domingo, 19 de junho de 2016

Ah! Betanzos


Santiago Mata Mouros no portal, da Igreja de Santiago: séculos XIV-XV

Com atraso de dois dias, pela falta de uma conexão honesta neste ponto da Galícia, seguem informações sobre o final da terceira etapa, realizada em 17 de junho, e considerações sobre a quarta (18) e quinta (19, hoje), com chegada em Hospital de Brumas...

O estupendo casco histórico de Betanzos, ao final de nossa terceira etapa do Caminho Inglês a Santiago de Compostela, conserva edifícios cuja arquitetura é referência na Espanha, pois refletem um período de vigor da Galícia. Fundamental ao peregrino é que junto a essas construções, também ocupando um antigo prédio restaurado, está o bem equipado Albergue de Peregrinos “Casa da Pescadería”, mantido pela Xunta da Galícia. A localização facilita desfrutar a beleza artística das construções – ainda que, na maior parte das vezes, apenas das fachadas, pois o horário de abertura nem sempre coincide com o final da peregrinação diária.
Ao circularmos por algum desses edifícios, tivemos a oportunidade de conhecer o interior apenas da Igreja de Santa Maria de Azougue, erguida durante os séculos XIV-XV. Esta igreja, junto com a Igreja de Santiago, edificada nos séculos XIV-XV sobre uma estrutura românica anterior, e a de São Francisco, originariamente construída no século XIV, são exemplos do gótico galego e conservam em seu interior inúmeros sarcófagos.
O edifício do Concello é um prédio reformado do final do século XVIII, e possui em seu interior vestígios do século XVI. Afirma-se que suas varandas foram, ao longo dos séculos, testemunhas privilegiadas dos episódios mais relevantes da história da Espanha.
O Pazo de Bendaña, onde está a Torre do Reloxo, é uma construção do século XV. A edificação foi reformada no século XVII e adotou a atual concepção barroca. Já a Torre é datada do século XVI e está colada à Igreja de Santiago, sem, contudo, fazer parte daquele patrimônio...
Ah! Mas, Betanzos tem muito mais a oferecer a quem dispõe de tempo para investigar, o que, no entanto, nem sempre é o caso de peregrinos...

#pedrasdocaminho


Altar-mor da Igreja de Santa Maria do Azougue: construída entre os séculos XIV-XV

Portal da Igreja de São Francisco: originariamente construída no século XIV

Torre do Reloxo: do século XV, colada à Igreja de Santiago

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Desfrutar e buscar

Água pura: “Por los vecinos de la fuente 1884”

A terceira etapa de nossa peregrinação pelo Caminho Inglês a Santiago de Compostela, de Pontedeume a Betanzos, foi daquelas que todo peregrino persegue em sonho. Não houve, por exemplo, a necessidade de caminhar em meio a veículos, quando muito em estreitas vias que unem pueblos esparsos e perdidos no tempo, e que estão circundados por bosques perfumados e repletos de pássaros...
É claro que não estamos no Caminho Francês, declarado Patrimônio Mundial pela Unesco, e portanto não é o caso de se exigir construções medievais e o rico legado cultural, artístico e arquitetônico de uma rota jacobea tradicional. Mas é, sim, um Caminho de Santiago, peregrinado por muitos ingleses que chegaram ao longo dos séculos aos portos de Ferrol e A Coruña – e proporciona momentos incríveis para quem busca viver intensamente os mistérios da peregrinação às relíquias do Apóstolo de Jesus, Tiago Maior, que repousam na cripta da Catedral de Compostela.
Esta nossa terceira etapa teve cerca de 20 quilômetros, e não se trata nem de recomendar, mas de frisar que a melhor, ou única, opção é realizá-la com uma parada em Miño, quase exatamente no meio do trajeto, onde é possível selar a credencial de peregrino na sede do Concello e se abastecer em algum dos muitos cafés da cidade. Afinal, como se disse, entre Pontedeume e Miño, e entre Minho e Betanzos, só é possível encontrar pueblos esquecidos e bosques... O que não é pouco!
E, claro, ao final da etapa, em Betanzos, nos surpreendemos com os edifícios históricos do casco antigo, que revelam a importância da cidade galega, com destaque, naturalmente, para as igrejas dedicadas a Santiago, a São Francisco e a Santa Maria do Azougue...
Em meio a tantas reflexões proporcionadas pela peregrinação neste ambiente, cito apenas uma, singela, eis que muito pessoal, pois em algum trecho desta etapa, muito possivelmente em seu início, superei a marca dos 2.000 quilômetros peregrinados pelos Caminhos de Santiago, já que, até então, considerando as cinco peregrinações anteriores, havia somado 1.960 quilômetros – um pouco mais, ou um pouco menos, tantas são as contradições entre as distâncias anunciadas oficialmente e em sites do Caminho.
Assim, repleto de felicidades por termos chegarmos muito bem ao moderno albergue de Betanzos, mantido pela Xunta da Galícia, esta terceira etapa do Caminho Inglês foi ideal para desfrutarmos os mistérios do Caminho e continuarmos nossa busca, uma gana que parece mover todo peregrino, visando se autoconhecer, se aprimorar, se lapidar, enfim, ser uma pessoa melhor.

#pedrasdocaminho

Bosques perfumados, em meio a pueblos perdidos no tempo...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O espírito do Caminho

Com Sandra e Carmen, chegando a Pontedeume:
alegria em rever e peregrinar com nossa amiga

Desde que convenci minha Sandra a peregrinar comigo a Santiago de Compostela, tinha certeza (?) – logo eu, um cético! – de que, apenas por isso, esta peregrinação seria ainda mais imponderável. Pois hoje, no segundo dia de nosso Caminho Inglês, recebemos a visita de nossa amiga santiaguense Carmen Vázquez Nolasco, que veio de Compostela, a cerca de 100 quilômetros de distância, para peregrinar conosco esta etapa, com cerca de 15 quilômetros, de Neda até Pontedeume.
Havia visto Carmen pela última vez no ano passado, ao completar o Caminho Primitivo. A reencontrei na Plaza do Obradoiro, aos pés da Catedral de Santiago, acompanhada da sobrinha e afilhada Maria. Foi um momento mágico, pois, ao mesmo tempo, também reencontrei duas peregrinas lituanas que conheci no Primitivo, Deimante Blagniene e Bozena Bienkunska (que viria a falecer tragicamente pouco mais de um mês após aquele dia e a quem dedico meu próximo livro, “A Última Peregrinação”, a ser lançado em 23 de julho, na Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos) –, e lá também apareceu o estimado frei franciscano Enrique Roberto Lista García, que eu e Sandra conhecemos em 2014, ao final da travessia de Assis a Compostela, perseguindo os passos de Francisco, em sua célebre peregrinação de 1214. Foi em 2014 que Sandra conheceu Carmen.
Com todos esses (poucos) detalhes que fiz questão de elencar, nem é preciso dizer quantos filmes passaram na minha cabeça ao reencontrar Carmen... Hoje, nas cinco horas de peregrinação que estivemos juntos tive a oportunidade de reviver muitos deles, reforçando nossos laços de amizade, que vão um pouco além disso e me fazem considerá-la a irmã que não tenho e que me foi presenteada por Santiago. Foi assim que a identifiquei na dedicatória do livro de “Passos do Amor”, que resgata a citada peregrinação de Francisco a Compostela.
Conheci Carmen num momento crucial do Caminho Sanabrês, que peregrinei em 2013 desde Zamora, ainda na Vía de la Plata. Havia feito a opção por uma variante do Caminho, que passa por Verín e outros pueblos raianos da Galícia, junto a Portugal, o que alargou minha peregrinação em alguns quilômetros, e deixei transparecer minha agonia, não só por isso mas por outras dificuldades desse Caminho (relatadas no livro “Descobrindo novos Caminhos”), num post do blogcomcebola.zip.net, que foi sucedido por este pedrasdocaminhodesantiago.
Pois Carmen, que acompanhava minha peregrinação, leu e, tal como fez hoje – embora agora o ânimo tenha sido de confraternização –, saiu de Compostela, a 200 quilômetros de distância, e foi ao meu encontro em Laza. Era noite, eu acabara de comer um menu e retornava ao albergue sozinho. Neste primeiro encontro, Carmen me levou remédio para as bolhas de meus pés, um par de meias de patinação, uma caixa de biscoitos feito por monjas de Compostela, alguns dos quais compartilhei com os peregrinos do albergue, e a cruz de Santiago que carrego comigo.
Hoje, mais uma vez, Carmen largou todos os seus compromissos, para nos reencontrar e celebrar o espírito do Caminho de Santiago.

#pedrasdocaminho

quarta-feira, 15 de junho de 2016

À prova d’água...

Com Sandra: mais do que uma prova de fogo

Ao contrário de uma ou outra vez em que o serviço meteorológico não acertou, como, se bem me lembro, em 2012, quando peregrinei o Caminho Aragonês, e, em vez de chuvas e raios, iniciei e realizei todo o trecho de Somport a Puente la Reina sob o maravilhoso sol da Primavera, desta vez, contudo, o serviço de clima da Espanha acertou em cheio. Bem, ao contrário de Aragão, estou na Galícia...
Pois a previsão de chuva 100% se concretizou e nesta quarta-feira, 15 de junho, ao iniciar... ops, iniciarmos – afinal, pela primeira vez em minhas sete peregrinações a Compostela, estou acompanhado de minha amada Sandra – o Caminho Inglês, chovia em Ferrol.
Não que a chuva seja um problema, pois pode até significar o contrário. Pelo sim e pelo não, em face de eventual controvérsia – se ela é um fator negativo ou uma benção –, não nos importamos em colocarmos a providencial capa de chuva que trouxemos e iniciamos nossa peregrinação debaixo do aguaceiro.
Como marco do início de nossa peregrinação, escolhemos a Catedral de Ferrol, dedicada a São Julião, e de lá, por volta das 8h40, sob uma chuva intermitente, ora fina, ora com pingos grossos e muito vento, caminhamos em direção a Neda, a meta de nossa primeira etapa. Um percurso com cerca de 15 quilômetros, ao longo da ría de Ferrol, e que é marcada por instalações militares da cidade portuária, um polígono industrial, e uma sequência de pequenos aglomerados urbanos, os conhecidos pueblos, e recheada de edifícios religiosos medievais.
Em meio a esse contexto inusitado, e considerando ainda que cada Caminho é um Caminho, portanto, com sua identidade e peculiaridades, a marca deste, com absoluta certeza, é a presença de Sandra. A diferença que isso faz é imensa. Não só pela companhia, mas por ser exatamente ela, que sempre quis ter ao meu lado desde a primeira peregrinação em 2009.
A minha, enfim, a nossa alegria foi uma constante neste primeiro dia, mesmo sob debaixo de chuva – que, a bem da verdade, chegou a dar uma trégua, com céu aberto e um sol que nos encantou... Depois de quase 5 horas, enfrentando também desvios provisórios devidos a obras de infraestrutura, chegamos ao albergue de Neda, um equipamento da Xunta da Galícia.
Quase ao mesmo tempo chegou um casal de holandeses e, após estarmos instalados, um casal de portugueses com um filho adolescente. Chegaram mais quatro peregrinas: uma espanhola, uma alemã e duas tchecas...
Há momentos em que a chuva para, mas logo recomeça. Numa dessas paradas demos uma corrida para comer, beber e comprar mantimentos para amanhã.
Sandra está animada e inteira. Para ela, em sua primeira peregrinação, foi mais do que uma prova de fogo...

#pedrasdocaminho

terça-feira, 14 de junho de 2016

Farinha pouca, minha mochila primeiro...

Estação ferroviária de Ferrol: nossa chegada para peregrinar o Caminho Inglês

A prática, já incorporada ao consciente de muitos peregrinos, está sacramentada no Caminho de Santiago e não motiva qualquer tipo de constrangimento – é o que testemunho nestes momentos em que me preparo de várias formas para aquilo que entendo como uma peregrinação a pé, desta vez pelo Caminho Inglês...
Estou em Ferrol, na Galícia, junto com minha Sandra. Será minha sexta peregrinação a pé a Compostela e a primeira de Sandra. Agora nos recuperamos do que pode ser chamada de a primeira fase da peregrinação, que não foi a pé, de Londres a Ferrol. Foram cerca de 2.000 quilômetros, que atravessamos de trem e ônibus, e em nossas passagens por Paris, Tours e Bordeaux, na França – na rota da Via Turonensis –, e em Santander, já na Espanha – no conhecido Caminho do Norte –, buscamos sinais e referências de Saint James, ou Saint Jacques, enfim, de Tiago Maior, o Apóstolo de Jesus, cujas relíquias descansam na cripta da Catedral de Compostela – e que impulsionam o fenômeno das peregrinações pela Europa.
A cena, já corriqueira no universo pós-moderno das peregrinações, foi presenciada enquanto tomávamos o café da manhã e o agente dos Correios entrou no salão, cumprimentou o senhor do balcão, dirigiu-se até os fundos e retornou carregando duas mochilas. Foi um momento muito rápido, sem tempo para o registro fotográfico, mas que disparou lembranças de todas minhas outras peregrinações – em especial da primeira, pelo Caminho Francês, em 2009, e uma hospitaleira me confessou sua irritação em acolher mochilas, em vez de peregrinos com mochilas... O episódio está relatado no livro “Pedras do Caminho, meu encontro no Caminho de Santiago de Compostela”, que inaugurou a trilogia Pedras do Caminho.
Minha trilha neste momento é Luar na Lubre. Ouço "Camariñas", penso em suas nenas e é impossível não se emocionar...
Não sei e efetivamente não me interessam os motivos que levaram os peregrinos a contratar os Correios para transportar a mochila de cada um. Já disse inúmeras vezes e repito: a peregrinação, sob todos os aspectos, é uma opção íntima, e a forma de realizá-la há de ser respeitada por quem quer que seja. Não faço e não considero esse tipo de julgamento. Como peregrino, pelo contrário, incentivo e tento inspirar as pessoas a peregrinarem à Compostela. Se irão de avião, de trem, ônibus, carro, ou a pé, é problema de cada um!
Claro que a hipótese chega a ser levantada por Sandra, em sua primeira peregrinação, e por este peregrino sexagenário, não só pelas seis peregrinações já realizadas..., afinal, no meu caso, livrar-se do notebook durante a caminhada poderia significar cerca de 3 quilos de peso sobre a coluna, o quadril, enfim, impactando sobre todas as articulações possíveis e imagináveis do corpo. Parece razoável! Mas, será mesmo? Ainda mais quando se está a falar do Caminho Inglês, com seus 120 quilômetros?
As dúvidas me levam a ponderar e aprofundar minhas reflexões sobre o que aprendi ao longo dos últimos anos sobre o sentido da peregrinação em meu corpo, em meu espírito, em minha mente.
Estou preparado. Confio em Sandra e sei que está preparada, do contrário não estaria aqui, mostrando alegria e ânimo em enfrentar os desafios de uma peregrinação a pé. Reviver o universo jacobeo e iniciar minha amada neste mundo me torna o peregrino mais feliz deste mundo.
Não, minha mochila não chegará primeiro ao próximo albergue. Aqui, ela faz parte de mim. É como uma extensão do mínimo, ou um pouco mais..., do que necessito. Meu notebook vai comigo.
Passa à frente, Santiago!

#pedrasdocaminho