e 11,47%, 3.639, alegaram o interesse só cultural.
Talvez a fria análise dos números explique um pouco o clima de intolerância que volta a permear os diferentes itinerários a Compostela, colocando face a face os que querem efetivamente realizar uma peregrinação, na acepção pura da palavra, visando venerar as relíquias do Apóstolo, buscar autoconhecimento, resposta às suas inquietações; e aqueles – aparentemente a maioria – que querem tão somente viajar, atravessar pueblos pitorescos, aproveitar a gastronomia, visitar o fantástico patrimônio cultural.
Aparentemente, o primeiro grupo não tem nada contra o segundo, muito pelo contrário, não fosse o detalhe crucial de que o segundo grupo quer fazer seu turismo utilizando a estrutura criada exatamente para atender a demanda do primeiro grupo. Ou seja, quando o peregrino do primeiro grupo chega exausto ao albergue público, com preço a 6 euros, quase sempre o encontra lotado – e lotado de pessoas do segundo grupo (que chegaram mais cedo, pois caminham pouco...).
Uma alternativa será procurar um albergue particular e pagar a partir de 12 euros. Isto se o albergue particular já não estiver lotado por meio de reservas antecipadas, até mesmo por famílias desse segundo grupo. Também não adiantará caminhar mais algumas horas, pois o próximo albergue público, pelo horário, certamente já estará lotado.
Parece pouco, mas não é!
Além do descarado oportunismo, as pessoas do famigerado segundo grupo exibem outros vícios que aborrecem as pessoas do primeiro grupo. Como observado, os albergues particulares aceitam reservas. Tudo bem. Afinal, eles funcionam como um hotel barato, muito mais barato do que um verdadeiro hotel, que também estão disponíveis na maioria das cidades cruzadas pelos itinerários.
Outra prática questionável desse segundo grupo é que seus integrantes não gostam de carregar peso, ou alegam não ter condições para tanto. Assim, incrementam um serviço de transporte de mochilas – um nicho que os taxistas disputam com unhas e dentes com os Correios da Espanha. A pessoa desse grupo, trajando roupa fitness e tênis, separa para o Caminho uma bolsa com seu necessaire e uma garrafinha de água, e um cajado, e abandona sua mochila com roupas, calçados, shampoo, secador de cabelos... devidamente identificada e o endereço do próximo albergue.
O serviço é eficiente. Na entrega, o funcionário que faz o papel de camareiro não se importará em acolher a mochila e aguardar o dono. Constrangedor é quando as pessoas desse segundo grupo teimam em despachar a mochila para um albergue público ou mantido por associações de amigos do Caminho, ou entidades religiosas, constrangendo o hospitaleiro a acolher uma mochila!!!
Esta situação não é nova! Eu mesmo a relatei no meu primeiro livro, “Pedras do Caminho, meu encontro no Caminho de Santiago”, sobre minha peregrinação pelo Caminho Francês, em 2009. Viria a constatar o mesmo problema em outras peregrinações; e de forma trágica em 2013, no Caminho Sanabrês, por um grupo de quatro que estava de carro. Eles se revezavam na direção. Ao final da etapa, quando era possível, tinham a ousadia de estacionar o veículo na área do albergue...
A questão é que os abusos aumentam a cada ano, por conta da popularização natural das rotas de peregrinação, atraindo pessoas desinformadas sobre o espírito do Caminho de Santiago.
Neste ano, com a crescente proliferação de grupos de peregrinos em redes sociais, como o Facebook, as situações estão ainda mais esdrúxulas, com perguntas que ofendem o razoável e demonstram a total falta de noção dessas pessoas – tudo indicando que os conflitos tenderão a se acirrar no final da Primavera e durante o Verão europeu.
Hoje, contestei uma pessoa que tem a pretensão de transitar entre os dois grupos, pois quer ser reconhecida como peregrina, mas não gosta de carregar mochila, prefere os spas e adora reservar albergue antecipadamente (sobre um deles, gabou-se ter feito a reserva em fevereiro!!!). Fui delicado, falando sempre de forma hipotética, mas não teve jeito, pois a carapuça era do tamanho do seu ego.
Um Caminho se peregrina com passos!!! Seja de quem forem as pernas...
O imbróglio iniciou ao lhe fazer uma pergunta e, em vez de me responder, me perguntar se eu a estava vigiando. Confessei que não, não a estava vigiando e que ela deveria saber, por tudo que disse, escrevi e fiz, pois defendo que cada um realize o seu Caminho do jeito que quiser:
“Se quiser contratar táxi ou uma mula para levar mochila, que contrate; se quiser ficar só em hotel de luxo, tipo spa, ou em albergues particulares, tipo 4 num quarto, que fique... Faça cada um seu 'my way'. Só fico indignado quando este sujeito quer usar a estrutura criada para o peregrino, seja o albergue de 6 euros para o peregrino, seja o hospitaleiro voluntário para o peregrino..., para fazer turismo barato e alardear que faz peregrinação. ‘O que é isso, peregrino?’, diria Gabeira nos anos de chumbo...”
Argumentei ainda que agindo daquela forma, o tal peregrino – sempre indeterminado! – só estará perdendo uma boa oportunidade de conhecer a mística do Caminho e fazer uma verdadeira peregrinação. Disse ainda que acompanho algumas páginas do Caminho na Internet e acho engraçado a postura de alguns "peregrinos", que alardeiam que fazem isso e aquilo, por retórica, enquanto seus passos derrapam pelo Caminho:
“Insisto, não sou contra, nem a favor. O Caminho é de todos. Mas, não façam xororô, pois soa falso...”
Ainda pela manhã, na esteira das reflexões sobre o Caminho, minha timeline do Face ofereceu-me uma foto que tirei em 2015, no Caminho Primitivo. A data do post, contudo, era 2016, quando do lançamento do livro "A Última Peregrinação...", que refletiu sobre o que foi minha quinta peregrinação (que para mim não seria a última, pois voltaria em 2016 para peregrinar o Caminho Inglês e em 2017...)!
Insisti na minha convicção, que é a minha verdade – não admito censura e não negocio meu direito de manifestar minha opinião. E repeti pela enésima vez:
“Cada um peregrina o seu Caminho, pois de todos é o Caminho – este é o axioma. Mas não se engane, nem tente isso contra terceiros, se em vez de peregrinar você gosta mesmo é de turistar! Só não mande sua mochila de táxi para ser recepcionada pelo hospitaleiro, e nem utilize albergue público de 6 euros, muito menos os beneficentes!!!, pois esse patrimônio que sobrevive há 1.200 anos foi criado para o peregrino. Vá para os hotéis e spas que proliferam nas rotas sagradas”.
Para os do segundo grupo, atribuo apenas uma boa viagem!
Para os do primeiro grupo, a quem chamo peregrinos, desejo um entusiasmado Buen Camino!
#pedrasdocaminho
#xacobeo2021