terça-feira, 9 de junho de 2015

Primitivo? Não, o último. Talvez...

Catedral de Oviedo, início da peregrinação

Há algum tempo, refletindo sobre o motivo de ter optado pelo Caminho Francês na minha primeira peregrinação a Santiago de Compostela, levantei uma série de ponderações, entre as quais, com certeza a principal, o fato de que até então, em 2009, não conhecia o Caminho Primitivo – como o nome diz, o primeiro, realizado desde Oviedo pelo primeiro peregrino da história da rota, Alfonso II, O Casto, rei das Astúrias.
Óbvio, pois se nada sabia sobre o Primitivo, que afinal detonou o fenômeno das peregrinações a Santiago de Compostela, não poderia ter sido minha escolha – o que, porém, desde o momento em que soube de sua existência, passou a fazer parte de meus sonhos.
Como aceito a máxima de que Deus escreve certo com linhas tortas, desde então aceitei esta ordem, mas, ao mesmo tempo, me perguntava porque razão não teria feito primeiro o Primitivo em vez do Francês em 2009. As considerações são muitas e talvez já as tenha esgotado no texto postado há mais de um mês e que está mais abaixo. A lógica parece insofismável: se o Primitivo é o primeiro, o meu primeiro deveria ter sido o Primitivo. Mas, não foi.
O tempo passou e hoje, 8 de junho de 2015, estou aqui, neste exato momento, em Tineo, ao final da terceira etapa do Caminho Primitivo, desde Oviedo, rumo a Santiago de Compostela.
A primeira etapa, conforme está em meu plano (também em post abaixo), que vai se cumprindo, apesar de cada vez mais estar convicto de que muitas informações dos guias, nos quais me baseei, não estavam corretas, mas, enfim..., foi de Oviedo a Grado, que teria cerca de 23,6 quilômetros. Para mim foi uma etapa duríssima e classifiquei-a, repetindo um termo muito utilizado pelos espanhóis, como “rompe piernas”. Assim me senti, com as pernas rompidas, ao final, após mais de nove horas de peregrinação.
Diferente de minhas outras quatro peregrinações, realizadas sempre só, admiti, a pedido de minha amada Sandra, ter a companhia de outros peregrinos, e assim foi feito. De Oviedo sai com o italiano Fiore, que havia conhecido no dia anterior, ao final de sua peregrinação pelo Caminho de San Salvador, desde León. Logo se juntou a nós a espanhola Maite. Passamos por uma sequência de pueblos, como San Lázaro de Paniceres, Loriana, Escamplero, Premoño, Peñaflor, atravessando belos bosques, sendo recepcionados por antigos moradores, como Manoela, de 92 anos, e diferentes animais, cachorros, gatos, bois, cavalos... até alcançar Grado. Neste pueblo, que não possui albergue, fomos abordados por um agente, de carro, do albergue de Cabruñana, distante 5 quilômetros – fora do Caminho Primitivo... –, que convenceu Maite, que, muito cansada aproveitou a carona e nos deixou... Tudo bem, eu e Fiore aproveitamos a hospitalidade (nem tanto...) do único hotel de Grado.

Peregrinando com a espanhola Maite e o italiano Fiore

Descendo, sempre com cuidado pelo piso escorregadio...

Dona Manoela, 92 anos e muita disposição

Animais dóceis no Caminho

Quase chegando a Grado, no final da primeira etapa

Muito cansado e abalado pelo longo primeiro dia de peregrinação...

Ops! Aqui dou uma pausa em minhas reflexões, pois, já na cama do albergue de Tineo, sentindo fortes dores no joelho esquerdo, amanhã estou programado para a quarta etapa, até Borres...

Já no dia seguinte... 9 de junho (afinal, hoje), avalio que nem tanto pelas dores, mas pela perspectiva real de comprometer minha peregrinação, resolvi buscar auxílio médico para saber a real situação de meu joelho esquerdo. Para tirar a dúvida acionei o seguro, que, sem atendimento em Tineo, que não possui hospital, me indicou como mais próximo o hospital de Cangas del Narcea, distante cerca de 40 quilômetros. Fui e voltei de ônibus, com o diagnóstico de tendinite, após avaliação médica e raio-x. Tomei uma dose de anti-inflamatório, bolsa de gelo local e orientação para descansar de dois a três dias.
Se contar que desde ontem estou aqui, descansarei dois dias..., pois amanhã pretendo cumprir a quarta etapa da peregrinação até Borres.
Mas, detalhava sobre as etapas até então realizadas até Tineo.
A segunda etapa, de Grado a Salas, no domingo 7 de junho, embora me tenha sido apresentada pelos guias com cerca de 21,6 quilômetros, me pareceu ter 25, ou mais!!! Trecho difícil, com sequências de subidas e descidas e, realizado em período em que a região das Astúrias registra chuvas e excesso de umidade no ar, com muita lama. Logo no início, continuando a caminhar com o peregrino italiano Fiore, enfrentamos uma subida forte até San Juan de Villapañada, com muita névoa. Durante o caminho passamos por vários pueblos, como Santa Eulalia de Dóriga, Cornellana, que abriga o Monastério de San Salvador, fundado em 1024, que está sendo recuperado, Llamas, Quintana, Casazorrina e, finalmente, Salas, cujo casco antigo destaca a Colegiata de Santa María la Mayor, gótica e renascentista do século XVI, onde está o mausoléu do arcebispo Valdés-Salas, e que está localizada junto ao Palácio de los Valdés.

Adios, Grado: neblina no segundo dia de peregrinação

Peregrinando com o italiano Fiore

Belos bosques do Principado das Astúrias

Pedras do Caminho Primitivo

Monastério de San Salvador, em Cornellana

Sinais do Caminho Primitivo

Colegiata de Santa María la Mayor, em Salas

Nesta tarde de domingo, em Salas, despedi-me de Fiore, que, com a disposição dos 43 anos, continuou sua peregrinação até Bodenaya, somando mais uns cinco quilômetros. Após instalar-me no albergue de peregrinos, para minha surpresa reencontrei a espanhola Maite.
Sem bolhas nos pés, mas já com dores no joelho esquerdo, talvez devido a um quase escorregão nas pedras do trecho de Grado a Salas, descansei com a certeza que no dia seguinte, a segunda-feira 8 (enfim, ontem), estaria melhor. E estava!
Meu terceiro dia de peregrinação compreendeu – segundo os guias – 19,8 quilômetros, entre Grado e Tineo... Mas, acho que esta distância foi medida pela estrada, porque pelos bosques, encharcados pelas chuvas, com muita lama, exigindo todo cuidado... é possível que o percurso passe dos 22 quilômetros, entre tantas subidas e descidas. Enfim, a etapa oferece belas paisagens, muitos animais, gente simples nos pueblos, passando primeiro por Bodenaya, após uma forte subida, depois Porciles e La Espina, depois um trecho pela rodovia atravessando La Pereda, El Pedregal... finalizando com mais 7 ou 8 quilômetros pelos bosques úmidos, com subidas e descidas, muito mais subidas... até Tineo.

Adios, Salas: peregrinando, como sempre...

Desejo de sorte e buen caminho ao peregrino: SantiaGO

Peregrinos franceses Sylvia e Ralph

Marcos garantem a boa sinalização do Caminho Primitivo

Peregrinos espanhóis Marcelo e Antonio

Gina, a peregrina inglesa

Peregrina alemã Josephine

Chuvisco intermitente e muita lama no Caminho

Os sinais do Caminho nas Astúrias

Peregrinos espanhóis Henrique e Yenay

Pronto, e aqui estou em Tineo – pois, preocupado com o inchaço e as dores do joelho, dormi a primeira noite, e acordei nesta terça-feira 9 com disposição de tirar a dúvida com uma avaliação médica – conforme detalhei acima. Diz o médico que foi uma má pisada, somada ao excesso de esforço, que inflamou, e que com descanso e medicamentos, meu joelho voltará ao normal, ou ficará melhor. Assim é a tendinite. Não se sabe quando chega, muito menos quando vai. Tem o seu tempo. Pois, eu também tenho o meu tempo!!! Quebrar, não quebra, me garantiu o especialista.
A dúvida permanece nesta retomada de peregrinação, recebendo, contudo, o apoio de amigos e de minha amada Sandra de que amanhã acordarei bem melhor, podendo, enfim, cumprir mais uma etapa de meu objetivo, me posicionando em Borres.
Ah! Sobre o título deste post, cada vez vai ficando mais claro para mim o motivo pelo qual o Primitivo não foi meu primeiro Caminho. Talvez não tivesse peregrinado outros. Talvez ele seja, isto sim, meu último...
Santiago, passa à frente!

#pedrasdocaminho 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Viva a Fraternidade!

Com o grupo de peregrinos: Pilar, Rosa, Amparo, Pepe e Fiore

Oviedo estampa em seu escudo inúmeros títulos, na verdade estupendas virtudes, de “muy noble, muy leal, benemérita, invicta, heroica y buena”, e isso pode até parecer coincidência pois resumi, dias atrás, minha busca, uma busca sem fim no Caminho de Santiago, por virtudes – visando, evidentemente, assimilá-las, incorporá-las, cultivá-las, enfim, utilizá-las como um cinzel na lapidação de meu ser. Não é fácil, por isso insisto. E hoje, às vésperas de iniciar minha peregrinação pelo Caminho Primitivo, quando as oportunidades florescem neste final de Primavera europeu, o dia foi pródigo em me enfatizar as virtudes, a principal delas, talvez, a fraternidade.
Aliás, esta palavra me persegue há alguns anos. Numa dessas vezes, em 2008, ao entrevistar meu irmão peregrino José Roberto Lisbôa Jr., sobre sua diplomação como hospitaleiro em Castrojeriz, no Caminho Francês, pedi que me sintetizasse o Caminho de Santiago e ele disse “fraternidade”. Utilizei a palavra na manchete da reportagem e, inspirado, seis meses depois peregrinei o Caminho Francês, disparando minha busca pelo espírito do Caminho, enfim, pelas virtudes...
Se fosse detalhar todas, absolutamente todas as situações que aconteceram hoje comigo em que a fraternidade, entre outras virtudes, esteve presente, teria que contar encontro por encontro, desde a gentil garçonete no café da manhã, passando pela atenciosa ovetense na rua, a religiosa que me convidou à missa que iria acontecer naquele instante na capela da Catedral..., o encontro com o peregrino espanhol Pepe na porta da Catedral.
Oviedo permite o encontro de alguns Caminhos. Pepe havia acabado de peregrinar o Caminho de San Salvador, de León a Oviedo. Também é possível recepcionar peregrinos do Caminho do Norte... Conversamos e logo nos identificamos. Fomos entrevistados por uma universitária que realizava pesquisa sobre o movimento de peregrinos na cidade. Tomamos café. Retornamos à Catedral para reencontrar o peregrino italiano Fiore, que Pepe conheceu no Caminho. Sentamos na mesa de um bar na praça da Catedral e logo chegaram as três peregrinas espanholas, Pilar, Rosa e Amparo, que completavam o grupo formado no Caminho de San Salvador.
Foram muitas impressões trocadas e, entre tantas manifestações de carinho e solidariedade, Amparo levou seu nome ao pé da letra e foi buscar no hotel para  mim um tubo de vaselina, garantindo que o produto impediu as bolhas em seus pés, assim como nos das amigas. Eu, como sempre colecionei bolhas em todas as peregrinações, classificando-as como “troféus”, agradeci o presente e vou testá-lo. Após três horas de papo, nos despedimos, cada um deles se preparando para retornar para casa, com exceção de Fiore que, com tempo, ficou de avaliar a possibilidade de se reencontrar comigo amanhã às 8 da manhã, em frente à Catedral, o ponto emblemático que simbolizará o início de minha peregrinação. Não acredito, mas, enfim...
O dia continuaria me surpreendendo com situações desconcertantes e, após descansar um pouco, resolvi conhecer o albergue de peregrinos de Oviedo. Os bons encontros foram se sucedendo até localizar o albergue, conversar com a jovem hospitaleira, que me auxiliou indicando no mapa o trajeto perfeito do Caminho, a partir da Catedral, demonstrando muito boa vontade, já que a sinalização é um dos pontos fortes do Primitivo, mas, enfim, pude sentir no ambiente o espírito do Caminho... Nos despedimos e, ao retornar pelas ruas de pedras de Oviedo para procurar outros pontos de visita, como as muralhas, o Museu de Arqueologia..., me deparei com dois peregrinos parados numa esquina, um deles com mapa na mão, tudo indicando dúvida para onde seguir. Abordei-os, constatei que o mapa estava invertido, e identificaram-se franceses em busca do albergue. Ora, havia acabado de visitá-lo! Indicar o caminho correto e ver a alegria estampada no rosto dos dois me deixou emocionado e assim caminhei durante algum tempo... Quem sabe os encontro amanhã. Santiago, passa à frente!

#pedrasdocaminho

Pepe entrevistado na porta da Catedral

Albergue El Salvador: espírito do Caminho...

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Reflexões em Oviedo

Chove em Oviedo: oportunidade para refletir e equalizar 

Como as situações estão acontecendo sem atropelos, redobro minha vigilância, já em Oviedo, buscando as melhores alternativas em cada passo e focado em equalizar meu relógio com o fuso horário da Espanha, cinco horas a mais em relação ao Brasil. O impacto no corpo e na mente, que afinal comanda o corpo... ou seria o contrário... bem, esse impacto é poderoso para definir o ânimo em minhas decisões, na solidão dos meus pensamentos e na saudade que me acompanha. O que me acalenta, via Face e WhatsApp, é o amor da mulher e o carinho dos irmãos e amigos. E, claro, o olhar e atenção das muitas pessoas que já encontrei e vou continuar encontrando em mais esta peregrinação a Santiago de Compostela.
No voo de São Paulo a Madri, foi a doce dona Terezinha, com seus 78 anos, e a coragem de viajar sozinha para Lisboa, para rever parentes, que me aquietou e eu a ela. No voo de Madri ao aeroporto das Astúrias, três poltronas para compartilhar minhas reflexões. No táxi até Oviedo, muita troca de energia com o uruguaio que com a família há 12 anos vive aqui, terra dos pais... Na magnífica Catedral de Oviedo, a gentileza e o sorriso fraterno no acolhimento de peregrinos de todo o mundo que vão celebrar O Salvador e se surpreender com as relíquias da Câmara Santa, onde está o Santo Sudário que cobriu o rosto de Jesus. Na oficina da Catedral obtive minha credencial de peregrino e meu primeiro selo...
Dormi, sonhei, sofri com câimbras, e me recuperei um pouco. Dia ainda, com a cidade pulsando – os Correios, por exemplo, encerram atividades às 20h30! – voltei a caminhar, procurando clarear as ideias e alinhar os ponteiros. Depois do farto menu do almoço, optei por uma salada e fui surpreendido com a combinação de cogumelos fritos ao alho. Excelente, comentei com o garçom, um boliviano casado com uma brasileira de Anápolis, que brincou: “Cogumelos à passarinho!”, sem antes me alertar a ter cuidado nos passos de minha peregrinação.
Pois é, com as coisas dando certo, redobro minha atenção – já na cama, passando das 22 horas – limite de dia para um peregrino..., mas, no Brasil, pouco mais de 5 da tarde.
Vou buscar... o sono e, quem sabe, conferir o planejamento de minha peregrinação pelo Caminho Primitivo, que começarei no sábado, em 14 etapas, totalizando cerca de 312,8 km. Vamos ver na prática...
1ª Etapa, Oviedo a Grado, 23,6
2ª Etapa, Grado a Salas, 21,6
3ª Etapa, Salas a Tineo, 19,8
4ª Etapa, Tineo a Borres, 15,2
5ª Etapa, Borres a Berducedo, 26
6ª Etapa, Berducedo a Grandas de Salime, 19,6
7ª Etapa, Grandas de Salime a Fonsagrada, 27,6
8ª Etapa, Fonsagrada a O Cádavo, 25,4
9ª Etapa, O Cádavo a Lugo, 31
10ª Etapa, Lugo a San Romão da Retorta, 19,6
11ª Etapa, San Romão da Retorta a Mélide, 30,2
12ª Etapa, Mélide a Arzúa, 14
13ª Etapa, Arzúa a O Pedrouzo, 19,4
14ª Etapa, O Pedrouzo a Santiago de Compostela, 19,8.
"Quien va a Santiago y no al Salvador, visita ao siervo y deja al señor", diz antigo provérbio do Caminho de Santiago, referindo-se a Oviedo, que abriga a Catedral de San Salvador - com suas relíquias, entre as quais o Santo Sudário... Hoje, finalmente, corrigi a falha que carregava comigo desde 2009, quando peregrinei o Caminho Francês.
Estou alerta, como no tempo de “lobinho”; estou confiante, como um peregrino de fé. Nada me faltará. Santiago, passa à frente!

Na Catedral de Oviedo: honrando o Salvador

El Salvador, no interior da Catedral 

Santo Sudário: relíquias na Câmara Santa da Catedral

#pedrasdocaminho

domingo, 31 de maio de 2015

O espírito do Caminho

Santiago peregrino, a imagem mais antiga da Espanha, século XI:
no portal da Igreja de Santa Marta de Tera, Caminho Sanabrês

Vou em busca do espírito do Caminho de Santiago. Não é simples compreender isso. É possível que algumas pessoas nunca consigam – ou nem precisem. Não tem nada a ver com livrar-se das tarefas do dia a dia em sua cidade, em seu país, e deixar tudo acontecer na Espanha, e lá fazer aquilo que der na cabeça, transgredir e nem ligar para as consequências... Isto é outra coisa e tem mais a ver com aquele período da vida de qualquer um, no qual a responsabilidade não faz parte das prioridades pessoais; e quando, muito menos, interessa cultivar virtudes.
Ah!, sim, vou em busca do espírito do Caminho de Santiago, pois sei que nele é possível descobrir virtudes. Elas estão em todos os lugares, nas pedras do Caminho, nos bichos, na gente, enfim, na mística da peregrinação às relíquias do Apóstolo de Jesus, Tiago Maior, guardadas na cripta da catedral de Santiago de Compostela.
Com a popularidade acumulada ao longo de 12 séculos, todos os Caminhos que levam a Santiago de Compostela atraem pessoas de várias partes do mundo, a grande maioria, naturalmente, da própria Espanha. Afinal, tendo Santiago como patrono de seu país, para o espanhol a peregrinação não é uma decisão qualquer: não se trata, por exemplo, de fazer turismo. Pelo contrário, é uma escolha séria, cercada de ritual, comparada a uma prova de vida. Não é como acontece em muitos outros países, entre os quais o Brasil, na qual a peregrinação a Santiago parece não fazer o mesmo, ou nenhum sentido, sendo equivalente a uma viagem de lazer, como a Ouro Preto, Caldas Novas, ou às Cataratas do Iguaçu.
Um desentendimento, contudo, que não tem qualquer importância, seja para o espanhol ou para os povos que possuem a dimensão da peregrinação, seja para os demais, para os quais tal esforço, como se disse, não tem o mesmo, ou qualquer significado, representando tão-somente um passeio por paisagens fantásticas, enriquecidas por um monumental patrimônio histórico, artístico, arquitetônico, palco de batalhas intermináveis que transformaram civilizações, berço de nossos antepassados...
Pois se é assim, cada caminhante é dono do seu Caminho e há de percorrê-lo do jeito que lhe convier, sem qualquer compromisso ou, como diria o poeta, “sem lenço e sem documento”. Com essa disposição, o caminhante – e aqui já é possível chama-lo de andarilho –, interpretará a seu modo cada provérbio do Caminho, como o que ensina que “o Caminho sou eu”, ou “o Caminho se faz caminhando”.
E que se cuide quem ousar impedi-lo de caminhar!!!
Mas não haverá, com absoluta certeza, quem o censure a caminhar, pois uma das virtudes do Caminho é a liberdade, e nesse sentido qualquer um é livre para caminhar, com a indumentária e os equipamentos que quiser, visando apreciar a bela paisagem e usufruir de toda a infraestrutura fomentada para atender ao peregrino.
Ao final de rápidas ponderações – sobre as quais, aliás, escrevi alguns livros... –, fica fácil distinguir o espírito da peregrinação por meio de uma famosa máxima do Caminho:

“El turista viaja,
El senderista anda,
El peregrino busca.”

Para vivenciar a mística do Caminho de Santiago e, por meio da peregrinação, garimpar virtudes, encontrando-as nas mais sublimes atitudes, seja na saudação dos moradores dos pueblos, no acolhimento dos hospitaleiros, em especial entre os que exercem a atividade de forma voluntária nos albergues, e mesmo entre peregrinos (de qualquer nacionalidade), não basta simplesmente caminhar. Ou seja, não basta ESTAR! Para penetrar no universo da peregrinação, envolver-se com o espírito do Caminho de Santiago, evoluir ao encontrar-se consigo mesmo neste ambiente em que prevalecem as virtudes, como a solidariedade, a amizade, o amor, a fraternidade, o respeito, a caridade..., é preciso SER.
A escolha, obviamente, como já se disse e se reitera, é livre de cada um e cada qual deve saber de sua vida e responder por seus atos. A propósito, ainda que nos dias de hoje muitos (nem todos...) que fazem o Caminho assumam motivos turísticos, lembro de um ensinamento obtido numa de minhas peregrinações, em 2010, Ano Jacobeo, pelo Caminho Português. Na ocasião, o hospitaleiro me revelou que dois franceses haviam acabado de descer de um táxi, nas imediações do albergue e, flagrados, foram logo explicando que um deles havia torcido o pé, mas que no dia seguinte estavam dispostos a voltar ao ponto onde haviam contratado o táxi para dali retomar a peregrinação. O hospitaleiro teria autoridade para negar acolhimento, indicando uma Casa Rural ou hotel, mas, em vez disso, recepcionou os caminhantes. Apenas advertiu: “Sobre o Caminho, vocês se acertam com o Apóstolo em Santiago!”.
Como no post imediatamente abaixo – hoje, já contando as horas... –, logo mais iniciarei minha peregrinação pelo Caminho Primitivo, desde Oviedo. Será minha quinta peregrinação a Santiago de Compostela e, por tudo o que aprendi nas anteriores, espero que não seja a última, até porque entendo que essa busca é sem fim – como intitulei o terceiro livro da trilogia Pedras do Caminho...
Por ora, cuido dos detalhes desta peregrinação, que envolve a magnífica história do começo da peregrinação a Santiago de Compostela, e que se insere no processo da famosa Reconquista... Trata-se de um percurso em torno de 320 quilômetros, que atravessa belas paisagens dos Picos de Europa, onde a presença do apóstolo Tiago Maior é celebrada no contexto de conhecido provérbio da Idade Média: “Quien va a Compostela y no visita al Salvador, honra al criado y se olvida del Señor”.
Santiago, passa à frente!

#pedrasdocaminho

terça-feira, 28 de abril de 2015

12 séculos de peregrinação

Cruz símbolo do Reino das Astúrias

Neste momento em que conto dias para o embarque a Madri, e de lá a Oviedo, desde onde inicio minha peregrinação, ops, tudo bem, não tenho dúvida de que já estou no Caminho!, que ele iniciou no exato momento em que decidi a peregrinação, mas, enfim..., falava sobre Oviedo, na Espanha, desde onde inicio minha peregrinação pelo Caminho Primitivo a Santiago de Compostela, um percurso de cerca de 310 quilômetros, refazendo o roteiro do rei Alfonso II, o Casto, realizado no primeiro terço do século IX, segundo conta a tradição, embora alguns autores sustentem ter ocorrido exatamente em 812, 813, ou mesmo em 815 – o que pode significar que em 2015 estaríamos completando 1.200 anos! –, ou em 820..., enfim, desde Oviedo, para repetir a viagem do guerreiro rei das Astúrias (região que envolvia a Galícia e foi a primeira na Península Ibérica que se libertou do domínio dos mouros, dando ânimo ao processo da Reconquista...), que deixou a sede do reino até o local onde a autoridade eclesiástica representada pelo bispo Teodomiro, de Iria Flávia, alertado pela descoberta do eremita Pelágio, ou Paio, havia identificado no bosque de Libredón um sepulcro de pedra com três corpos, o do apóstolo de Jesus, Tiago Maior, e de dois dos seus discípulos Teodoro e Atanásio...
Para quem acompanha cada detalhe deste relato não há de ter dúvida que se está diante não só do primeiro, de onde deriva seu nome, Primitivo, mas, talvez – afinal a comparação é muito difícil –, do mais interessante, do mais espetacular... (do mais antigo com absoluta certeza), dentre os Caminhos que levam a Santiago de Compostela, sem querer desmerecer o Caminho Francês, o preferido dos peregrinos atuais, ou a Vía de la Plata, que vem desde Sevilha e está alicerçado (como aliás outros também estão) na magnífica rede de vias romanas, descrita no Itinerarium Provinciarum Antonini Augusti, o Itinerário de Antonino, consolidada nos primeiros séculos da era cristã...
Mas, voltando ao Caminho Primitivo, conta a tradição que após peregrinar até o local indicado pelo bispo Teodomiro, tornando-se assim o primeiro peregrino às relíquias de Santiago, o rei Alfonso II das Astúrias determinou a construção de uma pequena igreja – que viria a ser ampliada nas décadas seguintes até transformar-se na magnífica catedral de hoje, cuja construção iniciou em 1075, e onde em sua cripta repousam as relíquias... Pois foi a partir do incrível achado que teve início o fenômeno das peregrinações. E não apenas desde Oviedo, mas induzindo rotas de vários pontos da Europa, como se disse, quase sempre aproveitando e reconstruindo a antiga rede de vias romanas, o que serviu para repovoar o antigo assentamento romano, possivelmente um mansio, que passou a se chamar Santiago de Compostela, tornando-se a terceira maior rota de peregrinação cristã do planeta, superada apenas por Jerusalém e Roma.
Para reforçar sua convicção nesta tradição, veja este interessante vídeo de 7m45’. Clique na foto:


Discípulos trazem o corpo de Tiago Maior...

Diante de tudo isso, neste momento, como já disse, em que conto dias, me pergunto por qual motivo o Primitivo não foi minha primeira escolha para o meu encontro no Caminho de Santiago? Fácil, não conhecia este Caminho. Afinal, ao decidir peregrinar em 2009 a Santiago, fui inspirado a fazer os 800 quilômetros do Caminho Francês, desde Saint Jean Pied de Port, disposto a atravessar os Pirineus, da França a Espanha. Escolhi o Francês pelo fato de ser o mais famoso, o mais celebrado, o mais estruturado, aquele que serviu de cenário para a famosa ficção de Paulo Coelho... Mas, então, porque não foi o segundo? Da mesma forma, ainda não conhecia o Primitivo – se é que isso é possível! Minha segunda peregrinação foi pelo Caminho Português, em 2010, desde a cidade do Porto, cerca de 240 quilômetros até Santiago. E, depois, em 2012, porque não foi o meu terceiro Caminho a Santiago? Ora, continuava a ignorar o Primitivo. E, diante das opções avaliadas, escolhi enfrentar os cerca de 180 quilômetros do Caminho Aragonês, no trecho entre Somport, nos Pirineus, a Puente la Reina, onde ele se encontra com o Caminho Francês (atualmente, a bem da verdade, o encontro acontece alguns quilômetros antes, em Obanos...).
Meu despertar ao Caminho Primitivo só viria a acontecer, de forma efetiva, após concluir a peregrinação pelo Caminho Aragonês, quando revisava e escrevia textos para “Busca sem fim”, o terceiro livro da trilogia “Pedras do Caminho”. Conheci o Primitivo em meio a tantas novas informações sobre a mística do Caminho de Santiago, entre as quais, o conceito de rotas tangenciais, uma tendência secular de antigos peregrinos que se desviavam dos caminhos tradicionais para celebrar relíquias e santuários; eu mesmo tendo adotado uma rota tangencial, sem ter a dimensão do que fazia, em 2009, ao sair do tradicional Caminho Francês e ir ao encontro da Ermita de Eunate, um dos marcos dos cavaleiros da Ordem do Templo no Caminho Aragonês, e, em 2012, ao deixar o tradicional Caminho Aragonês e seguir até o Monastério Real de San Juan de la Peña, onde, segundo a tradição, durante alguns séculos ficou guardado o Santo Graal...
Neste momento, aliás, tive a dimensão de que nada, ou muito pouco sabia sobre o Caminho de Santiago – afinal, são 12 séculos de história da famosa rota de peregrinação!!! Desde então uma máxima do Caminho passaria a me perseguir:
Quien va a Compostela y no visita al Salvador, honra al criado y olvida al Señor.
A frase refere-se a Oviedo, onde está a Catedral de El Salvador, cuja Câmara Santa guarda inúmeras relíquias, como a Cruz dos Anjos, doação de Afonso II e símbolo de Oviedo; a Cruz da Victória, doação de Afonso III (século X), símbolo das Astúrias; e, com certeza a mais importante, uma das duas peças do Santo Sudário, a que protegeu a cabeça de Jesus após sua crucificação... – a outra, que abrigou o corpo de Jesus, está em Turim, na Itália.
Aliás, é levando ao pé da letra a célebre frase que persegue o Caminho desde o período da Alta Idade Média que muitos peregrinos do Caminho Francês, quando chegam a León, adotam uma rota tangencial, denominada Caminho Salvador, com cerca de 100 quilômetros, e seguem direto a Oviedo, para demonstrar que não, não esquecem o Salvador...
Ora, se já sabia tudo isso em 2012, qual a razão de o Caminho Primitivo não ter sido a minha escolha natural em 2013, quando realizei minha quarta peregrinação, desta vez pelo Caminho Sanabrês? Boa pergunta. Mas, estou tranquilo para repetir os argumentos que articulei ao relatar o belo percurso, passo a passo, etapa por etapa (e foram 16!), no livro “Descobrindo novos Caminhos”, lançado em março passado na Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, no litoral do estado de São Paulo. Sim, assumi o desafio de peregrinar os cerca de 420 quilômetros do Caminho Sanabrês, iniciado na verdade de Zamora, ainda na Vía de la Plata, porque este Caminho, como o Francês e o Português, chega direto a Santiago de Compostela. Ou seja, é diferente, por exemplo, do Aragonês, que, como disse, se encontra com o Francês em Puente la Reina (hoje, um pouco antes, em Obanos...), seguindo juntos para Santiago de Compostela. É diferente também da Vía de la Plata, que se encontra com o Francês em Astorga... É diferente ainda do Caminho do Norte, que se encontra com o Francês em Arzúa... E é diferente do Primitivo, que se encontra com o Francês em Mélide...
Hoje, superado esse detalhe – e já de olho no Caminho Inglês (que continua um segredo para mim e um dos que chega direto a Santiago de Compostela...) – agora é a vez do Caminho Primitivo. É tarde? Não acredito. Nem cedo, nem tarde, a energia do Caminho Primitivo entrará na minha vida no momento certo, numa circunstância muito especial, no qual me considero preparado para mais este esforço, não só físico e mental, mas especialmente pelo volume de conhecimento que adquiro nas pesquisas históricas que faço sobre a formação e a importância do reino das Astúrias..., um esforço que interpreto como essencial para me lapidar neste processo de autoconhecimento e renovação espiritual. Acredito que tenha que ser assim mesmo.
Oviedo, estou chegando.
Santiago, passa à frente!

#pedrasdocaminho